A fome da alma e o fruto que amadurece!
Em A Donzela sem Mãos,
há uma imagem aparentemente simples que contém um simbolismo profundo.
A Donzela chega faminta a
um pomar.
Ela precisa comer, mas
não possui mãos para colher o fruto.
Então a pereira se curva
até ela.
O alimento vem ao
encontro da mulher.
Clarissa Pinkola Estés
aproxima essa imagem da mãe que oferece o seio ao bebê.
Não estamos falando
apenas de fome física.
Estamos diante de uma
imagem de nutrição psíquica.
A mulher atravessou
perdas, deixou o conhecido, perambulou por uma região em que a antiga
identidade já não servia e a nova ainda não estava formada.
Ela está entre duas
vidas.
E sente fome.
Talvez seja exatamente
assim que determinadas transformações começam a se manifestar.
Aquilo que antes nos
alimentava deixa de satisfazer.
A aprovação das pessoas
já não basta.
Uma relação perde sua
capacidade de nutrir.
Uma conquista perde o
brilho.
Um antigo objetivo deixa
de fazer sentido.
E então aparece aquela
estranha sensação:
“Tenho tantas coisas, mas
parece que alguma coisa ainda está faltando.”
Talvez a pergunta precise
mudar.
Em vez de perguntarmos
somente o que está faltando, podemos perguntar:
Que tipo de alimento a
minha vida psíquica está pedindo agora?
Porque nem todas as fomes
são iguais.
Há fome de
reconhecimento.
Fome de pertencimento.
Fome de intimidade.
Fome de liberdade.
Fome de criação.
Fome de descanso.
Fome espiritual.
Fome de viver de forma
mais coerente com aquilo que já sabemos sobre nós mesmas.
E existe algo muito
importante na imagem da pereira:
a Donzela precisa
aprender a receber.
Até então, grande parte
de sua jornada foi feita através da resistência.
Ela suportou.
Caminhou.
Chorou.
Atravessou.
Mas crescimento não
acontece apenas quando fazemos força.
Também existe crescimento
quando conseguimos receber aquilo que verdadeiramente nos nutre.
Clarissa acrescenta então
outra imagem simbólica: a saudação de Isabel a Maria e o fruto que está sendo
carregado no ventre.
O símbolo se amplia.
Primeiro temos a mulher
faminta que precisa ser alimentada.
Depois temos a mulher que
carrega dentro de si algo que ainda está amadurecendo.
Essas duas imagens podem
estar profundamente relacionadas.
Talvez precisemos de
alimento justamente porque alguma coisa nova está sendo gestada dentro de nós.
Uma nova consciência.
Uma identidade.
Uma criação.
Uma escolha.
Uma forma diferente de
estar no mundo.
O fruto ainda não
apareceu completamente.
Mas já existe.
E aquilo que está em
gestação precisa ser nutrido antes de nascer.
Uma aproximação com o
Tarô!
Clarissa não faz essa
relação com o Tarô, mas podemos aproximar essa passagem de A Imperatriz.
A Imperatriz é um arcano
profundamente ligado à fertilidade, à criação, à nutrição, ao corpo, à
abundância e à capacidade de fazer a vida crescer.
Ela não fala apenas de
maternidade literal.
Seu ventre pode
representar tudo aquilo que cultivamos até que esteja suficientemente
amadurecido para ganhar forma no mundo.
Uma ideia.
Um projeto.
Uma nova identidade.
Uma relação diferente
conosco mesmas.
Uma criação.
Uma forma mais autêntica
de viver.
A Imperatriz nos lembra
que aquilo que queremos ver nascer também precisa ser alimentado.
E isso nos leva a uma
pergunta importante:
Com o que estamos
alimentando aquilo que desejamos criar?
Não adianta querer que
uma vida nova cresça enquanto continuamos oferecendo a ela exatamente os mesmos
alimentos que sustentavam a vida antiga.
Se queremos mais
liberdade, precisamos alimentar escolhas que criem liberdade.
Se queremos mais
criatividade, precisamos alimentar espaço para criar.
Se queremos relações mais
verdadeiras, precisamos alimentar limites e reciprocidade.
Se queremos uma nova
identidade, talvez seja necessário parar de alimentar continuamente aquela
versão de nós mesmas que já terminou.
É aqui que a fome da
Donzela e o ventre simbólico da Imperatriz começam a conversar.
A fome revela que alguma
coisa precisa de nutrição.
O ventre mostra que
alguma coisa está em processo de formação.
E o fruto representa
aquilo que, depois de receber tempo, energia e cuidado, poderá finalmente
amadurecer.
Clarissa traz ainda a
imagem do maná no deserto.
Nem sempre recebemos tudo
de uma vez.
Às vezes recebemos apenas
o alimento necessário para continuar caminhando.
Isso também pertence à
sabedoria da Imperatriz.
Uma semente não precisa
receber amanhã toda a água de que necessitará durante sua vida inteira.
Ela precisa receber o
suficiente para crescer hoje.
Talvez façamos o mesmo
conosco.
Nem sempre precisamos
descobrir imediatamente como será toda a nossa próxima fase.
Talvez precisemos
reconhecer apenas:
qual alimento minha alma
necessita agora?
E existe ainda outra
pergunta:
o que estou alimentando
sem perceber?
Porque tudo aquilo que
recebe continuamente nossa atenção, energia, tempo e afeto tende a crescer.
Podemos alimentar um
projeto.
Mas também podemos
alimentar um medo.
Podemos alimentar nossa
autonomia.
Ou alimentar uma
dependência.
Podemos alimentar uma
nova identidade.
Ou continuar fortalecendo
hábitos que pertencem à mulher que já não queremos ser.
A Imperatriz nos convida
a escolher conscientemente aquilo que desejamos nutrir.
Por isso, talvez a grande
questão dessa passagem seja:
O que está crescendo
dentro de mim?
E depois:
Estou oferecendo a isso o
alimento de que realmente precisa?
A fome nem sempre anuncia
apenas uma falta.
Às vezes ela anuncia que alguma
coisa nova está ficando viva demais para continuar sendo alimentada pela vida
antiga.
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Terapeuta Integrativa & Taróloga
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