sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - La Selva Subterrânea - Capítulo 14!

 


Nem tudo que nos fortalece precisava ter acontecido!

Depois de atravessar uma experiência difícil, é comum ouvir frases como:

“Foi bom que aconteceu.”
“Deus quis assim.”
“Você precisava passar por isso para ficar mais forte.”

Às vezes essas frases são ditas com a intenção de consolar.

Mas existe uma diferença importante entre reconhecer que uma pessoa desenvolveu força depois de uma experiência e concluir que aquela experiência precisava ter acontecido.

No capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés faz uma ressalva muito clara ao falar sobre resistência. Ela explica que o fato de alguém se fortalecer depois de uma experiência não torna aceitável o mal que lhe foi feito.

Essa diferença parece simples, mas muda muita coisa.

Fortalecer-se depois não transforma a dor em algo bom!

Uma pessoa pode desenvolver limites depois de ter sido invadida.

Pode aprender a se posicionar depois de ter sido silenciada.

Pode encontrar autonomia depois de ter vivido uma relação em que perdeu espaço.

Pode reconstruir a própria vida depois de uma perda.

Tudo isso é real.

Mas nada disso significa que a invasão, o silenciamento, a relação destrutiva ou a perda tenham sido necessários.

Podemos reconhecer o que nasceu depois sem transformar aquilo que aconteceu antes em uma bênção.

Resistência não é romantização do sofrimento!

Clarissa usa a palavra resistência de um modo mais amplo do que simplesmente “aguentar”.

Para ela, resistir também envolve tornar-se mais firme, fortalecer-se e desenvolver recursos ao longo da travessia. Ela escreve que “não continuamos só por continuar” e que a resistência indica que algo está sendo criado.

Isso não significa:

“Quanto mais eu sofrer, mais forte vou ficar.”

Nem:

“Se eu fiquei mais forte, então aquilo foi bom para mim.”

A questão é outra.

É perguntar:

“Diante do que aconteceu, o que eu precisei desenvolver para continuar?”

Talvez tenha sido coragem.

Talvez discernimento.

Talvez limite.

Talvez capacidade de pedir ajuda.

Talvez a decisão de não aceitar novamente aquilo que um dia pareceu normal.

Dar sentido não é justificar!

Existe também uma diferença entre encontrar um sentido pessoal depois de uma experiência e dizer que ela aconteceu por um motivo determinado.

Uma pessoa pode olhar para trás e pensar:

“Depois disso, passei a perceber melhor meus limites.”

Ou:

“Aquilo mudou a forma como eu me relaciono.”

Ou ainda:

“Descobri forças em mim que eu não conhecia.”

Essas são formas de elaboração.

Mas são diferentes de afirmar:

“Isso precisava acontecer comigo.”

Nem sempre precisamos transformar a dor em destino para conseguir integrá-la à nossa história.

“Deus quis assim”

Essa frase merece cuidado especial porque, para algumas pessoas, a fé é uma fonte profunda de apoio.

Mas quando ela é usada de fora para explicar o sofrimento de alguém, pode produzir o efeito contrário.

Em vez de acolher a dor, pode encerrá-la rapidamente.

Em vez de permitir perguntas, pode sugerir que questionar aquilo seria errado.

Cada pessoa pode construir sua própria leitura espiritual sobre o que viveu. Isso é diferente de alguém determinar para ela que uma violência, uma perda ou uma injustiça “foi vontade de Deus”.

Nesse caso, talvez uma postura mais cuidadosa seja simplesmente reconhecer:

“Isso aconteceu. Foi difícil. E você precisou encontrar maneiras de continuar.”

O que pode surgir depois da ferida!

Talvez a pergunta mais útil não seja:

“Por que isso precisava acontecer?”

Mas:

“O que eu precisei aprender, proteger ou reconstruir depois disso?”

Essa mudança de pergunta retira a obrigação de transformar sofrimento em algo bom.

E, ao mesmo tempo, reconhece a capacidade humana de reconstrução.

Por isso, resumindo:

Não estamos glorificando a ferida. Estamos olhando para os recursos que podem surgir na pessoa que precisa continuar depois dela.

Isso preserva as duas verdades ao mesmo tempo:

aquilo pode ter sido injusto, doloroso ou desnecessário — e ainda assim algo pode ter sido construído depois.

Para refletir!

Você já ouviu alguma frase sobre uma experiência dolorosa que, mesmo dita com boa intenção, pareceu diminuir aquilo que você viveu?

