domingo, 6 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Brauron -Capítulo 12!

 


Ártemis e as “ursinhas” de Brauron: quando o urso marca uma passagem na vida feminina!

Existe uma ligação muito antiga e bonita entre Ártemis, o feminino e a figura do urso. Na Grécia Antiga, no santuário de Ártemis em Brauron, na região da Ática, meninas participavam de um rito conhecido como Arkteia. Durante essa experiência, elas eram chamadas de arktoi, palavra que significa “ursinhas”.

Ártemis era a deusa da caça, da natureza selvagem e dos animais, mas também estava ligada à proteção das meninas, das mulheres e às importantes transições da vida feminina. Por isso, é interessante perceber que justamente o urso, um animal forte, selvagem e protetor, aparece associado a um ritual realizado por meninas que estavam deixando a infância e se preparando simbolicamente para uma nova fase da vida.

Na Arkteia, as meninas eram colocadas sob a proteção de Ártemis e participavam de atividades rituais ligadas ao culto da deusa. A tradição fala das jovens vestindo túnicas em tons de açafrão e sendo representadas em movimentos, corridas e cerimônias que evocavam sua condição de arktoi. A ideia central era marcar uma passagem: a menina não permaneceria para sempre na infância; alguma coisa estava se transformando.

E talvez seja justamente essa imagem que mais nos interessa psicologicamente.

Antes de entrar numa nova etapa, era necessário reconhecer que uma fase estava terminando.

Hoje atravessamos muitas mudanças sem qualquer ritual. Crescemos, menstruamos, nos casamos ou nos separamos, tornamo-nos mães, vemos os filhos saírem de casa, mudamos de profissão, atravessamos a menopausa, envelhecemos, perdemos pessoas e começamos novamente. Muitas vezes simplesmente seguimos adiante.

Para os antigos, porém, algumas dessas passagens eram importantes demais para acontecer silenciosamente.

Era preciso marcar:

“Até aqui eu era uma coisa. Agora alguma coisa em mim está mudando.”

Por que “ursinhas”?

A imagem é especialmente significativa porque o urso pertence ao mundo selvagem de Ártemis.

Podemos pensar simbolicamente naquela menina que ainda guarda algo de espontâneo, indomado e instintivo. Ela corre, brinca, explora, reage. Aos poucos, precisará aprender a viver dentro de uma comunidade, conhecer responsabilidades e atravessar novas experiências.

Mas isso não significa necessariamente destruir sua natureza selvagem.

Talvez possamos compreender o ritual de outra maneira: é preciso aprender a integrar essa força.

A menina não deixa simplesmente de ser “ursa”. Ela leva consigo aquilo que aprendeu com essa imagem: força, percepção, proteção e capacidade de reconhecer o próprio território.

E é impossível não lembrar aqui do Urso da Meia-Lua, de Clarissa Pinkola Estés.

Quando Clarissa associa o urso a Ártemis, essa ligação não surge do nada. Há uma tradição antiga na qual a própria relação entre a deusa e meninas passava simbolicamente pela figura da ursa.

Isso torna a referência no capítulo ainda mais interessante.

O urso de Clarissa também nos ensina sobre ciclos, força, proteção, limites e transformação.

O mito por trás da Arkteia

Há uma tradição mítica segundo a qual um urso vivia ligado ao santuário de Ártemis. Depois que o animal feriu uma menina, ele foi morto. A morte do animal sagrado teria provocado a ira da deusa e, para restaurar o equilíbrio, as meninas passaram a “servir como ursas” antes de uma importante transição de suas vidas.

Como acontece frequentemente nos mitos antigos, existem diferentes versões e interpretações dessa narrativa. Mas simbolicamente há uma ideia muito forte:

algo foi rompido e precisa ser restaurado.

A relação entre humanidade e natureza foi quebrada.

A força selvagem foi destruída.

E surge então um ritual para restabelecer essa ligação.

