terça-feira, 8 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muen Botoke Parte 2 - Capítulo 12!

 

Os mortos que ainda alimentamos: relações que terminaram, mas continuam ocupando nossa energia!

Algumas pessoas saem da nossa vida.

Mas não saem de dentro de nós.

O relacionamento terminou há anos, a amizade acabou, o afastamento aconteceu e a pessoa seguiu o caminho dela.

Mesmo assim, continuamos conversando mentalmente com ela.

Explicamos aquilo que nunca conseguimos explicar.

Respondemos às frases que nos feriram.

Imaginamos o pedido de desculpas que gostaríamos de receber.

Fantasiamos o dia em que aquela pessoa finalmente perceberá que estava errada.

E, sem perceber, continuamos oferecendo nossa energia a uma relação que já não existe.

Talvez existam mortos emocionais que ainda alimentamos.

Uma relação pode terminar sem que o vínculo termine!

Existe uma diferença entre uma relação acabar e um vínculo emocional ser encerrado.

Uma relação pode terminar numa quinta-feira qualquer.

Uma conversa.

Uma separação.

Uma despedida.

Uma porta fechada.

Mas o vínculo pode permanecer durante meses ou anos.

Porque o vínculo não depende apenas da presença do outro.

Ele também vive dentro de nós.

Vive naquilo que esperamos.

Naquilo que não compreendemos.

Naquilo que gostaríamos que tivesse acontecido.

Naquilo que ainda queremos cobrar.

Por isso, algumas pessoas permanecem profundamente presentes mesmo estando completamente ausentes.

O ressentimento também é uma forma de vínculo!

Quando pensamos em vínculo, normalmente imaginamos amor, carinho ou saudade.

Mas a raiva também une.

O ressentimento também mantém uma ligação.

Enquanto pensamos:

“Um dia ele vai pagar pelo que fez.”

“Ela precisava reconhecer o quanto me machucou.”

“Eu nunca vou esquecer aquilo.”

“Queria que essa pessoa sentisse o que eu senti.”

A história continua aberta.

O outro pode nem pensar mais em nós, mas continua ocupando um espaço emocional dentro da nossa vida.

É uma constatação desconfortável:

às vezes, odiar alguém nos mantém tão presos quanto amar.

Quantas vezes ainda visitamos aquilo que já morreu?

Existe uma imagem interessante relacionada ao termo japonês muen-botoke.

Tradicionalmente, a expressão está ligada aos mortos que não possuem vínculos familiares ou pessoas que cuidem de sua memória e de seus túmulos.

Não é originalmente uma filosofia sobre relacionamentos.

Mas podemos utilizar essa imagem como uma metáfora para observar nossa própria vida.

Há relações que morreram e mesmo assim, continuamos visitando seus túmulos emocionais.

Levamos flores em forma de pensamentos.

Acendemos velas em forma de lembranças repetidas.

Conversamos novamente com episódios que já aconteceram.

Voltamos ao mesmo lugar mental esperando que, desta vez, o passado responda de outra maneira.

Mas ele nunca responde.

“Por quê?” é uma pergunta que pode não ter fim!

Uma das maneiras mais comuns de permanecermos presos a uma história é continuar perguntando:

“Por que ele fez isso?”

“Por que ela não me escolheu?”

“Por que meu pai nunca conseguiu demonstrar carinho?”

“Por que minha mãe agiu daquela forma?”

“Por que aquela pessoa me traiu?”

“Por que não reconheceram o que fizeram comigo?”

Algumas dessas perguntas possuem respostas.

Outras nunca terão.

E existe um momento em que a busca pela explicação deixa de produzir compreensão e passa apenas a prolongar o sofrimento.

Talvez a pergunta precise mudar.

Em vez de:

“Por que fizeram isso comigo?”

podemos perguntar:

“O que eu preciso fazer agora para que isso deixe de determinar minha vida?”

Essa mudança é enorme.

Porque devolve para nós aquilo que estava nas mãos do outro.

Às vezes, queremos justiça quando o que precisamos é liberdade!

É natural desejar reparação.

Quando somos feridos, existe dentro de nós uma espécie de contador emocional.