E olhando para sua própria história:

o que você desenvolveu depois de uma experiência difícil sem precisar dizer que ela “foi boa” ou “precisava acontecer”?

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de Novembro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.

Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
15h30
Google Meet - se inscreva, somente pelo whatsApp 31-99122-3190.

Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

Vivências Transformadoras.

Terapeuta Integrativa & Taróloga

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - La Selva Subterrânea - Capítulo 14!

 

Algumas histórias não apenas nos contam algo. Elas despertam algo em nós!

No capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés diz que, ao ouvirmos uma história, podemos ficar “impregnadas de conhecimento”.

Ela não está falando de conhecimento no sentido de decorar uma informação ou aprender uma regra.

Está falando de um conhecimento que pode chegar pela imagem, pela emoção, pela identificação e pelo reconhecimento.

Quando realmente entramos em um conto, não ficamos apenas observando o que acontece com a personagem. Nós imaginamos a cena, acompanhamos o medo, a tensão, a perda, a esperança, a coragem. Por alguns momentos, aquela experiência simbólica também se movimenta dentro de nós. É nesse sentido que Clarissa aproxima o efeito dos contos da chamada “participação mística”: entramos temporariamente em outra realidade e depois retornamos trazendo alguma coisa dela.

E talvez seja justamente por isso que algumas histórias nos atingem de um jeito tão particular.

Às vezes, uma história confirma algo!

Podemos ouvir um conto e pensar:

“Era exatamente isso que eu sentia, mas nunca consegui explicar.”

A história dá forma a algo que já existia dentro de nós.

Ela não cria necessariamente aquele sentimento. Muitas vezes, apenas o torna visível.

Uma personagem que permanece tempo demais numa situação que lhe faz mal pode nos fazer reconhecer algo parecido na nossa própria vida.

Uma personagem que finalmente diz “não” pode confirmar uma necessidade de limite que já vinha sendo sentida.

Uma personagem que parte sem saber exatamente para onde vai pode tocar alguém que também está vivendo uma transição.

Nesse caso, a história funciona como uma espécie de confirmação interna.

Em outros momentos, ela funciona como alerta!

Também podemos ouvir uma história e perceber algo que ainda não estávamos vendo.

Talvez um padrão repetitivo.

Uma escolha feita sempre pelo mesmo motivo.

Uma relação em que estamos cedendo demais.

Uma situação que parecia normal, mas começa a ser percebida de outro modo.

O conto não precisa dizer diretamente:

“Faça isso” ou “não faça aquilo”.

A própria trajetória da personagem pode provocar uma pergunta:

“Será que alguma coisa parecida está acontecendo comigo?”

Esse é um dos modos pelos quais uma história pode servir como alerta.

E, às vezes, ela oferece uma nova forma de compreender

Há experiências que já reconhecemos, mas ainda não sabemos como interpretar.

Uma história pode apresentar outro ângulo.

Pode mostrar que uma fase de desorientação não significa necessariamente fracasso.

Que pedir ajuda não significa fraqueza.

Que sair de uma situação conhecida não significa já saber exatamente qual será o próximo caminho.

Ou que uma perda pode modificar profundamente alguém sem significar que aquela pessoa deixou de existir.

Nesse caso, o conto não confirma apenas algo que já sabemos e também não funciona apenas como alerta.

Ele amplia nossa maneira de compreender uma experiência.

É por isso que Clarissa dá tanta importância às histórias!

Desde a introdução do livro, Clarissa chama as histórias de “bálsamos medicinais”.

Ela diz que elas despertam interesse, tristeza, perguntas, anseios e compreensões. Também afirma que existem, dentro das histórias, “instruções” capazes de nos orientar diante das complexidades da vida.

Mas isso não significa que todo conto tenha uma moral pronta.

Nem que exista uma interpretação única.

A mesma história pode tocar pessoas diferentes de maneiras completamente diferentes.

Uma pessoa pode se identificar com a perda.

Outra com a decisão de partir.

Outra com a espera.

Outra com a ajuda que chega.

Outra com a necessidade de recuperar a própria autonomia.

A história é a mesma, mas quem a recebe não é.

Talvez seja por isso que Clarissa use a imagem da semente e do solo.

O conto traz uma possibilidade.

Mas aquilo que germina depende também da história de quem escuta.

O conhecimento que chega antes da explicação!

Às vezes terminamos uma história sem saber exatamente por que ela nos tocou.

Alguma imagem fica.

Alguma frase incomoda.