Essa imagem combina profundamente com a maneira como Clarissa trabalha o instinto feminino: quando perdemos contato com nossa natureza instintiva, precisamos encontrar um caminho de volta até ela.

Ser “ursa” antes de seguir adiante

Há algo muito bonito em imaginar essas meninas sendo chamadas de ursinhas.

Antes da próxima etapa, havia um momento para reconhecer aquela força.

Como se a cultura dissesse:

“Você está mudando. Seu corpo vai mudar. Sua vida vai mudar. Mas existe uma força dentro de você que precisa acompanhá-la.”

É exatamente por isso que considero tão interessante a presença de Ártemis no capítulo O Urso da Meia-Lua.

Clarissa fala de mulheres que precisam novamente aprender a rastrear, perceber, reconhecer limites e confiar nos próprios sinais internos.

Ártemis é a caçadora.

A caçadora observa.

Percebe rastros.

Conhece o território.

E sabe que não pode caminhar pela floresta completamente desconectada de seus sentidos.

Da mesma maneira, psicologicamente, precisamos aprender a perceber:

“O que estou sentindo?”

“O que mudou aqui?”

“Onde está meu limite?”

“O que precisa ser protegido?”

“Para qual nova etapa da minha vida estou sendo chamada?”

Talvez ainda precisemos de ritos de passagem

É possível que uma das perdas do nosso tempo seja justamente a ausência de rituais para algumas grandes transformações.

Há momentos em que uma versão nossa termina e outra começa, mas ninguém para para reconhecer essa passagem.

Talvez por isso tantas mudanças importantes tragam uma sensação estranha de desorientação.

Terminamos uma etapa, mas emocionalmente ainda não nos despedimos dela.

Começamos outra, mas ainda não reconhecemos quem estamos nos tornando.

Os antigos ritos nos lembram de algo muito simples:

transformações precisam ser reconhecidas.

Às vezes precisamos olhar para nós mesmas e dizer:

“Uma fase terminou.”

“Eu não sou mais exatamente aquela mulher.”

“Alguma coisa nova está começando.”

E talvez seja justamente aí que a antiga imagem da ursa volte a fazer sentido.

A ursa conhece os ciclos.

Sabe quando caminhar.

Sabe quando proteger.

Sabe quando se recolher.

E, depois do recolhimento, volta novamente para a vida.

Talvez esse seja um dos ensinamentos que podemos levar tanto de Ártemis quanto do Urso da Meia-Lua:

crescer não precisa significar abandonar nossa natureza instintiva. Talvez amadurecer seja aprender a caminhar com ela.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

🌿 Com carinho,

#Ártemis #Arkteia #Arktoi #Brauron #MitologiaGrega #UrsoDaMeiaLua #ClarissaPinkolaEstés #MulheresQueCorremComOsLobos  #ForçaFeminina #Autoconhecimento #PsicologiaArquetípica #BethCastro #vivenciastransformadoras #bethcastrotarologa #bethcastrobhtarot #gostardeler #mulherselvagem #brauron #rodademulheressabiasefortes

sábado, 5 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Shotoku Taishi - Capítulo 12!

 


Shotoku Taishi e a Raiva como Mestra: por que Clarissa Pinkola Estés o cita em O Urso da Meia-Lua?

O que um príncipe japonês ligado ao budismo pode nos ensinar sobre a maneira como lidamos com nossas emoções?

Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés costuma fazer algo muito interessante: ela não utiliza mitos, personagens históricos e tradições espirituais apenas para contar histórias. Ela os aproxima da vida psicológica e transforma essas referências em caminhos para compreendermos melhor aquilo que acontece dentro de nós.

No capítulo 12, O Urso da Meia-Lua, dedicado à raiva, aos limites e ao perdão, aparece rapidamente o nome de Shotoku Taishi. A referência é pequena, mas ajuda a compreender uma das ideias centrais dessa parte do livro: a raiva não precisa ser imediatamente rejeitada; primeiro podemos tentar compreender o que ela está nos mostrando.

