sábado, 12 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Paciência - Capítulo 12!

 


Paciência não é passividade!

Há uma diferença enorme entre esperar e estar parada.

Às vezes, confundimos paciência com resignação. Pensamos que ser paciente significa aceitar tudo, não reagir, suportar indefinidamente ou simplesmente aguardar que alguma coisa mude sozinha.

Mas, no conto apresentado por Clarissa Pinkola Estés, a paciência aparece de outra maneira.

A mulher precisa conseguir um pelo do urso. Poderia tentar enfrentá-lo, dominá-lo ou aproximar-se rapidamente para retirar aquilo de que precisa. Mas qualquer uma dessas tentativas provavelmente terminaria mal.

O urso é selvagem.

Ele possui força própria.

Tem seu ritmo.

Não pode ser apressado apenas porque ela deseja chegar logo ao resultado.

Então a mulher começa a fazer algo aparentemente simples, mas profundamente difícil: ela aprende a se aproximar aos poucos.

Observa.

Espera.

Leva alimento.

Volta no dia seguinte.

Percebe a reação do animal.

Avança um pouco.

Recua quando necessário.

E retorna novamente.

À primeira vista, pode parecer que ela está apenas esperando. Mas ela está fazendo exatamente o contrário.

Ela está participando ativamente do processo.

Existe atenção em cada movimento. Existe coragem em cada aproximação. Existe disciplina em cada retorno. Existe escolha no momento de avançar e sabedoria no momento de parar.

Isso é muito diferente de passividade.

A passividade diz: “Não há nada que eu possa fazer.”

A paciência consciente pergunta: “O que posso fazer agora, respeitando o tempo deste processo?”

Talvez essa seja uma das grandes lições da história.

Nem tudo pode ser resolvido pela força.

Nem tudo responde à nossa urgência.

Nem tudo amadurece no momento em que decidimos que já esperamos demais.

E isso é especialmente verdadeiro quando estamos lidando com emoções profundas.

Queremos compreender rapidamente a raiva.

Queremos superar logo uma mágoa.

Queremos deixar de sentir aquilo que incomoda.

Queremos que uma relação se transforme.

Queremos uma resposta.

Queremos sair do desconforto.

Mas existem processos internos que não obedecem à nossa pressa.

Quando carregamos dores antigas, não basta dizer a nós mesmas: “A partir de hoje não vou mais sentir isso.”

Uma emoção construída ao longo de anos dificilmente desaparece porque tivemos uma única compreensão.

Podemos descobrir de onde vem nossa raiva e ainda assim senti-la novamente.

Podemos compreender que determinada reação está ligada ao passado e, mesmo assim, perceber aquela ferida sendo ativada outra vez.

Podemos saber racionalmente que precisamos colocar limites e ainda encontrar dificuldade para pronunciá-los.

Isso não significa que não estamos avançando.

Talvez apenas signifique que estamos aprendendo a nos aproximar do nosso próprio “urso”.

E essa aproximação também exige repetição.

Hoje percebemos a raiva depois de explodir.

Em outro momento, conseguimos percebê-la enquanto estamos explodindo.

Depois, talvez consigamos reconhecê-la alguns segundos antes.

Até que, um dia, sentimos aquela força chegando e conseguimos perguntar:

“O que está acontecendo comigo?”

“O que foi tocado aqui?”

“Que limite está sendo ultrapassado?”

“O que eu realmente preciso fazer?”

É assim que alguma coisa começa a mudar.

Não necessariamente de uma vez.

Mas pouco a pouco.

Talvez a paciência seja exatamente isso: continuar trabalhando mesmo quando a transformação ainda não está visível.

É permanecer comprometida com aquilo que queremos compreender.

É voltar para nós mesmas quantas vezes forem necessárias.

É perceber que repetir um aprendizado não significa ter fracassado.

Às vezes pensamos que, depois de entender alguma coisa, nunca mais deveríamos voltar ao comportamento antigo.

Mas processos emocionais raramente acontecem em linha reta.

Há avanços.

Há recaídas.

Há dias em que conseguimos responder de uma forma nova e outros em que percebemos que fomos novamente tomadas por uma reação conhecida.

A paciência permite olhar para isso sem transformar cada recaída numa condenação.

Ela nos ajuda a perguntar:

“O que ainda preciso aprender aqui?”

Em vez de:

“Por que ainda não consegui mudar?”

