Nigredo, Rubedo e Albedo: por que a
transformação não acontece em linha reta!
Você já teve a sensação de
finalmente ter superado uma fase difícil e, algum tempo depois, perceber-se
novamente em meio à dúvida, ao vazio ou à sensação de estar começando tudo
outra vez?
Talvez uma das grandes frustrações
dos processos de transformação seja justamente essa: acreditamos que, depois de
compreender alguma coisa, não deveríamos mais voltar a lugares escuros.
Mas a psique não funciona em linha
reta.
E é justamente isso que Clarissa
Pinkola Estés nos mostra em um dos momentos mais interessantes de A Donzela
sem Mãos, no capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos.
Ao explicar a jornada da Donzela,
Clarissa recorre à linguagem da alquimia e fala de três movimentos: nigredo,
rubedo e albedo.
À primeira vista, podem parecer
palavras difíceis e distantes da nossa realidade.
Mas quando compreendemos o que
simbolizam, percebemos que estamos falando de experiências profundamente
humanas.
Estamos falando de perder.
Atravessar.
Compreender.
Renascer.
E, algumas vezes, precisar descer
novamente.
Nigredo: quando aquilo que
conhecíamos começa a se desfazer!
Nigredo significa, literalmente, algo
próximo de “enegrecimento”.
Na linguagem simbólica utilizada por
Clarissa, é o estágio escuro da dissolução.
É quando alguma forma antiga já não
consegue continuar existindo como antes.
Pode ser uma relação.
Uma identidade.
Uma profissão.
Uma crença.
Uma maneira de enxergar a própria
vida.
Ou aquela imagem que construímos de
quem deveríamos ser.
O nigredo costuma ser desconfortável
justamente porque ainda não conseguimos enxergar claramente aquilo que virá
depois.
Sabemos que alguma coisa terminou,
mas o novo ainda não apareceu.
É o território do:
“Não sei mais.”
“Não consigo voltar.”
“Não sei para onde estou indo.”
Por isso, muitas vezes interpretamos
o nigredo como fracasso.
Mas, simbolicamente, ele pode
representar outra coisa:
a dissolução de uma forma que já não
consegue sustentar aquilo que estamos nos tornando.
É como a terra escura onde uma
semente desaparece antes de começar a germinar.
Visto de fora, parece que nada está
acontecendo.
Por baixo da terra, entretanto, o
processo já começou.
Rubedo: aquilo que a transformação
nos pede para atravessar!
Clarissa associa o rubedo ao
vermelho e ao sacrifício.
E aqui é importante compreender a
palavra sacrifício sem transformá-la numa defesa do sofrimento.
Não se trata de dizer que precisamos
sofrer para evoluir.
No próprio capítulo, Clarissa é
cuidadosa ao não romantizar aquilo que fere uma pessoa.
O símbolo aponta para outra questão.
Transformações verdadeiras
frequentemente exigem que alguma coisa seja deixada para trás.
Há escolhas que possuem um preço
emocional.
Há verdades que, depois de
reconhecidas, não podem mais ser ignoradas.
Há limites que precisamos
estabelecer.
Há despedidas.
Há antigas versões de nós mesmas que
já não podem continuar governando nossa vida.
O rubedo é o momento em que a
transformação deixa de ser apenas uma ideia e passa a exigir participação.
É quando pensamos:
“Agora que sei disso, o que farei
com aquilo que descobri?”
É relativamente fácil ter uma
compreensão.
Muito mais difícil é reorganizar a
vida a partir dela.
Albedo: quando começa a surgir uma
nova consciência!
Depois da escuridão e da travessia,
aparece o albedo.
O branco.
O clareamento.
A nova vida.
É aquele momento em que alguma coisa
começa finalmente a fazer sentido.
Não significa necessariamente que
todos os problemas desapareceram.
Significa que já não estamos olhando
para eles exatamente do mesmo lugar.
Há uma compreensão nova.
Uma percepção diferente.
Talvez uma decisão.
Talvez apenas uma sensação muito
íntima:
“Agora eu entendo alguma coisa que
antes não conseguia entender.”
Na história da Donzela sem Mãos, o
branco aparece também nas gazes que envolvem seus braços.
Ela está ferida, mas está
caminhando.
Algo terminou.
Algo começou.
É uma imagem de renascimento.
E poderíamos imaginar que a história
seguiria daí para uma evolução constante: cada vez mais luz, mais compreensão,
mais segurança.