Clarissa apresenta Shotoku Taishi como um príncipe-filósofo japonês e afirma que ele ensinava que o trabalho psíquico deveria acontecer tanto no mundo interior quanto no exterior. Em seguida, destaca a ideia de tolerância em relação aos seres humanos, aos animais e também às emoções. É justamente a partir daí que ela desenvolve sua reflexão sobre a raiva como uma emoção que também pode conter conhecimento.

Mas quem foi Shotoku Taishi? E por que Clarissa o coloca justamente aqui?

Quem foi Shotoku Taishi?

Prince Shōtoku, ou Shotoku Taishi, viveu entre 574 e 622, em um período importante de transformação política, cultural e religiosa no Japão. Era sobrinho da imperatriz Suiko e tornou-se uma figura central da corte japonesa. Fontes históricas e a tradição posterior o associaram fortemente à expansão do budismo no Japão, à construção de templos, à diplomacia com o continente asiático e à organização do Estado.

Ele também é tradicionalmente associado à chamada Constituição dos Dezessete Artigos, um antigo conjunto de princípios voltados à conduta daqueles que participavam do governo. A figura de Shotoku, porém, foi sendo ampliada e idealizada ao longo dos séculos, tornando-se também objeto de veneração religiosa. Por isso, atualmente os estudiosos distinguem o Shotoku histórico do personagem extraordinário construído posteriormente pela tradição.

Isso é importante porque Clarissa não está escrevendo uma biografia histórica de Shotoku. Ela está recorrendo à imagem de sabedoria associada a ele para introduzir uma reflexão psicológica.

Por que Clarissa o cita em um capítulo sobre raiva?

Porque antes de ensinar o que fazer com a raiva, Clarissa nos convida a mudar nossa relação com ela.

Normalmente, quando sentimos uma emoção considerada desagradável, pensamos imediatamente:

“Preciso me livrar disso.”

Sentimos raiva e queremos parar de sentir.

Sentimos medo e queremos expulsá-lo.

Sentimos tristeza e queremos que passe rapidamente.

Mas a proposta de Clarissa é diferente.

Antes de eliminar uma emoção, talvez seja necessário tolerar sua presença por algum tempo para descobrir o que ela está tentando nos mostrar.

É nesse contexto que Shotoku Taishi aparece.

A ideia de tolerância não significa gostar da raiva, alimentar a raiva ou permitir que ela determine nossas atitudes.

Significa conseguir dizer:

“Estou com raiva. Não preciso negar isso. Agora preciso compreender por quê.”

Tolerar não significa obedecer

Essa diferença é fundamental.

Reconhecer uma emoção não significa obedecer automaticamente a ela.

Posso sentir vontade de gritar e escolher não gritar.

Posso sentir vontade de responder imediatamente e decidir esperar.

Posso estar profundamente irritada e ainda assim perguntar:

“O que aconteceu comigo aqui?”

Talvez a raiva esteja mostrando que fui desrespeitada.

Talvez um limite tenha sido ultrapassado.

Talvez eu esteja cansada de aceitar determinada situação.

Talvez aquela pessoa tenha tocado numa ferida muito antiga.

Ou talvez eu tenha interpretado uma situação de maneira equivocada.

Só conseguirei descobrir se conseguir permanecer diante da emoção por tempo suficiente para observá-la.

Por isso, existe uma diferença muito grande entre:

acolher a raiva e ser comandada pela raiva.

A raiva pode iluminar

Logo depois de mencionar Shotoku, Clarissa diz que mesmo emoções confusas possuem energia e que podemos utilizar a luz da raiva para iluminar lugares que normalmente não conseguimos enxergar.

Essa imagem é muito bonita.

Imagine alguém que fica profundamente irritado porque o companheiro se atrasou novamente.

À primeira vista:

“Estou com raiva porque ele se atrasou.”

Mas, quando essa pessoa consegue permanecer um pouco mais com aquilo que sente, pode descobrir:

“Na verdade, o atraso desperta em mim uma sensação de que meu tempo não é respeitado.”