Alguma personagem continua voltando à memória.

E só depois conseguimos compreender:

“Isso me lembrou algo que eu vivi.”

“Isso mostrou uma coisa que eu não estava querendo ver.”

“Isso me ajudou a entender melhor o que estou passando.”

Talvez seja isso que Clarissa queira dizer quando fala em ficarmos “impregnadas de conhecimento”.

Nem todo aprendizado chega primeiro pela razão.

Alguns chegam pela experiência simbólica.

Para refletir!

Você já ouviu ou leu uma história que parecia confirmar algo que você já sentia?

Alguma história já funcionou como alerta para uma situação da sua vida?

Ou já aconteceu de um conto lhe oferecer uma forma completamente nova de compreender algo que você estava vivendo?

Talvez algumas histórias permaneçam conosco justamente porque não vieram apenas para ser entendidas.

Vieram para nos ajudar a enxergar.

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de Novembro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.

Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
15h30
Google Meet - se inscreva, somente pelo whatsApp 31-99122-3190.

Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

Vivências Transformadoras.

Terapeuta Integrativa & Taróloga

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - La Selva Subterrânea - Capítulo 14!

 


Participação mística: 

de Lévy-Bruhl a Jung — 

e por que Clarissa Pinkola Estés fala sobre isso?

No início do capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés apresenta uma ideia curiosa: quando realmente entramos em uma história, não permanecemos apenas como espectadores.

Por algum tempo, acompanhamos aquela experiência de dentro.

Ela explica que os junguianos chamam esse fenômeno de “mística da participação”, expressão associada ao antropólogo francês Lucien Lévy-Bruhl. Depois, aproxima a ideia da “identificação projetiva” na psicanálise e daquilo que os contadores de histórias chamariam de “magia solidária”. Para Clarissa, existe uma capacidade da mente de se afastar temporariamente do seu ponto de vista habitual, entrar em outra realidade e depois retornar trazendo algo aprendido.

Mas de onde veio essa ideia?

Primeiro: Lucien Lévy-Bruhl!

Lucien Lévy-Bruhl foi um filósofo e antropólogo francês que, em 1910, publicou Les fonctions mentales dans les sociétés inférieures.

Ele estudava relatos sobre povos que, naquela época, eram chamados de “primitivos” e tentou compreender uma forma de pensamento na qual as fronteiras entre uma pessoa, a comunidade, os animais, os objetos e as forças da natureza não apareciam da mesma maneira que no pensamento racional ocidental.

Foi nesse contexto que desenvolveu a chamada “lei da participação”.

Em sua formulação original, seres e objetos poderiam estar ligados de tal maneira que algo pudesse ser percebido simultaneamente como ele mesmo e, em certo sentido, como outra coisa. Não se tratava simplesmente de uma comparação intelectual. A ligação era vivenciada como real. 

É importante entender isso antes de chegar a Jung.

Para Lévy-Bruhl, portanto, “participar” não significava simplesmente:

“Eu compreendo o que aquela pessoa sente.”

Era algo mais próximo de:

“Existe uma ligação entre mim e aquilo que está fora de mim que não obedece completamente à separação racional entre sujeito e objeto.”

Mas existe um problema histórico nessa teoria!

Lévy-Bruhl escreveu dentro da antropologia do início do século XX, quando ainda era comum estabelecer uma separação rígida entre povos considerados “primitivos” e sociedades consideradas “civilizadas”.

Hoje essa oposição é problemática.

E o próprio Lévy-Bruhl começou a rever profundamente sua posição.

Nos seus últimos cadernos, escritos entre 1938 e 1939, ele abandonou a ideia de que a chamada mentalidade “primitiva” pudesse ser definida fundamentalmente como pré-lógica. Seus escritos tardios mantiveram o interesse pela participação e pela experiência mística, mas sua posição tornou-se muito menos rígida do que aquela apresentada no início de sua obra. 

Isso é especialmente importante porque Clarissa chama atenção justamente para esse problema.

Na nota 1 do capítulo 14, ela observa que a utilização de Jung do conceito nasceu de uma antropologia do final do século XIX e início do XX, quando pesquisadores frequentemente tratavam os povos estudados como se estivessem separados do restante da humanidade.

Clarissa propõe outra leitura: esses fenômenos precisam ser compreendidos dentro de uma continuidade humana, isto é, como possibilidades que podem ocorrer com qualquer pessoa e não como característica exclusiva de determinado povo.

Essa nota muda bastante a forma como devemos ler o trecho.

