Deusas do Barro: a Mulher de Lama e
os Arcanos
da transformação!
Há momentos em que a vida nos tira
da superfície.
Aquilo que parecia organizado começa
a perder forma. As certezas diminuem. Algumas relações deixam de fazer sentido.
O que antes conseguíamos sustentar já não cabe mais em nós.
E, de repente, aquela imagem de
mulher que sempre soube o que fazer, que cuidava de tudo, que mantinha a rotina
e seguia em frente começa a se desfazer.
É nesse território que encontramos
uma das imagens mais fortes de Mulheres que Correm com os Lobos, de
Clarissa Pinkola Estés: a Mulher de Lama, presente na análise do conto A
Donzela sem Mãos.
No conto, o predador acredita que
poderá enfraquecer a donzela retirando dela aquilo que chama de sua “camada
civilizada”.
Se ela não puder se banhar, se ficar
suja, desgrenhada, longe da aparência organizada que possuía antes, talvez
perca também sua força.
Mas acontece justamente o contrário.
Quanto mais a jovem se aproxima da
terra, da lama e de sua condição selvagem, mais distante ela fica do domínio do
predador.
Aquilo que parecia degradação se
transforma em aproximação de uma natureza mais profunda.
E essa passagem possui uma relação
impressionante com o Tarô.
Porque os Arcanos também conhecem a
linguagem das grandes transformações.
Eles sabem que nem todo caminho
espiritual começa na luz.
Alguns começam justamente quando
precisamos entrar na floresta.
A Mulher de Lama e A Lua!
Se existe uma carta capaz de nos
conduzir ao território da Mulher de Lama, ela é A Lua.
A Lua não ilumina o caminho como o
Sol.
Sua luz é indireta.
Ela revela apenas partes.
Cria sombras.
Desperta sensações.
Traz sonhos, memórias,
pressentimentos e conteúdos que estavam escondidos sob a superfície.
Quando A Lua aparece em uma leitura,
muitas vezes não temos todas as respostas.
Existe algo acontecendo, mas ainda
não conseguimos nomear completamente.
É um território muito semelhante à
floresta subterrânea apresentada por Clarissa.
Entrar nesse espaço significa
aceitar que nem tudo será compreendido imediatamente pela razão.
É preciso desenvolver outro tipo de
percepção.
Sentir.
Observar.
Sonhar.
Escutar o corpo.
Perceber aquilo que nos inquieta
mesmo quando aparentemente “está tudo bem”.
A Mulher de Lama atravessa
exatamente esse território.
Ela já não pertence completamente ao
mundo antigo, mas ainda não chegou à nova forma.
Ela está entre mundos.
Assim como A Lua.
A Morte: quando uma antiga
identidade precisa terminar!
Depois vem A Morte.
Talvez nenhuma carta seja tão mal
compreendida quanto ela.
No Tarô, A Morte raramente fala
apenas da morte física. Seu grande tema é o encerramento necessário.
Algo completou seu ciclo.
Uma identidade.
Uma relação.
Uma forma de viver.
Uma crença.
Uma versão de nós mesmas.
O sofrimento muitas vezes começa
quando tentamos preservar aquilo que a vida já está desmontando.
A Mulher de Lama sabe disso de uma
maneira radical.
A donzela não consegue simplesmente
retornar à vida anterior.
A antiga forma foi rompida.
Ela precisará descobrir outra
maneira de existir.
É isso que A Morte pergunta:
O que já terminou, mas você ainda
está tentando manter vivo?
Algumas transformações só começam
quando paramos de reconstruir aquilo que precisava cair.
O Enforcado/O Pendurado: quando as antigas mãos
já não funcionam!
Em A Donzela sem Mãos, a
perda das mãos é um dos grandes símbolos da narrativa.
Com as mãos, tocamos, realizamos,
controlamos, seguramos e construímos.
Perdê-las simbolicamente pode
representar um período em que nossas antigas formas de agir já não conseguem
resolver aquilo que estamos vivendo.
É impossível não relacionar essa
experiência ao Enforcado.