Ele registra:

o que demos,

o que recebemos,

o que perdemos,

o que nos fizeram,

o que nunca foi reconhecido.

Então esperamos algum tipo de pagamento.

Um pedido de desculpas.

Uma explicação.

Um arrependimento.

Uma mudança.

Ou simplesmente que a vida cobre daquela pessoa aquilo que ela nos fez.

Mas há um problema.

Enquanto esperamos o pagamento, continuamos sendo credores daquela história.

A dívida permanece aberta.

E uma dívida aberta mantém duas pessoas conectadas.

Talvez o perdão comece justamente quando dizemos:

“Você não precisa mais me pagar para que eu possa seguir.”

Isso não significa dizer que o que aconteceu foi correto.

Significa apenas que nossa liberdade não dependerá mais da consciência do outro.

Perdoar não é convidar alguém novamente para nossa mesa!

Existe uma enorme confusão sobre o perdão.

Perdoar não significa necessariamente reconciliar.

Não significa voltar.

Não significa confiar novamente.

Não significa permitir outro abuso.

Não significa esquecer os limites que aprendemos a estabelecer.

É perfeitamente possível perdoar alguém e nunca mais permitir que essa pessoa tenha o mesmo acesso à nossa vida.

Algumas portas podem ser fechadas sem ódio.

Algumas relações podem terminar sem vingança.

Algumas pessoas podem ser perdoadas à distância.

O perdão não precisa devolver a pessoa para a nossa vida.

Talvez ele sirva justamente para retirá-la de dentro de nós.

Existem conversas que precisamos parar de ter!

Você já percebeu quantas discussões acontecem apenas dentro da nossa cabeça?

Enquanto dirigimos.

Enquanto tomamos banho.

Antes de dormir.

No meio de uma tarefa qualquer.

De repente estamos novamente naquela conversa.

Dizendo aquilo que deveríamos ter dito.

Provando nosso ponto.

Mostrando ao outro como ele estava errado.

Vencendo uma discussão que aconteceu cinco anos atrás.

É uma forma silenciosa de permanência.

A pessoa não está presente.

Mas nossa mente continua convocando-a.

Talvez uma das formas mais concretas de desapego seja perceber:

“Eu não preciso continuar essa conversa.”

E interrompê-la.

Não violentamente.

Apenas escolhendo não oferecer mais energia para aquela cena.

A rotina mostra onde ainda estamos presos!

O desapego não acontece apenas em grandes cerimônias ou profundas reflexões.

Ele aparece nas pequenas escolhas.

Quando o nome da pessoa surge e você não precisa contar novamente toda a história.

Quando alguém pergunta sobre o passado e você consegue responder sem reviver tudo emocionalmente.

Quando você percebe uma lembrança surgindo e não passa os quarenta minutos seguintes reconstruindo mentalmente aquele episódio.

Quando deixa de olhar as redes sociais da pessoa.

Quando para de perguntar aos amigos como ela está.

Quando não precisa saber se ela se arrependeu.

Quando percebe que já não sente necessidade de provar que venceu.

Esses pequenos movimentos são sinais de que uma história está finalmente ocupando o lugar ao qual pertence:

o passado.

Algumas histórias não precisam de um final perfeito!

Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja que nem todas as histórias terminam de maneira satisfatória.

Algumas pessoas nunca pedirão desculpas.

Algumas nunca reconhecerão o dano que causaram.

Alguns relacionamentos terminarão sem aquela última conversa esclarecedora.

Algumas perguntas continuarão sem resposta.

Algumas injustiças permanecerão injustas.

E ainda assim podemos seguir.

Porque encerramento não é algo que necessariamente recebemos do outro.

Às vezes, somos nós que precisamos produzi-lo.

Um pequeno exercício!

Pense em alguém que não participa mais da sua vida, mas que ainda aparece frequentemente nos seus pensamentos.

Agora pergunte a si mesmo:

O que ainda espero dessa pessoa?

Um pedido de desculpas?

Reconhecimento?

Arrependimento?

Explicação?

Justiça?

Que ela volte?

Que perceba o que perdeu?

Depois pergunte:

E se isso nunca acontecer?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Porque é justamente aí que encontramos aquilo que ainda nos prende.