Essa diferença parece pequena, mas muda profundamente a maneira como caminhamos.

Também existe outro aprendizado importante no encontro com o urso: saber esperar não significa abandonar os próprios limites.

A mulher respeita o tempo do animal, mas continua retornando.

Ela não invade.

Mas também não desiste de sua busca.

Ela não domina.

Mas continua presente.

Talvez possamos levar essa mesma sabedoria para nossas relações.

Podemos dar tempo a alguém sem permitir que essa pessoa nos machuque indefinidamente.

Podemos compreender que alguém está vivendo um processo difícil e, ainda assim, dizer: “Isso eu não aceito.”

Podemos esperar por uma transformação sem suspender nossa própria vida enquanto ela não acontece.

Podemos ter compaixão e, ao mesmo tempo, manter distância.

Paciência não significa permanecer eternamente diante de uma porta fechada.

Às vezes, ser paciente também significa reconhecer o momento de seguir.

Por isso, a pergunta não é apenas “quanto tempo devo esperar?”

Talvez seja:

“O que estou fazendo enquanto espero?”

Estou aprendendo?

Estou observando?

Estou me fortalecendo?

Estou estabelecendo limites?

Estou mudando a minha forma de responder?

Ou apenas estou paralisada esperando que outra pessoa resolva aquilo que eu não consigo controlar?

Existe uma diferença enorme entre esperar que a vida aconteça e caminhar junto com o tempo necessário para que alguma coisa amadureça.

A mulher do conto não arrancou o pelo do urso à força.

Ela também não ficou sentada ao pé da montanha esperando que o urso viesse até ela.

Ela caminhou.

Observou.

Voltou.

Tentou novamente.

Aprendeu.

E foi se transformando durante esse processo.

Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de compreender a paciência:

não como ausência de movimento, mas como a capacidade de continuar caminhando sem violentar o tempo das coisas.

Porque algumas transformações precisam de coragem.

Outras precisam de decisão.

E algumas precisam simplesmente que continuemos presentes tempo suficiente para que aquilo que estamos aprendendo possa criar raízes dentro de nós.

Ter paciência com um processo não significa ficar parada dentro dele.

Significa continuar caminhando, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar claramente o quanto já mudamos.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!


🌿 Com carinho,

#MuenBotoke #mulheresquecorremcomoslobos #clarissapinkolaestés #capitulo12 #oursodameialua  #Perdão #Autoconhecimento #Relacionamentos #CuraEmocional #LibertaçãoEmocional #ressentimento #Reflexão #Ressignificação #BethCastrotaróloga #literaturaemocional #rodademulheressabiasefortes #reflexão #bhtarot #bethcastroterapias #rodadeconversavirtual #rodavirtual #rodademulheres #mulherajudamulher #mulherinteligente #forçafeminina #psicologiaarquetípica #vivênciastransformadoras #mulherselvagem #desapego #encerramentodeciclo #espiritualidade #pazinterior #raiva #curadaraiva  #Paciência #ProcessosDeCura #SabedoriaFeminina #Limites #Transformação 



quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - O Pelo do Urso Não Era a Cura!- Capítulo 12!

 


O pelo do urso não era a cura!

Há momentos em que chegamos à vida como quem chega à porta de uma curandeira: cansadas, feridas, impacientes e querendo uma resposta. Queremos alguma coisa concreta que nos diga o que fazer, que alivie a dor, que devolva alguém ao que era antes, que cure uma relação, que acalme uma raiva ou que organize aquilo que dentro de nós parece ter perdido o lugar. Procuramos uma palavra, um conselho, uma fórmula, um ritual, uma decisão. Procuramos, de algum modo, o nosso próprio “pelo do urso”.

No conto apresentado por Clarissa Pinkola Estés, uma mulher procura ajuda porque seu marido volta da guerra profundamente transformado. Ele está irritado, fechado e tomado por uma raiva que ela não sabe como alcançar. Diante disso, ela procura uma curandeira, esperando encontrar uma solução para aquilo que está vivendo. A curandeira, então, lhe pede algo aparentemente impossível: um pelo retirado da região do pescoço de um urso que vive na montanha.

A mulher aceita a missão e começa a subir.