O Enforcado também interrompe a
ação.
Ele não avança.
Não conquista.
Não força.
Ele permanece suspenso.
E justamente por não conseguir agir
da maneira habitual, começa a enxergar de outra perspectiva.
Há fases em que insistir em “fazer
mais” não resolve.
Talvez seja necessário parar.
Observar.
Esperar.
Mudar o ponto de vista.
Perguntar:
E se eu não puder resolver isso do
modo como sempre resolvi?
Essa é uma pergunta profundamente
iniciática.
Porque há momentos em que a vida não
quer mais eficiência.
Quer consciência.
A Imperatriz: o barro como matéria
de criação!
Depois da descida, encontramos outro
Arcano fundamental: A Imperatriz.
Ela está profundamente ligada à
Terra.
Ao corpo.
À fertilidade.
À natureza.
À capacidade de criar e fazer
nascer.
E aqui o barro ganha outro
significado.
A lama não é apenas sujeira.
É terra misturada com água.
É matéria fértil.
É aquilo que ainda não recebeu sua
forma definitiva.
O barro pode ser pressionado.
Remodelado.
Transformado.
Pode guardar marcas e ainda assim
receber uma nova forma.
A Imperatriz nos lembra que
transformação não significa apenas destruir aquilo que existia.
Também significa gestar aquilo
que virá depois.
Talvez você ainda não saiba
exatamente quem está se tornando.
Mas alguma coisa já está sendo
formada.
Nem todo processo criativo é bonito
enquanto acontece.
A semente também rompe antes de
brotar.
A terra também parece escura antes
de revelar aquilo que estava germinando.
A Força: o reencontro com o instinto!
E então chegamos à Força.
Uma mulher e um animal selvagem.
Mas ela não destrói o animal.
Não o expulsa.
Não precisa vencê-lo pela violência.
Existe relação.
Presença.
Consciência.
Essa é uma imagem poderosa para
compreender a Mulher Selvagem.
Durante muito tempo fomos ensinadas
a imaginar nossos instintos como algo que precisava ser controlado.
A raiva.
O desejo.
A percepção.
A intuição.
A necessidade de recuar.
A capacidade de dizer não.
A vontade de mudar.
A Força apresenta outra
possibilidade.
Não precisamos destruir o animal.
Precisamos aprender sua linguagem.
A mulher que atravessa a lama pode
começar a recuperar justamente isso.
Seu faro.
Sua percepção.
Seus limites.
Seu desejo.
Sua capacidade de reconhecer o que
alimenta e o que ameaça sua natureza profunda.
Das Deusas de Lama à Mulher de Lama!
Há ainda uma conexão interessante
dentro da própria obra de Clarissa.
Em outro capítulo, O Urso da
Meia-Lua, aparecem figuras femininas de lama associadas à capacidade de
penetrar os aspectos psíquicos das coisas.
Podemos fazer aqui uma leitura
simbólica.
Primeiro, encontramos figuras que
conhecem aquilo que está abaixo da superfície.
Depois, em A Donzela sem Mãos,
encontramos uma mulher que se torna ela própria Mulher de Lama.
É como se a jornada dissesse:
primeiro precisamos rastrear.
Depois precisamos escavar.
E, em determinado momento,
precisamos ter coragem de descer até aquilo que encontramos.
É dessa aproximação que nasce a
imagem que estamos chamando aqui de Deusas do Barro.
Não como um termo criado por
Clarissa, mas como um símbolo para pensar as mulheres que atravessam processos
de transformação profunda.
Quando a aparência deixa de ser o
centro
Existe uma “camada civilizada” que
todos construímos para viver no mundo.
Ela possui sua função.
Mas às vezes nos identificamos
demais com ela.
A mulher que dá conta.
A mulher que não incomoda.
A mulher sempre disponível.
A mulher que cuida de todos.
A mulher que nunca demonstra
fraqueza.
A mulher que continua sorrindo
quando está exausta.
Até que algum acontecimento rompe
essa estrutura.
Uma separação.
Uma perda.