E então podemos fazer uma última pergunta:

Posso construir minha paz mesmo sem receber isso?

Não precisamos responder imediatamente.

Mas talvez seja por aí que o desapego comece.

Deixe os mortos descansarem!

Algumas relações foram maravilhosas enquanto existiram.

Outras nos machucaram profundamente.

Algumas nos ensinaram.

Algumas nos quebraram.

Algumas nos obrigaram a descobrir partes de nós mesmos que jamais conheceríamos de outra maneira.

Todas podem fazer parte da nossa história.

Mas fazer parte da nossa história é diferente de continuar comandando nosso presente.

Talvez existam pessoas que já partiram da nossa vida e que ainda estamos tentando manter emocionalmente vivas.

Talvez seja hora de agradecer pelo que houve.

Chorar pelo que não houve.

Aprender o que precisava ser aprendido.

Devolver ao outro aquilo que pertence a ele.

E recolher de volta aquilo que é nosso.

Nossa atenção.

Nossa energia.

Nosso presente.

Nossa capacidade de amar novamente.

Nossa paz.

Eu não preciso mais carregar você comigo.

E talvez uma das formas mais profundas de liberdade seja conseguir olhar para aquilo que um dia nos feriu e dizer:

Existem histórias que não precisam ser apagadas.

Precisam apenas descansar.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!


🌿 Com carinho,

#MuenBotoke #mulheresquecorremcomoslobos #clarissapinkolaestés #capitulo12 #oursodameialua  #Perdão #Autoconhecimento #Relacionamentos #CuraEmocional #LibertaçãoEmocional #ressentimento #Reflexão #Ressignificação #BethCastrotaróloga #literaturaemocional #rodademulheressabiasefortes #reflexão #bhtarot #bethcastroterapias #rodadeconversavirtual #rodavirtual #rodademulheres #mulherajudamulher #mulherinteligente #forçafeminina #psicologiaarquetípica #vivênciastransformadoras #mulherselvagem #desapego #encerramentodeciclo #espiritualidade #pazinterior 


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muen Botoke - Capítulo 12!


 

Muen-botoke: quando uma relação termina, mas continua vivendo dentro de nós!

Existem relações que acabam por fora, mas permanecem vivas por dentro.

A pessoa já foi embora. O casamento terminou. A amizade se rompeu. Os caminhos se separaram. Às vezes, nem existe mais contato.

Mesmo assim, aquela relação continua recebendo nossa atenção.

Voltamos mentalmente às conversas. Recriamos discussões. Imaginamos o que deveríamos ter dito. Esperamos um pedido de desculpas que talvez nunca venha. Tentamos compreender por que aquilo aconteceu.

É como se o vínculo tivesse terminado na realidade, mas ainda tivesse um lugar reservado dentro de nós.

Uma antiga expressão japonesa pode provocar uma reflexão interessante sobre isso: 

muen-botoke (無縁仏).

O que significa muen-botoke?

No Japão, muen-botoke é uma expressão tradicionalmente utilizada para se referir a pessoas que morreram sem familiares ou pessoas próximas que cuidassem de seu túmulo, realizassem ritos ou preservassem sua memória. Também pode se referir a mortos cuja identidade ou vínculos familiares são desconhecidos.

Portanto, não se trata originalmente de uma filosofia sobre relacionamentos ou de uma técnica de desapego.

Mas sua imagem pode nos oferecer uma poderosa metáfora.

Porque também existem relações que já morreram, mas que continuamos alimentando emocionalmente.

Quando continuamos cuidando do túmulo de uma relação!

Imagine uma mulher cujo relacionamento terminou há cinco anos.

Ela reconstruiu a vida. Não fala mais com o antigo parceiro. Talvez até esteja vivendo uma nova relação.

Mas, de tempos em tempos, volta ao passado.

“Por que ele fez aquilo comigo?”

“Será que algum dia percebeu o quanto me machucou?”

“Eu deveria ter falado tantas coisas.”

“Um dia ele ainda vai entender o que perdeu.”

O relacionamento acabou.

Mas emocionalmente ela continua visitando aquele lugar.

Continua levando flores para algo que já não existe.

Continua conversando com uma história que terminou.

E isso acontece não apenas nos relacionamentos amorosos.