Mais profundamente ainda:

“Percebo que tenho muita dificuldade quando sinto que não sou considerada.”

A raiva começou falando sobre atraso.

Mas acabou iluminando respeito, consideração e necessidade de reciprocidade.

A emoção funcionou como uma espécie de lanterna.

Nem expulsar, nem alimentar: escutar

Talvez essa seja uma das maiores contribuições dessa passagem.

Existe um caminho entre reprimir e explodir.

Se reprimimos:

“Não deveria sentir isso.”

Se descarregamos:

“Estou sentindo isso, então tenho direito de fazer qualquer coisa.”

Clarissa nos apresenta uma terceira possibilidade:

“Estou sentindo isso. Vou descobrir o que significa antes de decidir o que fazer.”

É aí que a raiva começa a se tornar mestra.

Não porque ela esteja sempre certa.

Não porque toda interpretação que fazemos quando estamos com raiva seja verdadeira.

Mas porque sua presença pode indicar que existe alguma coisa que merece nossa atenção.

A emoção pode ser verdadeira sem que nossa interpretação seja

Esse ponto é especialmente importante.

Podemos sentir uma emoção verdadeira e chegar a uma conclusão equivocada.

Por exemplo:

“Estou com medo, então certamente existe perigo.”

O medo é verdadeiro.

O perigo precisa ser verificado.

Da mesma forma:

“Estou com raiva, então essa pessoa certamente quis me humilhar.”

A raiva é verdadeira.

A intenção da outra pessoa ainda precisa ser compreendida.

Por isso, acolher uma emoção não significa transformá-la automaticamente em verdade absoluta.

Talvez seja justamente aí que entra a sabedoria proposta por essa passagem: dar espaço ao sentimento sem entregar imediatamente a ele o comando da nossa interpretação e das nossas ações.

O trabalho interior precisa chegar ao mundo exterior

Há ainda outro aspecto da forma como Clarissa apresenta Shotoku que considero muito importante: o trabalho psíquico deve ocorrer tanto dentro quanto fora de nós.

Não adianta descobrir:

“Percebi que não gosto quando ultrapassam meu limite.”

e continuar permitindo exatamente a mesma coisa.

Também não adianta compreender:

“Minha raiva aparece porque tenho dificuldade de dizer não.”

e permanecer dizendo sim para tudo.

O conhecimento interior precisa, em algum momento, produzir alguma mudança exterior.

Talvez uma conversa.

Um limite.

Uma escolha.

Uma mudança de comportamento.

Um pedido de ajuda.

Ou simplesmente uma nova maneira de responder.

Esse movimento atravessa todo O Urso da Meia-Lua: compreender para depois praticar.

A raiva como visitante, não como dona da casa

Talvez possamos imaginar a raiva como uma visitante.

Quando ela chega, podemos expulsá-la imediatamente.

Podemos deixá-la entrar e permitir que destrua a casa inteira.

Ou podemos recebê-la e perguntar:

“Por que você veio?”

Talvez ela diga:

“Porque você está se desrespeitando.”

“Porque alguém atravessou seu limite.”

“Porque existe uma dor antiga aqui.”

“Porque você está cansada.”

“Porque alguma coisa precisa mudar.”

Depois de ouvir, não precisamos permitir que ela permaneça para sempre.

Podemos agradecer a informação e decidir conscientemente o que fazer com aquilo que descobrimos.

É uma imagem muito próxima do movimento que Clarissa desenvolve ao longo do capítulo.

Tolerância emocional não é passividade

É importante não confundir essa proposta com aceitar tudo silenciosamente.

Tolerar uma emoção significa suportar sua presença dentro de nós sem precisar reagir imediatamente.

Não significa tolerar abuso.

Não significa aceitar desrespeito.

Não significa permanecer em relações que nos fazem mal.

Na realidade, quanto melhor conseguimos escutar nossas emoções, maior pode ser nossa capacidade de reconhecer aquilo que precisa de limite.

A raiva pode dizer:

“Até aqui.”