Mas ela logo percebe que não pode simplesmente se aproximar do animal e arrancar aquilo de que precisa. O urso é selvagem, forte e imprevisível. Não pode ser dominado. Então ela precisa aprender outra coisa. Primeiro, observa de longe. Depois, se aproxima um pouco mais. Leva alimento. Espera. Respeita o tempo do animal. Volta no dia seguinte, e no outro, e no outro. Aos poucos, aprende a perceber quando pode avançar e quando precisa recuar. Aprende a lidar com o medo sem abandonar a tentativa. Aprende a construir confiança sem forçar a aproximação.

Até que, lentamente, aquilo que parecia impossível começa a se tornar possível. O urso permite que ela chegue perto o suficiente. Ela consegue o pelo e desce a montanha acreditando que, finalmente, possui aquilo que irá resolver seu problema.

Mas, quando entrega o pelo à curandeira, acontece algo inesperado: ela o joga no fogo.

E talvez essa seja uma das imagens mais bonitas do conto.

Porque o pelo nunca foi a cura.

A jornada era!

A mulher subiu a montanha procurando um objeto, mas voltou diferente. O que realmente trouxe daquela experiência não podia ser segurado nas mãos. Ela trouxe paciência, porque descobriu que não poderia apressar o urso. Trouxe percepção, porque precisou observar cada movimento antes de se aproximar. Trouxe respeito, porque compreendeu que força não se conquista pela violência. Trouxe coragem, porque continuou avançando mesmo diante do medo. Trouxe disciplina, porque voltou repetidamente, mesmo sem qualquer garantia de que conseguiria o que queria. Trouxe sensibilidade, porque precisou aprender a perceber o momento de aproximar-se e o momento de esperar.

E trouxe também uma compreensão ainda mais profunda: não podemos obrigar alguém, nem a nós mesmas, a se transformar no tempo que desejamos.

Talvez seja por isso que o pelo possa ser queimado. Aquilo que precisava permanecer já havia sido incorporado por ela.

Nós também fazemos isso muitas vezes. Procuramos algo fora de nós acreditando que, quando finalmente conseguirmos, tudo ficará bem. Pensamos: “Se ele mudar, eu vou ficar bem.” “Se ela reconhecer o que fez, vou conseguir seguir.” “Se eu encontrar a resposta certa, minha raiva vai desaparecer.” “Se alguém me disser exatamente o que fazer, tudo se resolve.”

Não há nada de errado em buscar ajuda. Precisamos de pessoas, de conhecimento, de orientação, de terapia, de caminhos que nos apoiem. Mas existem transformações que ninguém consegue nos entregar prontas, porque certas respostas só começam a surgir enquanto percorremos o caminho.

Há ainda uma inversão muito bonita nessa história. A mulher começa sua jornada querendo curar o marido. Era ele quem estava tomado pela raiva. Era ele quem havia mudado. Era ele quem parecia precisar da cura. Mas quem sobe a montanha é ela. Quem enfrenta o medo é ela. Quem aprende a esperar é ela. Quem precisa desenvolver uma nova maneira de se aproximar da força, da dor e daquilo que não pode controlar é ela.

Isso não significa que somos responsáveis pela transformação do outro. Pelo contrário. Talvez o conto esteja justamente mostrando que esse poder não nos pertence. Podemos acompanhar, conversar, estabelecer limites, oferecer presença e mudar nossa forma de responder, mas não podemos arrancar de alguém aquilo que essa pessoa ainda não está pronta para transformar.

O caminho que realmente está ao nosso alcance é o nosso.

E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de aceitar. Muitas vezes queremos curar alguém, salvar uma relação, acelerar um processo, eliminar uma emoção ou encontrar uma resposta definitiva. Queremos chegar logo ao fim da montanha. Queremos pegar o pelo.

Mas nem toda cura acontece como imaginávamos.

Às vezes pensamos que cura significa não sentir mais raiva, não lembrar, não sofrer, não ter medo ou nunca mais voltar a determinados lugares internos. Mas talvez a cura seja outra coisa. Talvez seja conseguir visitar esses lugares sem ser dominada por eles. Sentir raiva e ainda escolher como agir. Perceber o medo sem abandonar a si mesma. Reconhecer uma ferida sem transformar cada situação nova numa repetição do passado. Estabelecer limites sem precisar destruir o outro. Dar tempo ao que não pode ser apressado.

A mulher desce da montanha ainda vivendo a mesma realidade. Seu marido não foi magicamente transformado. A vida não se reorganizou num instante. Mas ela já não é a mesma mulher que iniciou a subida.