Pode acontecer com uma amizade desfeita.

Com um conflito familiar.

Com alguém que nos traiu.

Com uma injustiça profissional.

Com um pai ou uma mãe que não nos deram aquilo que esperávamos.

Ou até com a versão de nós mesmos que gostaríamos de ter sido.

Nem todo vínculo precisa continuar sendo alimentado!

Há uma diferença importante entre lembrar e continuar vinculado.

Lembrar é reconhecer:

“Isso aconteceu comigo.”

Continuar vinculado é sentir:

“Isso ainda determina o que eu sinto, penso ou faço.”

Uma experiência pode continuar fazendo parte da nossa história sem continuar comandando nossa vida.

Talvez seja justamente aí que comece o desapego.

Não quando apagamos a memória.

Mas quando paramos de alimentá-la diariamente.

Perdoar também pode ser deixar de cobrar uma dívida!

Muitas vezes acreditamos que perdoar significa absolver alguém.

Não necessariamente.

Podemos reconhecer que alguém agiu mal e ainda assim decidir não carregar aquela pessoa emocionalmente conosco para sempre.

Perdoar pode significar deixar de esperar que o outro finalmente:

reconheça o erro,

peça desculpas,

sofra o mesmo que nos fez sofrer,

entenda nossa dor,

ou devolva alguma coisa que sentimos ter perdido.

Porque, enquanto esperamos esse pagamento, a dívida continua aberta.

E toda dívida emocional aberta mantém algum tipo de vínculo.

Às vezes, libertar-se significa simplesmente dizer internamente:

“O que aconteceu não muda. Mas eu não quero mais organizar minha vida ao redor disso.”

Deixar ir não significa dizer que não foi importante!

Existe também um medo silencioso por trás do desapego.

Se eu deixar isso ir, será que estou dizendo que não foi grave?

Se eu parar de sentir raiva, será que estou dando razão ao outro?

Se eu seguir em frente, será que estou diminuindo aquilo que vivi?

Não.

Deixar ir não altera o passado.

Apenas modifica o lugar que o passado ocupa dentro de nós.

Podemos dizer:

“Foi importante.”

“Doeu.”

“Foi injusto.”

“Eu aprendi.”

“Eu não quero viver isso novamente.”

E, ainda assim:

“Eu escolho não carregar mais.”

Talvez existam túmulos emocionais dentro de nós!

Algumas histórias precisam ser lembradas.

Outras precisam ser compreendidas.

Algumas precisam ser choradas.

Mas talvez existam aquelas que simplesmente precisam descansar.

Não porque foram insignificantes.

Mas porque já cumpriram seu tempo em nossa vida.

Talvez possamos olhar para determinados vínculos e perguntar:

Essa relação ainda existe ou sou eu quem continua mantendo viva a relação dentro de mim?

Existe algo que continuo esperando dessa pessoa?

Estou preservando uma lembrança ou alimentando uma ferida?

O que aconteceria se eu parasse de visitar emocionalmente essa história?

Há momentos em que a verdadeira despedida não acontece quando alguém vai embora.

Ela acontece muito depois.

Quando finalmente deixamos de conversar mentalmente com quem já partiu da nossa vida.

Quando paramos de esperar respostas.

Quando deixamos de cobrar dívidas emocionais.

Quando retiramos nossa energia daquele lugar.

E permitimos que algumas histórias, finalmente, descansem.

Não precisamos destruir o passado.

Talvez precisemos apenas parar de morar nele.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
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Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

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domingo, 6 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Brauron -Capítulo 12!

 


Ártemis e as “ursinhas” de Brauron: quando o urso marca uma passagem na vida feminina!

Existe uma ligação muito antiga e bonita entre Ártemis, o feminino e a figura do urso. Na Grécia Antiga, no santuário de Ártemis em Brauron, na região da Ática, meninas participavam de um rito conhecido como Arkteia. Durante essa experiência, elas eram chamadas de arktoi, palavra que significa “ursinhas”.

Ártemis era a deusa da caça, da natureza selvagem e dos animais, mas também estava ligada à proteção das meninas, das mulheres e às importantes transições da vida feminina. Por isso, é interessante perceber que justamente o urso, um animal forte, selvagem e protetor, aparece associado a um ritual realizado por meninas que estavam deixando a infância e se preparando simbolicamente para uma nova fase da vida.