A consciência decide como dizer isso.

Essa diferença muda tudo.

O que Shotoku acrescenta ao Urso da Meia-Lua?

Mesmo aparecendo rapidamente no capítulo, Shotoku Taishi ajuda Clarissa a preparar o terreno para toda a jornada que virá depois.

Primeiro:

não rejeite imediatamente aquilo que sente.

Depois:

observe.

Em seguida:

procure compreender.

E finalmente:

decida o que fazer com aquilo que descobriu.

Mais adiante, encontraremos a curandeira, a montanha, o urso e o fogo transformador. Mas antes de tudo isso existe uma condição necessária:

estar disposta a olhar para a emoção.

Talvez seja por isso que Shotoku aparece justamente antes de Clarissa afirmar que a raiva pode ser nossa mestra.

Para aprender alguma coisa com uma emoção, precisamos primeiro permitir que ela permaneça diante de nós tempo suficiente para ser escutada.

Uma reflexão para levar conosco!

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Como faço para nunca mais sentir raiva?”

Talvez seja:

“Quando a raiva chegar, conseguirei escutá-la antes de decidir o que fazer com ela?”

Porque maturidade emocional não significa viver sem emoções difíceis.

Significa desenvolver espaço suficiente entre sentir e agir para que alguma consciência possa entrar ali.

E talvez seja justamente nesse pequeno espaço que começa aquilo que Clarissa chama de transformação.

Tolerar a raiva não significa permitir que ela governe nossa vida. Significa permitir que ela fale antes de decidirmos o que fazer com aquilo que ouvimos.

Nota: Shotoku Taishi é uma figura histórica envolvida também por séculos de tradição religiosa e relatos idealizados. A ideia de que ele ensinava um “trabalho psíquico” com todas as emoções é apresentada por Clarissa Pinkola Estés dentro de sua leitura de O Urso da Meia-Lua. Este texto diferencia essa interpretação psicológica da autora das informações históricas disponíveis sobre o príncipe.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muerte e Hecoteptl Capítulo 12!

 

Muerte e Hecoteptl: as mulheres de barro e a arte de escavar a própria alma!

O que Clarissa Pinkola Estés pode estar nos ensinando ao trazer essas figuras para O Urso da Meia-Lua

Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés utiliza mitos, contos e símbolos para falar de experiências emocionais que muitas vezes são difíceis de explicar apenas pela razão. No capítulo O Urso da Meia-Lua, em que aborda a raiva, os limites e o perdão, há uma passagem pequena, mas muito interessante, na qual ela menciona Muerte e Hecoteptl.

Ao explicar o simbolismo do urso, Clarissa primeiro fala de Ártemis e Diana, deusas caçadoras das tradições grega e romana. Em seguida, cita Muerte e Hecoteptl, que apresenta como divindades femininas de lama — ou de barro — das culturas latino-americanas. A autora relaciona essas figuras à capacidade de rastrear, conhecer e “escavar” os aspectos psíquicos das coisas.

É justamente a palavra “escavar” que torna essa referência tão rica psicologicamente.

O que significa “escavar” a própria psique?

Quando sentimos alguma emoção intensa, geralmente percebemos primeiro aquilo que está na superfície.

“Estou com raiva.”

“Estou irritada.”

“Não suporto mais essa situação.”

Mas será que a raiva é toda a história?

Às vezes, quando começamos a olhar um pouco mais fundo, encontramos outras coisas por baixo dela:

uma frustração que nunca foi expressada;

uma sensação de desrespeito;

um limite que foi ultrapassado;

um medo;

uma decepção;

uma necessidade que foi ignorada;

ou até uma experiência antiga que aquela situação atual acabou despertando.

É como fazer uma escavação.

Primeiro encontramos a camada que está mais próxima da superfície. Depois retiramos um pouco mais de terra. E mais um pouco. Até encontrarmos aquilo que estava escondido.

Por isso gosto de pensar que, simbolicamente, Clarissa nos convida a fazer uma espécie de arqueologia da própria alma.