E isso muda muita coisa.

Podemos compreender intelectualmente que precisamos ter paciência, mas é diferente quando alguma situação da vida nos obriga a praticá-la. Podemos saber que precisamos respeitar nossos limites, mas é diferente quando precisamos finalmente dizer “não”. Podemos repetir que não controlamos os outros, mas é diferente quando precisamos amar alguém sem conseguir salvá-lo. Podemos entender que a raiva precisa ser transformada, mas é diferente quando ela aparece e somos nós que precisamos escolher o que fazer com ela.

Existem conhecimentos que entram pela cabeça. Outros só entram pela experiência.

Talvez seja por isso que a curandeira não ofereça simplesmente uma resposta. Ela oferece uma jornada.

E talvez possamos levar essa pergunta para a nossa própria vida: qual é o meu pelo do urso?

O que eu acredito que precisa acontecer para finalmente ficar bem? Existe alguém que ainda precisa mudar? Existe um pedido de desculpas que continuo esperando? Existe uma resposta que acredito precisar encontrar? Existe alguma situação que estou tentando resolver imediatamente, quando talvez o processo esteja pedindo tempo?

E, principalmente, quem estou me tornando enquanto busco aquilo que desejo?

Talvez exista algo que estejamos perseguindo acreditando ser a solução. Mas talvez, como no conto, o verdadeiro presente não esteja no final da montanha. Talvez esteja em cada passo dado para chegar até lá. Na coragem que desenvolvemos. Nos limites que aprendemos. Na paciência que precisamos cultivar. Nas ilusões que abandonamos. Na força que encontramos. Na pessoa que começa a surgir enquanto caminhamos.

No fim, talvez alguns “pelos do urso” também precisem ser lançados ao fogo.

Porque existem coisas que cumprem sua função simplesmente ao nos fazer caminhar até elas.

Às vezes, aquilo que buscamos não é a cura. A pessoa que nos tornamos durante a busca é que começa a nos curar.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
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Espero você!


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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muen Botoke Parte 2 - Capítulo 12!

 

Os mortos que ainda alimentamos: relações que terminaram, mas continuam ocupando nossa energia!

Algumas pessoas saem da nossa vida.

Mas não saem de dentro de nós.

O relacionamento terminou há anos, a amizade acabou, o afastamento aconteceu e a pessoa seguiu o caminho dela.

Mesmo assim, continuamos conversando mentalmente com ela.

Explicamos aquilo que nunca conseguimos explicar.

Respondemos às frases que nos feriram.

Imaginamos o pedido de desculpas que gostaríamos de receber.

Fantasiamos o dia em que aquela pessoa finalmente perceberá que estava errada.

E, sem perceber, continuamos oferecendo nossa energia a uma relação que já não existe.

Talvez existam mortos emocionais que ainda alimentamos.

Uma relação pode terminar sem que o vínculo termine!

Existe uma diferença entre uma relação acabar e um vínculo emocional ser encerrado.

Uma relação pode terminar numa quinta-feira qualquer.

Uma conversa.

Uma separação.

Uma despedida.

Uma porta fechada.

Mas o vínculo pode permanecer durante meses ou anos.

Porque o vínculo não depende apenas da presença do outro.

Ele também vive dentro de nós.

Vive naquilo que esperamos.

Naquilo que não compreendemos.

Naquilo que gostaríamos que tivesse acontecido.

Naquilo que ainda queremos cobrar.

Por isso, algumas pessoas permanecem profundamente presentes mesmo estando completamente ausentes.

O ressentimento também é uma forma de vínculo!

Quando pensamos em vínculo, normalmente imaginamos amor, carinho ou saudade.

Mas a raiva também une.

O ressentimento também mantém uma ligação.

Enquanto pensamos:

“Um dia ele vai pagar pelo que fez.”

“Ela precisava reconhecer o quanto me machucou.”

“Eu nunca vou esquecer aquilo.”

“Queria que essa pessoa sentisse o que eu senti.”

A história continua aberta.

O outro pode nem pensar mais em nós, mas continua ocupando um espaço emocional dentro da nossa vida.

É uma constatação desconfortável:

às vezes, odiar alguém nos mantém tão presos quanto amar.

Quantas vezes ainda visitamos aquilo que já morreu?