Na Arkteia, as meninas eram colocadas sob a proteção de Ártemis e participavam de atividades rituais ligadas ao culto da deusa. A tradição fala das jovens vestindo túnicas em tons de açafrão e sendo representadas em movimentos, corridas e cerimônias que evocavam sua condição de arktoi. A ideia central era marcar uma passagem: a menina não permaneceria para sempre na infância; alguma coisa estava se transformando.

E talvez seja justamente essa imagem que mais nos interessa psicologicamente.

Antes de entrar numa nova etapa, era necessário reconhecer que uma fase estava terminando.

Hoje atravessamos muitas mudanças sem qualquer ritual. Crescemos, menstruamos, nos casamos ou nos separamos, tornamo-nos mães, vemos os filhos saírem de casa, mudamos de profissão, atravessamos a menopausa, envelhecemos, perdemos pessoas e começamos novamente. Muitas vezes simplesmente seguimos adiante.

Para os antigos, porém, algumas dessas passagens eram importantes demais para acontecer silenciosamente.

Era preciso marcar:

“Até aqui eu era uma coisa. Agora alguma coisa em mim está mudando.”

Por que “ursinhas”?

A imagem é especialmente significativa porque o urso pertence ao mundo selvagem de Ártemis.

Podemos pensar simbolicamente naquela menina que ainda guarda algo de espontâneo, indomado e instintivo. Ela corre, brinca, explora, reage. Aos poucos, precisará aprender a viver dentro de uma comunidade, conhecer responsabilidades e atravessar novas experiências.

Mas isso não significa necessariamente destruir sua natureza selvagem.

Talvez possamos compreender o ritual de outra maneira: é preciso aprender a integrar essa força.

A menina não deixa simplesmente de ser “ursa”. Ela leva consigo aquilo que aprendeu com essa imagem: força, percepção, proteção e capacidade de reconhecer o próprio território.

E é impossível não lembrar aqui do Urso da Meia-Lua, de Clarissa Pinkola Estés.

Quando Clarissa associa o urso a Ártemis, essa ligação não surge do nada. Há uma tradição antiga na qual a própria relação entre a deusa e meninas passava simbolicamente pela figura da ursa.

Isso torna a referência no capítulo ainda mais interessante.

O urso de Clarissa também nos ensina sobre ciclos, força, proteção, limites e transformação.

O mito por trás da Arkteia

Há uma tradição mítica segundo a qual um urso vivia ligado ao santuário de Ártemis. Depois que o animal feriu uma menina, ele foi morto. A morte do animal sagrado teria provocado a ira da deusa e, para restaurar o equilíbrio, as meninas passaram a “servir como ursas” antes de uma importante transição de suas vidas.

Como acontece frequentemente nos mitos antigos, existem diferentes versões e interpretações dessa narrativa. Mas simbolicamente há uma ideia muito forte:

algo foi rompido e precisa ser restaurado.

A relação entre humanidade e natureza foi quebrada.

A força selvagem foi destruída.

E surge então um ritual para restabelecer essa ligação.

Essa imagem combina profundamente com a maneira como Clarissa trabalha o instinto feminino: quando perdemos contato com nossa natureza instintiva, precisamos encontrar um caminho de volta até ela.

Ser “ursa” antes de seguir adiante

Há algo muito bonito em imaginar essas meninas sendo chamadas de ursinhas.

Antes da próxima etapa, havia um momento para reconhecer aquela força.

Como se a cultura dissesse:

“Você está mudando. Seu corpo vai mudar. Sua vida vai mudar. Mas existe uma força dentro de você que precisa acompanhá-la.”

É exatamente por isso que considero tão interessante a presença de Ártemis no capítulo O Urso da Meia-Lua.

Clarissa fala de mulheres que precisam novamente aprender a rastrear, perceber, reconhecer limites e confiar nos próprios sinais internos.

Ártemis é a caçadora.

A caçadora observa.

Percebe rastros.

Conhece o território.

E sabe que não pode caminhar pela floresta completamente desconectada de seus sentidos.