Não basta perguntar:

“Por que estou com raiva?”

Talvez seja preciso continuar:

“O que existe por baixo dessa raiva?”

E por que mulheres de barro?

A imagem do barro também nos oferece uma possibilidade muito bonita de reflexão.

O barro é formado pela terra misturada à água. É uma matéria que pode ser tocada, moldada e transformada.

E o barro também guarda marcas.

Quando pressionamos a mão sobre ele, alguma coisa fica registrada.

Nossa história emocional também guarda marcas.

Algumas experiências passam rapidamente. Outras deixam impressões profundas. Palavras, rejeições, perdas, relações, injustiças e acontecimentos importantes podem continuar dentro de nós muito tempo depois de terem terminado.

Mas existe outra característica do barro que considero fundamental:

o barro pode ser remodelado.

Ter sido marcado por alguma experiência não significa necessariamente permanecer para sempre com a mesma forma.

Podemos olhar novamente para aquilo que aconteceu, compreender de outra maneira, elaborar sentimentos e construir novas respostas.

É uma imagem que combina profundamente com a proposta de O Urso da Meia-Lua: não negar a experiência, mas transformá-la.

E quem são Muerte e Hecoteptl?

Aqui é necessário algum cuidado.

Muerte, em espanhol, significa “morte”. Dentro do universo simbólico de Clarissa, a morte aparece diversas vezes não apenas como morte física, mas como parte do movimento Vida–Morte–Vida: alguma coisa termina para que outra possa surgir.

Hecoteptl é uma referência muito mais obscura. Embora o nome esteja realmente presente tanto na passagem de Clarissa quanto em reproduções da edição em inglês, é difícil encontrar fora da obra uma tradição mitológica bem documentada que permita contar com segurança “a história de Hecoteptl”. A própria passagem inglesa apresenta Muerte and Hecoteptl como mud women deities das culturas latinas.

Por isso, prefiro não inventar uma genealogia, um culto ou uma história que as fontes disponíveis não sustentam.

Para compreender o capítulo, entretanto, isso não impede que trabalhemos com o significado que Clarissa atribui a essas figuras dentro do próprio texto.

E esse significado é bastante claro:

rastrear, conhecer e escavar.

Muerte e aquilo que precisa terminar!

Se olharmos para Muerte dentro da linguagem simbólica de Clarissa, encontramos outra pergunta importante:

O que já terminou, mas eu continuo mantendo vivo dentro de mim?

Às vezes é uma relação que acabou há anos.

Uma expectativa que nunca se realizou.

Uma mágoa.

Uma antiga discussão.

Uma injustiça.

Uma versão de nós mesmas que já não existe.

Ou uma raiva que, em determinado momento, teve uma função importante — talvez tenha nos ajudado a sobreviver, a reagir ou a reconhecer uma injustiça — mas que continua ocupando espaço muito depois de o acontecimento ter passado.

Nesse sentido, a morte simbólica não significa apagar a história.

Significa reconhecer:

“Isso aconteceu. Fez parte da minha vida. Deixou marcas. Mas não precisa continuar comandando meu presente.”

Essa ideia aparece novamente no capítulo quando Clarissa fala dos muen-botoke, os “mortos órfãos” da psique, e posteriormente dos Descansos: experiências, sonhos e partes de nossa história que precisam ser reconhecidas, pranteadas e finalmente colocadas em algum lugar dentro de nós.

De Ártemis a Muerte: primeiro rastrear, depois escavar!

Existe uma sequência simbólica muito interessante nessa passagem.

Ártemis e Diana são caçadoras.

A caçadora precisa perceber rastros.

Uma pegada.

Um ruído.

Um movimento.

Uma alteração no ambiente.

Psicologicamente, podemos pensar:

“O que estou percebendo em mim?”

“Meu corpo ficou tenso.”

“Minha voz mudou.”

“Estou irritada.”

“Alguma coisa me incomodou.”

Esse é o rastro.