Existe uma imagem interessante relacionada ao termo japonês muen-botoke.

Tradicionalmente, a expressão está ligada aos mortos que não possuem vínculos familiares ou pessoas que cuidem de sua memória e de seus túmulos.

Não é originalmente uma filosofia sobre relacionamentos.

Mas podemos utilizar essa imagem como uma metáfora para observar nossa própria vida.

Há relações que morreram e mesmo assim, continuamos visitando seus túmulos emocionais.

Levamos flores em forma de pensamentos.

Acendemos velas em forma de lembranças repetidas.

Conversamos novamente com episódios que já aconteceram.

Voltamos ao mesmo lugar mental esperando que, desta vez, o passado responda de outra maneira.

Mas ele nunca responde.

“Por quê?” é uma pergunta que pode não ter fim!

Uma das maneiras mais comuns de permanecermos presos a uma história é continuar perguntando:

“Por que ele fez isso?”

“Por que ela não me escolheu?”

“Por que meu pai nunca conseguiu demonstrar carinho?”

“Por que minha mãe agiu daquela forma?”

“Por que aquela pessoa me traiu?”

“Por que não reconheceram o que fizeram comigo?”

Algumas dessas perguntas possuem respostas.

Outras nunca terão.

E existe um momento em que a busca pela explicação deixa de produzir compreensão e passa apenas a prolongar o sofrimento.

Talvez a pergunta precise mudar.

Em vez de:

“Por que fizeram isso comigo?”

podemos perguntar:

“O que eu preciso fazer agora para que isso deixe de determinar minha vida?”

Essa mudança é enorme.

Porque devolve para nós aquilo que estava nas mãos do outro.

Às vezes, queremos justiça quando o que precisamos é liberdade!

É natural desejar reparação.

Quando somos feridos, existe dentro de nós uma espécie de contador emocional.

Ele registra:

o que demos,

o que recebemos,

o que perdemos,

o que nos fizeram,

o que nunca foi reconhecido.

Então esperamos algum tipo de pagamento.

Um pedido de desculpas.

Uma explicação.

Um arrependimento.

Uma mudança.

Ou simplesmente que a vida cobre daquela pessoa aquilo que ela nos fez.

Mas há um problema.

Enquanto esperamos o pagamento, continuamos sendo credores daquela história.

A dívida permanece aberta.

E uma dívida aberta mantém duas pessoas conectadas.

Talvez o perdão comece justamente quando dizemos:

“Você não precisa mais me pagar para que eu possa seguir.”

Isso não significa dizer que o que aconteceu foi correto.

Significa apenas que nossa liberdade não dependerá mais da consciência do outro.

Perdoar não é convidar alguém novamente para nossa mesa!

Existe uma enorme confusão sobre o perdão.

Perdoar não significa necessariamente reconciliar.

Não significa voltar.

Não significa confiar novamente.

Não significa permitir outro abuso.

Não significa esquecer os limites que aprendemos a estabelecer.

É perfeitamente possível perdoar alguém e nunca mais permitir que essa pessoa tenha o mesmo acesso à nossa vida.

Algumas portas podem ser fechadas sem ódio.

Algumas relações podem terminar sem vingança.

Algumas pessoas podem ser perdoadas à distância.

O perdão não precisa devolver a pessoa para a nossa vida.

Talvez ele sirva justamente para retirá-la de dentro de nós.

Existem conversas que precisamos parar de ter!

Você já percebeu quantas discussões acontecem apenas dentro da nossa cabeça?

Enquanto dirigimos.

Enquanto tomamos banho.

Antes de dormir.

No meio de uma tarefa qualquer.

De repente estamos novamente naquela conversa.

Dizendo aquilo que deveríamos ter dito.

Provando nosso ponto.

Mostrando ao outro como ele estava errado.

Vencendo uma discussão que aconteceu cinco anos atrás.

É uma forma silenciosa de permanência.

A pessoa não está presente.

Mas nossa mente continua convocando-a.

Talvez uma das formas mais concretas de desapego seja perceber:

“Eu não preciso continuar essa conversa.”

E interrompê-la.

Não violentamente.

Apenas escolhendo não oferecer mais energia para aquela cena.

A rotina mostra onde ainda estamos presos!

O desapego não acontece apenas em grandes cerimônias ou profundas reflexões.

Ele aparece nas pequenas escolhas.