Da mesma maneira, psicologicamente, precisamos aprender a perceber:

“O que estou sentindo?”

“O que mudou aqui?”

“Onde está meu limite?”

“O que precisa ser protegido?”

“Para qual nova etapa da minha vida estou sendo chamada?”

Talvez ainda precisemos de ritos de passagem

É possível que uma das perdas do nosso tempo seja justamente a ausência de rituais para algumas grandes transformações.

Há momentos em que uma versão nossa termina e outra começa, mas ninguém para para reconhecer essa passagem.

Talvez por isso tantas mudanças importantes tragam uma sensação estranha de desorientação.

Terminamos uma etapa, mas emocionalmente ainda não nos despedimos dela.

Começamos outra, mas ainda não reconhecemos quem estamos nos tornando.

Os antigos ritos nos lembram de algo muito simples:

transformações precisam ser reconhecidas.

Às vezes precisamos olhar para nós mesmas e dizer:

“Uma fase terminou.”

“Eu não sou mais exatamente aquela mulher.”

“Alguma coisa nova está começando.”

E talvez seja justamente aí que a antiga imagem da ursa volte a fazer sentido.

A ursa conhece os ciclos.

Sabe quando caminhar.

Sabe quando proteger.

Sabe quando se recolher.

E, depois do recolhimento, volta novamente para a vida.

Talvez esse seja um dos ensinamentos que podemos levar tanto de Ártemis quanto do Urso da Meia-Lua:

crescer não precisa significar abandonar nossa natureza instintiva. Talvez amadurecer seja aprender a caminhar com ela.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
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Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

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sábado, 5 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Shotoku Taishi - Capítulo 12!

 


Shotoku Taishi e a Raiva como Mestra: por que Clarissa Pinkola Estés o cita em O Urso da Meia-Lua?

O que um príncipe japonês ligado ao budismo pode nos ensinar sobre a maneira como lidamos com nossas emoções?

Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés costuma fazer algo muito interessante: ela não utiliza mitos, personagens históricos e tradições espirituais apenas para contar histórias. Ela os aproxima da vida psicológica e transforma essas referências em caminhos para compreendermos melhor aquilo que acontece dentro de nós.

No capítulo 12, O Urso da Meia-Lua, dedicado à raiva, aos limites e ao perdão, aparece rapidamente o nome de Shotoku Taishi. A referência é pequena, mas ajuda a compreender uma das ideias centrais dessa parte do livro: a raiva não precisa ser imediatamente rejeitada; primeiro podemos tentar compreender o que ela está nos mostrando.

Clarissa apresenta Shotoku Taishi como um príncipe-filósofo japonês e afirma que ele ensinava que o trabalho psíquico deveria acontecer tanto no mundo interior quanto no exterior. Em seguida, destaca a ideia de tolerância em relação aos seres humanos, aos animais e também às emoções. É justamente a partir daí que ela desenvolve sua reflexão sobre a raiva como uma emoção que também pode conter conhecimento.

Mas quem foi Shotoku Taishi? E por que Clarissa o coloca justamente aqui?

Quem foi Shotoku Taishi?

Prince Shōtoku, ou Shotoku Taishi, viveu entre 574 e 622, em um período importante de transformação política, cultural e religiosa no Japão. Era sobrinho da imperatriz Suiko e tornou-se uma figura central da corte japonesa. Fontes históricas e a tradição posterior o associaram fortemente à expansão do budismo no Japão, à construção de templos, à diplomacia com o continente asiático e à organização do Estado.

Ele também é tradicionalmente associado à chamada Constituição dos Dezessete Artigos, um antigo conjunto de princípios voltados à conduta daqueles que participavam do governo. A figura de Shotoku, porém, foi sendo ampliada e idealizada ao longo dos séculos, tornando-se também objeto de veneração religiosa. Por isso, atualmente os estudiosos distinguem o Shotoku histórico do personagem extraordinário construído posteriormente pela tradição.

Isso é importante porque Clarissa não está escrevendo uma biografia histórica de Shotoku. Ela está recorrendo à imagem de sabedoria associada a ele para introduzir uma reflexão psicológica.

Por que Clarissa o cita em um capítulo sobre raiva?