O que Jung fez com essa ideia?

Carl Gustav Jung pegou o conceito antropológico de Lévy-Bruhl e o trouxe para a psicologia.

Em Tipos Psicológicos, publicado originalmente em 1921, Jung define a participação mística como uma relação psicológica na qual o sujeito não consegue se distinguir completamente do objeto, estabelecendo com ele uma espécie de identidade parcial. 

Aqui acontece uma mudança fundamental.

A questão deixa de ser apenas:

“Como determinados povos compreendem o mundo?”

e passa também a ser:

“Isso não acontece, em algum grau, dentro de todos nós?”

Para Jung, sim.

A participação mística poderia aparecer também no homem moderno, principalmente nas relações entre pessoas. Jung relaciona esse fenômeno à projeção, à transferência e a situações nas quais aquilo que pertence ao nosso mundo interior é vivido como se estivesse no outro.

Imagine, por exemplo, alguém que idealiza profundamente outra pessoa.

Ela pode dizer:

“Essa pessoa é absolutamente extraordinária. Ela possui tudo aquilo que me falta.”

Pode existir algo verdadeiro nessa percepção.

Mas também pode existir uma projeção: qualidades, desejos ou possibilidades que pertencem à própria pessoa estão sendo percebidos exclusivamente no outro.

Enquanto essa projeção permanece inconsciente, fica difícil distinguir:

“O que realmente pertence ao outro?”

e

“O que eu coloquei nele?”

Essa é uma das maneiras de compreender psicologicamente a participação mística em Jung.

Então é a mesma coisa que empatia?

Não.

Essa diferença é importante, principalmente porque nós relacionamos esse trecho anteriormente à escuta terapêutica.

A comparação ajuda a compreender o movimento, mas os conceitos não são iguais.

Na escuta empática, idealmente eu consigo me aproximar da experiência do outro sem perder a diferenciação:

“Eu consigo compreender sua dor, mas sei que essa dor é sua e não minha.”

Na participação mística, essa fronteira pode ficar menos clara.

Existe algum grau de identidade ou fusão psicológica entre sujeito e objeto.

Portanto:

Empatia = aproximação com diferenciação.

Participação mística = aproximação em que a diferenciação pode diminuir.

Na terapia, inclusive, uma das capacidades importantes do terapeuta é justamente poder se aproximar profundamente da experiência da pessoa sem se confundir completamente com ela.

E a “identificação projetiva” mencionada por Clarissa?

Aqui vale uma pequena precisão histórica.

Clarissa escreve que entre os freudianos haveria uma atitude chamada “identificação projetiva”.

Mas o termo técnico identificação projetiva não foi criado por Freud. Ele foi desenvolvido por Melanie Klein, dentro da tradição psicanalítica, a partir de conceitos como projeção e identificação que possuem raízes na obra freudiana. A literatura psicanalítica situa sua formulação no trabalho de Klein sobre mecanismos esquizoides, publicado originalmente em 1946 e posteriormente revisto. 

Portanto, quando Clarissa diz “entre os freudianos”, podemos entender isso de forma ampla como a tradição psicanalítica, e não como se Freud tivesse criado pessoalmente esse conceito.

E identificação projetiva também é um conceito mais específico do que simplesmente “sentir o que o outro sente”. Em sua formulação psicanalítica, envolve projeção de aspectos do próprio self no outro e uma relação inconsciente com aquilo que foi projetado. 

Então por que Clarissa traz tudo isso para falar de histórias?

Aqui chegamos ao ponto principal do capítulo.

Clarissa não está dando uma aula de antropologia nem tentando fazer uma exposição técnica da teoria de Jung.

Ela está tentando explicar por que uma história pode nos afetar tão profundamente.

Quando ouvimos A Donzela sem Mãos, podemos saber racionalmente:

“Isso é um conto.”

“Eu não sou essa mulher.”

“Eu não perdi literalmente minhas mãos.”

Mesmo assim, em determinado momento podemos sentir:

“Eu sei como é não saber o que fazer.”

“Eu já me senti sem recursos.”

“Eu também já precisei continuar sem saber para onde estava indo.”

“Eu também já precisei receber ajuda.”

A história cria uma espécie de experiência intermediária.

Continuamos sendo nós mesmas, mas temporariamente permitimos que a experiência da personagem mobilize alguma coisa dentro de nós.

É nesse sentido que podemos entender a frase de Clarissa sobre a mente se afastar do ego por algum tempo.