Quando o nome da pessoa surge e você não precisa contar novamente toda a história.

Quando alguém pergunta sobre o passado e você consegue responder sem reviver tudo emocionalmente.

Quando você percebe uma lembrança surgindo e não passa os quarenta minutos seguintes reconstruindo mentalmente aquele episódio.

Quando deixa de olhar as redes sociais da pessoa.

Quando para de perguntar aos amigos como ela está.

Quando não precisa saber se ela se arrependeu.

Quando percebe que já não sente necessidade de provar que venceu.

Esses pequenos movimentos são sinais de que uma história está finalmente ocupando o lugar ao qual pertence:

o passado.

Algumas histórias não precisam de um final perfeito!

Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja que nem todas as histórias terminam de maneira satisfatória.

Algumas pessoas nunca pedirão desculpas.

Algumas nunca reconhecerão o dano que causaram.

Alguns relacionamentos terminarão sem aquela última conversa esclarecedora.

Algumas perguntas continuarão sem resposta.

Algumas injustiças permanecerão injustas.

E ainda assim podemos seguir.

Porque encerramento não é algo que necessariamente recebemos do outro.

Às vezes, somos nós que precisamos produzi-lo.

Um pequeno exercício!

Pense em alguém que não participa mais da sua vida, mas que ainda aparece frequentemente nos seus pensamentos.

Agora pergunte a si mesmo:

O que ainda espero dessa pessoa?

Um pedido de desculpas?

Reconhecimento?

Arrependimento?

Explicação?

Justiça?

Que ela volte?

Que perceba o que perdeu?

Depois pergunte:

E se isso nunca acontecer?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Porque é justamente aí que encontramos aquilo que ainda nos prende.

E então podemos fazer uma última pergunta:

Posso construir minha paz mesmo sem receber isso?

Não precisamos responder imediatamente.

Mas talvez seja por aí que o desapego comece.

Deixe os mortos descansarem!

Algumas relações foram maravilhosas enquanto existiram.

Outras nos machucaram profundamente.

Algumas nos ensinaram.

Algumas nos quebraram.

Algumas nos obrigaram a descobrir partes de nós mesmos que jamais conheceríamos de outra maneira.

Todas podem fazer parte da nossa história.

Mas fazer parte da nossa história é diferente de continuar comandando nosso presente.

Talvez existam pessoas que já partiram da nossa vida e que ainda estamos tentando manter emocionalmente vivas.

Talvez seja hora de agradecer pelo que houve.

Chorar pelo que não houve.

Aprender o que precisava ser aprendido.

Devolver ao outro aquilo que pertence a ele.

E recolher de volta aquilo que é nosso.

Nossa atenção.

Nossa energia.

Nosso presente.

Nossa capacidade de amar novamente.

Nossa paz.

Eu não preciso mais carregar você comigo.

E talvez uma das formas mais profundas de liberdade seja conseguir olhar para aquilo que um dia nos feriu e dizer:

Existem histórias que não precisam ser apagadas.

Precisam apenas descansar.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muen Botoke - Capítulo 12!


 

Muen-botoke: quando uma relação termina, mas continua vivendo dentro de nós!

Existem relações que acabam por fora, mas permanecem vivas por dentro.

A pessoa já foi embora. O casamento terminou. A amizade se rompeu. Os caminhos se separaram. Às vezes, nem existe mais contato.

Mesmo assim, aquela relação continua recebendo nossa atenção.

Voltamos mentalmente às conversas. Recriamos discussões. Imaginamos o que deveríamos ter dito. Esperamos um pedido de desculpas que talvez nunca venha. Tentamos compreender por que aquilo aconteceu.

É como se o vínculo tivesse terminado na realidade, mas ainda tivesse um lugar reservado dentro de nós.

Uma antiga expressão japonesa pode provocar uma reflexão interessante sobre isso: 

muen-botoke (無縁仏).

O que significa muen-botoke?

No Japão, muen-botoke é uma expressão tradicionalmente utilizada para se referir a pessoas que morreram sem familiares ou pessoas próximas que cuidassem de seu túmulo, realizassem ritos ou preservassem sua memória. Também pode se referir a mortos cuja identidade ou vínculos familiares são desconhecidos.

Portanto, não se trata originalmente de uma filosofia sobre relacionamentos ou de uma técnica de desapego.

Mas sua imagem pode nos oferecer uma poderosa metáfora.