Porque antes de ensinar o que fazer com a raiva, Clarissa nos convida a mudar nossa relação com ela.

Normalmente, quando sentimos uma emoção considerada desagradável, pensamos imediatamente:

“Preciso me livrar disso.”

Sentimos raiva e queremos parar de sentir.

Sentimos medo e queremos expulsá-lo.

Sentimos tristeza e queremos que passe rapidamente.

Mas a proposta de Clarissa é diferente.

Antes de eliminar uma emoção, talvez seja necessário tolerar sua presença por algum tempo para descobrir o que ela está tentando nos mostrar.

É nesse contexto que Shotoku Taishi aparece.

A ideia de tolerância não significa gostar da raiva, alimentar a raiva ou permitir que ela determine nossas atitudes.

Significa conseguir dizer:

“Estou com raiva. Não preciso negar isso. Agora preciso compreender por quê.”

Tolerar não significa obedecer

Essa diferença é fundamental.

Reconhecer uma emoção não significa obedecer automaticamente a ela.

Posso sentir vontade de gritar e escolher não gritar.

Posso sentir vontade de responder imediatamente e decidir esperar.

Posso estar profundamente irritada e ainda assim perguntar:

“O que aconteceu comigo aqui?”

Talvez a raiva esteja mostrando que fui desrespeitada.

Talvez um limite tenha sido ultrapassado.

Talvez eu esteja cansada de aceitar determinada situação.

Talvez aquela pessoa tenha tocado numa ferida muito antiga.

Ou talvez eu tenha interpretado uma situação de maneira equivocada.

Só conseguirei descobrir se conseguir permanecer diante da emoção por tempo suficiente para observá-la.

Por isso, existe uma diferença muito grande entre:

acolher a raiva e ser comandada pela raiva.

A raiva pode iluminar

Logo depois de mencionar Shotoku, Clarissa diz que mesmo emoções confusas possuem energia e que podemos utilizar a luz da raiva para iluminar lugares que normalmente não conseguimos enxergar.

Essa imagem é muito bonita.

Imagine alguém que fica profundamente irritado porque o companheiro se atrasou novamente.

À primeira vista:

“Estou com raiva porque ele se atrasou.”

Mas, quando essa pessoa consegue permanecer um pouco mais com aquilo que sente, pode descobrir:

“Na verdade, o atraso desperta em mim uma sensação de que meu tempo não é respeitado.”

Mais profundamente ainda:

“Percebo que tenho muita dificuldade quando sinto que não sou considerada.”

A raiva começou falando sobre atraso.

Mas acabou iluminando respeito, consideração e necessidade de reciprocidade.

A emoção funcionou como uma espécie de lanterna.

Nem expulsar, nem alimentar: escutar

Talvez essa seja uma das maiores contribuições dessa passagem.

Existe um caminho entre reprimir e explodir.

Se reprimimos:

“Não deveria sentir isso.”

Se descarregamos:

“Estou sentindo isso, então tenho direito de fazer qualquer coisa.”

Clarissa nos apresenta uma terceira possibilidade:

“Estou sentindo isso. Vou descobrir o que significa antes de decidir o que fazer.”

É aí que a raiva começa a se tornar mestra.

Não porque ela esteja sempre certa.

Não porque toda interpretação que fazemos quando estamos com raiva seja verdadeira.

Mas porque sua presença pode indicar que existe alguma coisa que merece nossa atenção.

A emoção pode ser verdadeira sem que nossa interpretação seja

Esse ponto é especialmente importante.

Podemos sentir uma emoção verdadeira e chegar a uma conclusão equivocada.

Por exemplo:

“Estou com medo, então certamente existe perigo.”

O medo é verdadeiro.

O perigo precisa ser verificado.

Da mesma forma:

“Estou com raiva, então essa pessoa certamente quis me humilhar.”

A raiva é verdadeira.

A intenção da outra pessoa ainda precisa ser compreendida.

Por isso, acolher uma emoção não significa transformá-la automaticamente em verdade absoluta.

Talvez seja justamente aí que entra a sabedoria proposta por essa passagem: dar espaço ao sentimento sem entregar imediatamente a ele o comando da nossa interpretação e das nossas ações.