O ego não desaparece.

Nós não perdemos nossa identidade.

O que diminui temporariamente é a necessidade de analisar tudo apenas a partir de:

“Eu penso assim.”
“Eu faria diferente.”
“Isso nunca aconteceu comigo.”

Entramos na experiência antes de julgá-la.

Depois retornamos.

E talvez retornemos percebendo algo que anteriormente não conseguíamos nomear.

É parecido com o que acontece na terapia?

Aqui, sim, existe uma comparação interessante — desde que saibamos que é uma analogia, e não uma equivalência teórica.

Imagine alguém dizendo durante uma sessão:

“Meu marido demorou para responder minha mensagem e eu senti que estava sendo abandonada.”

Quem escuta poderia imediatamente pensar:

“Que exagero. Ele só demorou para responder.”

Nesse caso, continua preso à própria perspectiva.

Uma escuta empática tentaria primeiro compreender:

“O que significa, para essa pessoa, não receber aquela resposta?”

Por alguns instantes, quem escuta tenta entrar na experiência psicológica do outro.

Não precisa concordar que houve abandono.

Mas precisa conseguir compreender por que aquilo foi vivido como abandono.

Depois volta à posição de observador e consegue refletir sobre o que aconteceu.

O movimento se parece com aquele descrito por Clarissa:

entrar → experimentar → compreender → retornar.

E agora podemos entender melhor a frase “a história é uma semente e nós somos o solo”

A história não chega a uma mente vazia.

Ela encontra nossa memória, nossos relacionamentos, nossas perdas, nossos medos, nossas experiências e aquilo que ainda não conseguimos compreender completamente.

Por isso duas pessoas podem ouvir exatamente o mesmo conto e serem profundamente tocadas por partes diferentes.

Uma mulher pode ficar impressionada com a perda das mãos.

Outra com a decisão de partir.

Outra com a árvore que se inclina para alimentá-la.

Outra com as mãos que voltam a crescer.

A história é a mesma. O solo não.

E talvez seja justamente isso que Clarissa esteja chamando de sermos “impregnadas de conhecimento”.

Não necessariamente saímos do conto pensando:

“Aprendi a seguinte teoria.”

Às vezes saímos simplesmente sentindo:

“Alguma coisa nessa história fala comigo.”

E somente depois conseguimos compreender o quê.

Um cuidado importante!

Participar de uma história não significa perder permanentemente nossos limites psicológicos.

Na verdade, a possibilidade de entrar e depois sair é fundamental.

Se eu consigo entrar na experiência de uma personagem e depois voltar para mim, posso utilizar aquela experiência simbolicamente.

Da mesma maneira, se consigo compreender profundamente outra pessoa e depois reconhecer novamente:

“isso pertence a ela; isto pertence a mim”,

existe diferenciação.

Por isso talvez possamos resumir todo esse percurso assim:

Lévy-Bruhl observou a participação como uma relação em que as fronteiras entre seres e mundo não apareciam rigidamente separadas. Jung levou essa ideia para a psicologia e percebeu que essa falta de diferenciação também existe no homem moderno. Clarissa utiliza o conceito para explicar uma capacidade humana ainda mais próxima da experiência das histórias: por alguns momentos, podemos sair do nosso ponto de vista habitual, entrar simbolicamente em outra experiência e retornar trazendo algo dela.

E é justamente por isso que alguns contos permanecem conosco muito depois de terminarmos a leitura.

Talvez não seja apenas porque entendemos a história.

Talvez seja porque, durante algum tempo, nós também a vivemos por dentro.

Para refletir!

Você já terminou um livro, filme, história ou conversa sentindo que viveu alguma coisa que não aconteceu diretamente com você — mas que, mesmo assim, lhe ensinou algo sobre a sua própria vida?

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de Novembro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.


Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
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Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

Referências para aprofundamento:


  • Estés, Clarissa Pinkola. Mulheres que Correm com os Lobos. Capítulo 14 — “La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea”.
  • Lucien Lévy-Bruhl, Les fonctions mentales dans les sociétés inférieures (1910), obra em que desenvolve a chamada lei da participação. Pure
  • Lucien Lévy-Bruhl, La mentalité primitive (1922). Classiques UQAM
  • Lucien Lévy-Bruhl, Carnets (1938–1939, publicados postumamente), importantes para acompanhar a revisão de suas primeiras formulações. Classiques UQAM
  • C. G. Jung, Psychological Types / Tipos Psicológicos, especialmente a definição de participation mystique no §781. IAAP
  • International Association for Analytical Psychology, panorama sobre participation mystique e seu uso em Jung. IAAP
  • Melanie Klein Trust e International Psychoanalytical Association para a história e definição de identificação projetiva. Melanie Klein Trust

Leituras complementares online: International Association for Analytical Psychology (IAAP), Melanie Klein Trust e acervos digitais de obras de Lévy-Bruhl.