Mas Clarissa faz exatamente o
contrário.
A Donzela volta a entrar no nigredo.
E aqui está uma das partes mais
importantes!
Ela já passou pela escuridão.
Já atravessou o sacrifício.
Já experimentou o clareamento.
E, mesmo assim, entra novamente numa
região desconhecida.
Isso muda completamente a nossa
ideia de transformação.
Porque significa que voltar à
escuridão não necessariamente significa voltar ao início.
A Donzela que entra no segundo
nigredo já não é a mesma mulher que entrou no primeiro.
Ela leva consigo tudo aquilo que
viveu.
A consciência conquistada não
desapareceu.
O que acontece é que agora existe
uma camada mais profunda esperando para ser conhecida.
Talvez seja por isso que
determinadas situações pareçam se repetir na nossa vida.
Às vezes pensamos:
“Mas eu já não havia resolvido
isso?”
Talvez tenhamos resolvido uma parte.
Talvez tenhamos compreendido aquele
problema na profundidade que era possível naquele momento.
E agora a vida esteja apresentando
outra camada da mesma questão.
Não é necessariamente retrocesso.
Pode ser aprofundamento.
A transformação acontece em espiral!
Talvez uma imagem melhor do que uma
linha seja uma espiral.
Na linha, caminhamos de A para B e
nunca voltamos ao mesmo lugar.
Na espiral, passamos novamente por
lugares semelhantes, mas de uma posição diferente.
Encontramos novamente temas como
abandono, pertencimento, amor, medo, identidade, limites, coragem ou autonomia.
Mas já não somos exatamente a mesma
pessoa.
É por isso que uma questão que
enfrentamos aos vinte anos pode retornar aos quarenta ou aos sessenta.
O tema parece o mesmo.
A mulher que o encontra já mudou.
E a pergunta agora pode ser outra.
O Tarot também conhece esse
movimento!
Clarissa não faz essa associação
diretamente, mas podemos aproximar simbolicamente o movimento alquímico da
linguagem do Tarot.
O nigredo lembra aqueles
momentos representados por cartas como A Lua, A Torre ou A
Morte, quando nossas referências habituais deixam de ser suficientes e
somos obrigados a atravessar aquilo que ainda não compreendemos completamente.
O rubedo pode ser aproximado
das cartas que exigem participação consciente na travessia: A Força, O
Enforcado/O Pendurado e novamente A Morte, quando algo precisa ser entregue para
que outra forma de existência seja possível.
E o albedo encontra ecos em
imagens como A Estrela, quando depois da ruptura começa a surgir
novamente orientação, esperança e uma relação mais transparente conosco.
Mas nem o Tarot termina na Estrela.
Depois dela ainda existem A Lua,
O Sol, O Julgamento e O Mundo.
E, depois do Mundo, o Louco pode
iniciar outra viagem.
O próprio ciclo dos Arcanos nos
lembra:
chegar não significa parar de se
transformar.
Talvez você não esteja começando
tudo de novo!
Essa é uma das reflexões mais
importantes que a imagem alquímica pode nos oferecer.
Quando uma nova crise aparece depois
de um período de estabilidade, nossa primeira reação pode ser:
“Eu voltei para trás.”
Mas talvez não.
Talvez você esteja diante de um novo
nigredo.
Não porque aquilo que aprendeu tenha
sido perdido.
Mas porque existe uma parte de você
que agora está pronta para ir mais fundo.
Algumas transformações não acontecem
uma única vez.
Elas acontecem em camadas.
Primeiro perdemos uma certeza.
Depois descobrimos uma verdade.
Mais tarde percebemos que aquela
verdade também precisa amadurecer.
E assim seguimos.
Nigredo.
Rubedo.
Albedo.
E novamente a descida.
Não como uma condenação a sofrer.
Mas como uma lembrança de que estar
novamente no escuro não significa necessariamente estar perdida.
Às vezes a escuridão apenas anuncia
que nossos olhos precisarão aprender a enxergar de outra maneira.
Talvez a pergunta não seja:
“Por que estou passando por isso de
novo?”
Talvez seja:
“O que consigo compreender agora que
não conseguiria compreender da primeira vez?”
Porque a transformação profunda
raramente é uma estrada reta.
Ela se parece muito mais com uma
espiral.
E cada vez que voltamos a um ponto
conhecido, podemos descobrir que estamos olhando para ele com outros olhos.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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