O que Clarissa quer dizer com “mística da participação”?
No capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés fala sobre algo que acontece quando realmente entramos em uma história.
Ela diz que, por alguns momentos, podemos deixar de observar aquela narrativa apenas “de fora” e passar a vivê-la emocionalmente por dentro. Sentimos o medo da personagem, sua angústia, sua coragem, sua perda, sua esperança.
É nesse contexto que ela menciona a chamada “mística da participação”.
A expressão vem do antropólogo francês Lucien Lévy-Bruhl e depois foi utilizada por Carl Jung. De forma simples, ela descreve momentos em que a separação entre “eu” e aquilo que estou observando fica temporariamente menos rígida.
Isso não significa perder a identidade ou deixar de saber quem somos.
Significa conseguir, por alguns instantes, entrar na experiência de outra pessoa, personagem ou realidade simbólica.
Podemos pensar em algo parecido com o que acontece durante uma escuta verdadeiramente empática.
Quando alguém nos conta uma experiência dolorosa, podemos ouvi-la apenas a partir de nós mesmas:
“Eu não reagiria assim.”
“Isso não é tão grave.”
“Ela deveria fazer outra coisa.”
Mas também podemos suspender um pouco nosso próprio ponto de vista e tentar compreender:
“Como essa experiência está sendo vivida por essa pessoa?”
Isso não significa concordar com tudo o que ela pensa ou sente. Significa conseguir sair, temporariamente, do centro da própria perspectiva para visitar a experiência do outro.
Com uma história acontece algo semelhante.
Sabemos que não somos a personagem, mas podemos nos reconhecer em alguma parte daquilo que ela vive.
Uma história sobre perda pode nos aproximar das nossas próprias perdas.
Uma história sobre medo pode nos fazer reconhecer nossos medos.
Uma história sobre resistência pode despertar em nós lembranças de momentos em que também precisamos continuar.
Depois, voltamos para nossa própria realidade.
Mas podemos voltar levando alguma compreensão nova.
É justamente esse movimento que Clarissa descreve quando fala da capacidade da mente de se afastar temporariamente do ego, entrar em outra realidade e depois retornar trazendo algo aprendido.
Mas por que Clarissa cita Lévy-Bruhl?
Aqui existe um detalhe importante.
Na nota do capítulo, Clarissa explica que Jung utilizou esse conceito a partir de ideias antropológicas do final do século XIX e início do século XX.
Naquela época, muitos estudiosos observavam povos tribais como se eles fossem muito diferentes do restante da humanidade, quase como se pertencessem a outro tipo de funcionamento psicológico.
Clarissa faz uma crítica a essa separação.
Ela lembra que esse tipo de experiência faz parte de uma continuidade humana e pode ocorrer “em qualquer lugar e com qualquer um”.
Ou seja, ela preserva a ideia da participação psíquica, mas rejeita a noção de que ela pertença apenas a povos considerados “primitivos”.
Essa capacidade é humana.
Podemos vivê-la quando ouvimos uma história, quando assistimos a um filme, quando lemos um livro ou quando escutamos profundamente a experiência de alguém.
Talvez por isso algumas histórias nos acompanhem por tanto tempo.
Elas não apenas nos contam alguma coisa.
Por alguns instantes, elas nos permitem experimentar alguma coisa.
E, quando voltamos para nós mesmas, talvez já não estejamos exatamente no mesmo lugar de antes.
Para refletir!
Você já terminou um livro, um filme ou uma conversa sentindo que compreendeu alguma coisa sobre si mesma que ninguém havia explicado diretamente para você?
Talvez seja justamente aí que uma história deixa de ser apenas uma história e começa a trabalhar dentro de nós.
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