Uma mudança profissional.
Uma crise.
Um encontro consigo mesma.
E aquela mulher já não consegue
manter tudo exatamente como antes.
Começa a dizer não.
Deseja mais silêncio.
Reduz compromissos.
Questiona relações.
Percebe que algumas expectativas já
não lhe pertencem.
Então alguém olha e diz:
“Você mudou.”
Talvez tenha mudado mesmo.
Mas nem toda mudança significa que
estamos nos perdendo.
Às vezes estamos simplesmente
retirando energia da aparência para descobrir o que existe por baixo dela.
O Tarô não pergunta apenas o que vai
acontecer
Esse talvez seja um dos aspectos
mais importantes do Tarô.
Ele não serve apenas para perguntar:
“O que vai acontecer comigo?”
Também podemos perguntar:
“O que está acontecendo dentro de
mim?”
Qual parte da minha vida está sob A
Lua?
O que A Morte está pedindo que eu
encerre?
Onde O Enforcado pede que eu pare de
forçar?
O que A Imperatriz deseja fazer
nascer?
Que instinto A Força está tentando
me ensinar a reconhecer?
Quando fazemos essas perguntas, o
Tarô deixa de ser apenas um instrumento de previsão.
Torna-se um espelho simbólico.
Uma linguagem para atravessar
processos.
A Mulher de Lama não é uma mulher
vencida
É importante compreender isso.
A Mulher de Lama está atravessando
uma provação.
Ela pode estar cansada.
Ferida.
Desorientada.
Pode já não conseguir sustentar a
mesma relação com o mundo.
Mas alguma coisa essencial continua
viva.
Ela não diz:
“Eu desisti de mim.”
Ela diz:
“Eu já não preciso parecer intacta
para continuar inteira em algum lugar profundo.”
Essa frase poderia atravessar vários
Arcanos.
A Lua responderia:
Entre no mistério.
A Morte diria:
Deixe terminar.
O Enforcado pediria:
Não force a resposta.
A Imperatriz lembraria:
Ainda existe vida sendo gestada.
E A Força acrescentaria:
Não abandone seu instinto.
Qual Arcano acompanha sua travessia?
Talvez você esteja vivendo uma fase
de barro.
Um momento em que antigas formas já
não funcionam e as novas ainda não estão completamente prontas.
Pergunte a si mesma:
Estou na Lua, tentando compreender
aquilo que ainda está oculto?
Estou diante da Morte, resistindo ao
encerramento de um ciclo?
Estou vivendo o Enforcado,
precisando parar de tentar controlar tudo?
Existe uma Imperatriz dentro de mim
preparando algo novo?
Ou a Força está me ensinando a
recuperar meu instinto e meus limites?
Não existe uma única resposta.
Podemos atravessar mais de um desses
Arcanos ao mesmo tempo.
Porque a transformação não acontece
em linha reta.
Ela se move em ciclos.
Deusas do Barro
As Deusas do Barro não são mulheres
perfeitas.
Não vivem sobre pedestais.
Não estão sempre iluminadas,
equilibradas e certas sobre o caminho que devem seguir.
Elas conhecem a terra.
Conhecem as marcas.
Conhecem a noite.
Conhecem os momentos em que é
necessário interromper.
Conhecem a dor dos encerramentos.
Mas também conhecem a potência da
matéria que ainda pode ser transformada.
Talvez seja isso que a Mulher de
Lama e os Arcanos possam nos ensinar juntos:
nem sempre estamos perdidas quando a
antiga forma desaparece.
Às vezes estamos apenas entrando
profundamente na matéria da nossa própria vida.
E talvez voltar para si não aconteça
quando conseguimos finalmente deixar tudo perfeito.
Talvez comece quando paramos de ter
medo de sujar as mãos e temos coragem de tocar novamente a terra de onde
viemos.
Nossa próxima roda, inscrições abertas!
No dia 7 de Novembro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:
La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.
Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.
Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
07de Novembro
15h30
Google Meet - se inscreva, somente pelo whatsApp 31-99122-3190.
Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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