Porque também existem relações que já morreram, mas que continuamos alimentando emocionalmente.

Quando continuamos cuidando do túmulo de uma relação!

Imagine uma mulher cujo relacionamento terminou há cinco anos.

Ela reconstruiu a vida. Não fala mais com o antigo parceiro. Talvez até esteja vivendo uma nova relação.

Mas, de tempos em tempos, volta ao passado.

“Por que ele fez aquilo comigo?”

“Será que algum dia percebeu o quanto me machucou?”

“Eu deveria ter falado tantas coisas.”

“Um dia ele ainda vai entender o que perdeu.”

O relacionamento acabou.

Mas emocionalmente ela continua visitando aquele lugar.

Continua levando flores para algo que já não existe.

Continua conversando com uma história que terminou.

E isso acontece não apenas nos relacionamentos amorosos.

Pode acontecer com uma amizade desfeita.

Com um conflito familiar.

Com alguém que nos traiu.

Com uma injustiça profissional.

Com um pai ou uma mãe que não nos deram aquilo que esperávamos.

Ou até com a versão de nós mesmos que gostaríamos de ter sido.

Nem todo vínculo precisa continuar sendo alimentado!

Há uma diferença importante entre lembrar e continuar vinculado.

Lembrar é reconhecer:

“Isso aconteceu comigo.”

Continuar vinculado é sentir:

“Isso ainda determina o que eu sinto, penso ou faço.”

Uma experiência pode continuar fazendo parte da nossa história sem continuar comandando nossa vida.

Talvez seja justamente aí que comece o desapego.

Não quando apagamos a memória.

Mas quando paramos de alimentá-la diariamente.

Perdoar também pode ser deixar de cobrar uma dívida!

Muitas vezes acreditamos que perdoar significa absolver alguém.

Não necessariamente.

Podemos reconhecer que alguém agiu mal e ainda assim decidir não carregar aquela pessoa emocionalmente conosco para sempre.

Perdoar pode significar deixar de esperar que o outro finalmente:

reconheça o erro,

peça desculpas,

sofra o mesmo que nos fez sofrer,

entenda nossa dor,

ou devolva alguma coisa que sentimos ter perdido.

Porque, enquanto esperamos esse pagamento, a dívida continua aberta.

E toda dívida emocional aberta mantém algum tipo de vínculo.

Às vezes, libertar-se significa simplesmente dizer internamente:

“O que aconteceu não muda. Mas eu não quero mais organizar minha vida ao redor disso.”

Deixar ir não significa dizer que não foi importante!

Existe também um medo silencioso por trás do desapego.

Se eu deixar isso ir, será que estou dizendo que não foi grave?

Se eu parar de sentir raiva, será que estou dando razão ao outro?

Se eu seguir em frente, será que estou diminuindo aquilo que vivi?

Não.

Deixar ir não altera o passado.

Apenas modifica o lugar que o passado ocupa dentro de nós.

Podemos dizer:

“Foi importante.”

“Doeu.”

“Foi injusto.”

“Eu aprendi.”

“Eu não quero viver isso novamente.”

E, ainda assim:

“Eu escolho não carregar mais.”

Talvez existam túmulos emocionais dentro de nós!

Algumas histórias precisam ser lembradas.

Outras precisam ser compreendidas.

Algumas precisam ser choradas.

Mas talvez existam aquelas que simplesmente precisam descansar.

Não porque foram insignificantes.

Mas porque já cumpriram seu tempo em nossa vida.

Talvez possamos olhar para determinados vínculos e perguntar:

Essa relação ainda existe ou sou eu quem continua mantendo viva a relação dentro de mim?

Existe algo que continuo esperando dessa pessoa?

Estou preservando uma lembrança ou alimentando uma ferida?

O que aconteceria se eu parasse de visitar emocionalmente essa história?

Há momentos em que a verdadeira despedida não acontece quando alguém vai embora.

Ela acontece muito depois.

Quando finalmente deixamos de conversar mentalmente com quem já partiu da nossa vida.

Quando paramos de esperar respostas.

Quando deixamos de cobrar dívidas emocionais.

Quando retiramos nossa energia daquele lugar.

E permitimos que algumas histórias, finalmente, descansem.

Não precisamos destruir o passado.

Talvez precisemos apenas parar de morar nele.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

🌿 Com carinho,

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