O trabalho interior precisa chegar ao mundo exterior

Há ainda outro aspecto da forma como Clarissa apresenta Shotoku que considero muito importante: o trabalho psíquico deve ocorrer tanto dentro quanto fora de nós.

Não adianta descobrir:

“Percebi que não gosto quando ultrapassam meu limite.”

e continuar permitindo exatamente a mesma coisa.

Também não adianta compreender:

“Minha raiva aparece porque tenho dificuldade de dizer não.”

e permanecer dizendo sim para tudo.

O conhecimento interior precisa, em algum momento, produzir alguma mudança exterior.

Talvez uma conversa.

Um limite.

Uma escolha.

Uma mudança de comportamento.

Um pedido de ajuda.

Ou simplesmente uma nova maneira de responder.

Esse movimento atravessa todo O Urso da Meia-Lua: compreender para depois praticar.

A raiva como visitante, não como dona da casa

Talvez possamos imaginar a raiva como uma visitante.

Quando ela chega, podemos expulsá-la imediatamente.

Podemos deixá-la entrar e permitir que destrua a casa inteira.

Ou podemos recebê-la e perguntar:

“Por que você veio?”

Talvez ela diga:

“Porque você está se desrespeitando.”

“Porque alguém atravessou seu limite.”

“Porque existe uma dor antiga aqui.”

“Porque você está cansada.”

“Porque alguma coisa precisa mudar.”

Depois de ouvir, não precisamos permitir que ela permaneça para sempre.

Podemos agradecer a informação e decidir conscientemente o que fazer com aquilo que descobrimos.

É uma imagem muito próxima do movimento que Clarissa desenvolve ao longo do capítulo.

Tolerância emocional não é passividade

É importante não confundir essa proposta com aceitar tudo silenciosamente.

Tolerar uma emoção significa suportar sua presença dentro de nós sem precisar reagir imediatamente.

Não significa tolerar abuso.

Não significa aceitar desrespeito.

Não significa permanecer em relações que nos fazem mal.

Na realidade, quanto melhor conseguimos escutar nossas emoções, maior pode ser nossa capacidade de reconhecer aquilo que precisa de limite.

A raiva pode dizer:

“Até aqui.”

A consciência decide como dizer isso.

Essa diferença muda tudo.

O que Shotoku acrescenta ao Urso da Meia-Lua?

Mesmo aparecendo rapidamente no capítulo, Shotoku Taishi ajuda Clarissa a preparar o terreno para toda a jornada que virá depois.

Primeiro:

não rejeite imediatamente aquilo que sente.

Depois:

observe.

Em seguida:

procure compreender.

E finalmente:

decida o que fazer com aquilo que descobriu.

Mais adiante, encontraremos a curandeira, a montanha, o urso e o fogo transformador. Mas antes de tudo isso existe uma condição necessária:

estar disposta a olhar para a emoção.

Talvez seja por isso que Shotoku aparece justamente antes de Clarissa afirmar que a raiva pode ser nossa mestra.

Para aprender alguma coisa com uma emoção, precisamos primeiro permitir que ela permaneça diante de nós tempo suficiente para ser escutada.

Uma reflexão para levar conosco!

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Como faço para nunca mais sentir raiva?”

Talvez seja:

“Quando a raiva chegar, conseguirei escutá-la antes de decidir o que fazer com ela?”

Porque maturidade emocional não significa viver sem emoções difíceis.

Significa desenvolver espaço suficiente entre sentir e agir para que alguma consciência possa entrar ali.

E talvez seja justamente nesse pequeno espaço que começa aquilo que Clarissa chama de transformação.

Tolerar a raiva não significa permitir que ela governe nossa vida. Significa permitir que ela fale antes de decidirmos o que fazer com aquilo que ouvimos.

Nota: Shotoku Taishi é uma figura histórica envolvida também por séculos de tradição religiosa e relatos idealizados. A ideia de que ele ensinava um “trabalho psíquico” com todas as emoções é apresentada por Clarissa Pinkola Estés dentro de sua leitura de O Urso da Meia-Lua. Este texto diferencia essa interpretação psicológica da autora das informações históricas disponíveis sobre o príncipe.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!

🌿 Com carinho,

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