Muerte e Hecoteptl acrescentam outra dimensão:

agora é preciso escavar.

“Por que isso me atingiu?”

“O que realmente me feriu?”

“Essa emoção pertence somente ao que aconteceu hoje?”

“Que limite foi ultrapassado?”

“Existe alguma história anterior aparecendo novamente?”

Por isso podemos resumir:

**Rastrear é perceber os sinais.

Escavar é descobrir o que existe por trás deles.**

E o que isso tem a ver com a raiva?

Tudo.

O capítulo não nos ensina simplesmente a eliminar a raiva.

Clarissa apresenta a raiva como uma emoção que pode trazer conhecimento. Ela pode iluminar lugares que normalmente não enxergamos e mostrar alguma coisa que precisa da nossa atenção.

Mas, quando não é compreendida e transformada, a raiva também pode nos aprisionar.

Podemos começar a interpretar situações novas através de dores antigas.

É por isso que escavar não significa alimentar a raiva.

Significa compreendê-la suficientemente para não precisar permanecer presa a ela.

Imagine uma pessoa que fica furiosa porque alguém se atrasou para encontrá-la.

Na superfície:

“Estou com raiva porque você se atrasou.”

Ao rastrear:

“Percebi que fiquei muito mais irritada do que imaginava.”

Ao escavar:

“O que realmente me atingiu foi sentir que meu tempo não tem importância.”

Mais profundamente:

“Talvez isso toque numa história antiga em que muitas vezes eu me senti desconsiderada.”

Agora existe mais consciência.

O acontecimento não mudou.

Mas a pessoa já consegue distinguir o fato presente da história emocional que ele despertou.

Isso é muito diferente de simplesmente descarregar a raiva.

Nem tudo que encontramos precisa continuar conosco!

Existe ainda outra beleza na imagem da escavação.

Quando um arqueólogo encontra alguma coisa enterrada, ele não necessariamente volta a viver naquela época.

Ele encontra.

Observa.

Compreende.

Dá significado.

E coloca aquilo dentro de uma história.

Talvez possamos fazer algo semelhante com nossas experiências.

Nem toda dor que encontramos precisa voltar a dirigir nossa vida.

Nem toda mágoa precisa ser alimentada.

Nem toda história precisa ser repetida.

Às vezes precisamos encontrar alguma coisa justamente para finalmente conseguir deixá-la descansar.

Uma arqueologia da própria alma!

Talvez essa seja uma das mensagens que podemos retirar dessa pequena referência de Clarissa.

Conhecer a nós mesmas exige coragem para olhar não apenas para aquilo que mostramos ao mundo, mas também para aquilo que ficou enterrado.

Existem momentos em que precisamos ser Ártemis e rastrear.

Perceber os sinais.

Existem momentos em que precisamos ser como essas mulheres de barro e escavar.

Ir um pouco mais fundo.

Existem momentos em que precisamos reconhecer Muerte.

Aceitar que alguma coisa terminou.

E então permitir que aquilo que encontramos seja transformado.

Não para vivermos permanentemente olhando para o passado, mas justamente para que o passado não precise continuar decidindo o presente.

Talvez o verdadeiro trabalho seja este:

rastrear o que sentimos,
escavar o que existe por trás,
compreender o que encontramos
e reconhecer o que já pode ser deixado descansar.

E fica uma pergunta:

O que existe debaixo daquilo que você chama simplesmente de raiva?

Talvez compreender uma emoção seja, algumas vezes, exatamente isso:

fazer uma arqueologia da própria alma.

Nota: Clarissa Pinkola Estés menciona Muerte e Hecoteptl em Mulheres que Correm com os Lobos como divindades femininas de lama/barro e associa essas figuras à capacidade de rastrear, conhecer e escavar aspectos psíquicos. Hecoteptl é pouco documentada fora dessa referência; por isso, este texto trabalha principalmente com o significado simbólico apresentado pela própria autora, sem atribuir à figura uma história mitológica não confirmada.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

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📅 19 de setembro
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