Fonte principal: Clarissa Pinkola Estés, Mulheres que Correm com os Lobos, cap. 14.

Referências complementares: C. G. Jung e Lucien Lévy-Bruhl.

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - La Selva Subterrânea - Capítulo 14!

 



O que Clarissa quer dizer com “mística da participação”?

No capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés fala sobre algo que acontece quando realmente entramos em uma história.

Ela diz que, por alguns momentos, podemos deixar de observar aquela narrativa apenas “de fora” e passar a vivê-la emocionalmente por dentro. Sentimos o medo da personagem, sua angústia, sua coragem, sua perda, sua esperança.

É nesse contexto que ela menciona a chamada “mística da participação”.

A expressão vem do antropólogo francês Lucien Lévy-Bruhl e depois foi utilizada por Carl Jung. De forma simples, ela descreve momentos em que a separação entre “eu” e aquilo que estou observando fica temporariamente menos rígida.

Isso não significa perder a identidade ou deixar de saber quem somos.

Significa conseguir, por alguns instantes, entrar na experiência de outra pessoa, personagem ou realidade simbólica.

Podemos pensar em algo parecido com o que acontece durante uma escuta verdadeiramente empática.

Quando alguém nos conta uma experiência dolorosa, podemos ouvi-la apenas a partir de nós mesmas:

“Eu não reagiria assim.”

“Isso não é tão grave.”

“Ela deveria fazer outra coisa.”

Mas também podemos suspender um pouco nosso próprio ponto de vista e tentar compreender:

“Como essa experiência está sendo vivida por essa pessoa?”

Isso não significa concordar com tudo o que ela pensa ou sente. Significa conseguir sair, temporariamente, do centro da própria perspectiva para visitar a experiência do outro.

Com uma história acontece algo semelhante.

Sabemos que não somos a personagem, mas podemos nos reconhecer em alguma parte daquilo que ela vive.

Uma história sobre perda pode nos aproximar das nossas próprias perdas.

Uma história sobre medo pode nos fazer reconhecer nossos medos.

Uma história sobre resistência pode despertar em nós lembranças de momentos em que também precisamos continuar.

Depois, voltamos para nossa própria realidade.

Mas podemos voltar levando alguma compreensão nova.

É justamente esse movimento que Clarissa descreve quando fala da capacidade da mente de se afastar temporariamente do ego, entrar em outra realidade e depois retornar trazendo algo aprendido.

Mas por que Clarissa cita Lévy-Bruhl?

Aqui existe um detalhe importante.

Na nota do capítulo, Clarissa explica que Jung utilizou esse conceito a partir de ideias antropológicas do final do século XIX e início do século XX.

Naquela época, muitos estudiosos observavam povos tribais como se eles fossem muito diferentes do restante da humanidade, quase como se pertencessem a outro tipo de funcionamento psicológico.

Clarissa faz uma crítica a essa separação.

Ela lembra que esse tipo de experiência faz parte de uma continuidade humana e pode ocorrer “em qualquer lugar e com qualquer um”.

Ou seja, ela preserva a ideia da participação psíquica, mas rejeita a noção de que ela pertença apenas a povos considerados “primitivos”.

Essa capacidade é humana.

Podemos vivê-la quando ouvimos uma história, quando assistimos a um filme, quando lemos um livro ou quando escutamos profundamente a experiência de alguém.

Talvez por isso algumas histórias nos acompanhem por tanto tempo.

Elas não apenas nos contam alguma coisa.

Por alguns instantes, elas nos permitem experimentar alguma coisa.

E, quando voltamos para nós mesmas, talvez já não estejamos exatamente no mesmo lugar de antes.

Para refletir!

Você já terminou um livro, um filme ou uma conversa sentindo que compreendeu alguma coisa sobre si mesma que ninguém havia explicado diretamente para você?

Talvez seja justamente aí que uma história deixa de ser apenas uma história e começa a trabalhar dentro de nós.

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de outubro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.


Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
15h30
Google Meet - se inscreva, somente pelo whatsApp 31-99122-3190.

Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

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