Ártemis e Diana: a força feminina que rastreia, protege e sabe quando
agir!
Por que Clarissa Pinkola Estés aproxima essas deusas do Urso da
Meia-Lua?
No capítulo 12 de Mulheres que Correm com
os Lobos, Clarissa Pinkola Estés está falando de raiva, limites, instinto,
autocontrole e capacidade de transformação. Em determinado momento, ao explicar
“O Espírito do Urso”, ela associa o animal a antigas deusas caçadoras,
entre elas Ártemis, na tradição grega, e Diana, na tradição romana. A
autora afirma que essas figuras simbolicamente concedem às mulheres a
capacidade de “rastrear”, conhecer e buscar aquilo que está escondido nos
aspectos mais profundos da psique.
Essa referência não aparece por acaso. Quando
conhecemos melhor a história dessas deusas, percebemos que Clarissa escolheu
duas figuras ligadas justamente à natureza selvagem, à autonomia, à
proteção, aos ciclos femininos e à capacidade de reconhecer e defender um
território.
Quem é Ártemis?
Ártemis pertence à mitologia grega. É filha de
Zeus e Leto e irmã de Apolo. A tradição mais conhecida situa o
nascimento dos filhos de Leto na ilha de Delos. Ártemis tornou-se uma das
grandes divindades do panteão grego, associada principalmente à vida selvagem,
à caça, aos animais, às montanhas e à proteção de meninas e mulheres.
É importante perceber uma aparente contradição
que, simbolicamente, torna Ártemis ainda mais interessante.
Ela é uma deusa caçadora — carrega arco e
flechas, percorre florestas, vive livre e protege seu espaço. Mas também é
protetora de animais selvagens, de meninas e, em determinadas tradições, das
mulheres no parto.
Portanto, Ártemis reúne características que
nossa mente costuma separar:
ela pode caçar e proteger;
ser feroz e cuidadora;
ser independente e protetora;
impor limites e preservar a vida.
Essa ambivalência ajuda a compreender por que
Clarissa a aproxima do urso.
No próprio capítulo, a autora diz que a imagem
do urso ensina que podemos ser ferozes e generosas ao mesmo tempo,
defender nosso território e, ainda assim, continuar disponíveis e capazes de
vínculo.
Ártemis e a autonomia feminina!
Ártemis também representa uma mulher que não
organiza sua existência em função de um parceiro masculino. Nos mitos,
permanece virgem — mas “virgem”, nesse contexto simbólico, não precisa ser lido
apenas no sentido sexual moderno.
Em leituras arquetípicas posteriores, essa
característica passou a representar uma mulher que pertence a si mesma.
Ela sabe onde quer ir.
Possui direção.
Não precisa necessariamente da aprovação do
outro para reconhecer o próprio caminho.
Sua imagem de caçadora reforça essa ideia:
para atingir um alvo, é preciso vê-lo, concentrar-se e direcionar a flecha.
Psicologicamente, podemos fazer uma
aproximação com a capacidade de perguntar:
O que quero?
O que estou percebendo?
Para onde minha energia está sendo direcionada?
O que precisa ser protegido?
É muito semelhante à ideia de “rastrear” a
própria vida psíquica utilizada por Clarissa.
O urso de Ártemis!
Existe uma ligação histórica particularmente
interessante entre Ártemis e o urso.
No santuário de Ártemis em Brauron, na
Ática, meninas participavam de rituais nos quais eram chamadas de arktoi —
“ursinhas”. O ritual fazia parte das transições relacionadas à infância
feminina e à futura entrada na vida adulta. O Metropolitan Museum descreve
meninas servindo à deusa em Brauron como “little bears”, pequenas ursas.
O urso também aparece associado a Ártemis em
diferentes tradições gregas, inclusive na Arcádia. Fontes antigas e estudos
posteriores registram o animal entre aqueles relacionados à deusa.
Isso torna a escolha de Clarissa ainda mais
significativa: ela não está simplesmente colocando uma deusa caçadora ao
lado de um urso por associação livre. Existe uma antiga relação simbólica entre
Ártemis e esse animal.
O mito de Calisto: mulher, urso e constelação!
Outro mito fortalece essa ligação.
Calisto era uma jovem associada à
comitiva de Ártemis. Existem diferentes versões de sua história, mas todas
giram em torno de sua relação com Zeus, sua transformação em ursa e,
posteriormente, sua associação à constelação da Ursa Maior. As versões
antigas divergem sobre quem realiza a transformação e sobre diferentes
detalhes, algo comum na mitologia grega.
Aqui novamente encontramos:
mulher → natureza selvagem → urso →
transformação → céu.
É um conjunto simbólico muito próximo daquilo
que Clarissa procura desenvolver no capítulo: uma força feminina que precisa
reencontrar sua natureza instintiva para transformar uma emoção que estava
aprisionando a psique.
E quem é Diana?
Quando chegamos a Roma, encontramos Diana.
É comum dizer simplesmente que Diana é “a
Ártemis romana”, mas historicamente isso simplifica demais a história.
Diana já era uma divindade itálica própria.
Posteriormente, com a aproximação cultural entre gregos e romanos, foi
progressivamente identificada com Ártemis e absorveu muitos de seus mitos e
atributos.
Diana estava relacionada às florestas, à
vida selvagem, à caça, às mulheres e ao parto. Sua associação com a luz e
com a Lua também ganhou enorme importância na tradição romana. Um dos seus
principais centros de culto ficava em um bosque próximo ao Lago Nemi, na
Itália.
Mais uma vez encontramos uma deusa cujo
território não é a cidade organizada.
É a floresta.
O bosque.
A noite.
Os animais.
Os lugares em que o ser humano não controla
completamente a natureza.
É justamente o espaço simbólico da Mulher
Selvagem de Clarissa.
Diana e a Lua!
A presença da Lua acrescenta outra camada
muito bonita à leitura do Urso da Meia-Lua.
Diana foi fortemente associada à Lua e à luz
noturna. Na iconografia posterior, o crescente lunar tornou-se um de seus
atributos.
Em relação a Ártemis, é bom fazer uma
distinção: sua identificação direta com a Lua não está presente da mesma forma
nas camadas mais antigas da religião grega; ela se desenvolveu posteriormente
por aproximações com outras divindades e tradições.
Mas simbolicamente a Lua traz exatamente um
dos elementos que Clarissa desenvolve no capítulo:
o ciclo.
A Lua cresce.
Chega à plenitude.
Diminui.
Desaparece.
E retorna.
O urso também vive em ciclos:
atividade → recolhimento → hibernação →
despertar.
E Clarissa utiliza essa característica para
falar da autorregulação emocional: saber quando estar ativa, quando
diminuir o ritmo, quando recolher-se e quando voltar à vida.
Então por que Clarissa escolheu Ártemis e Diana?
É aqui que mito e psicologia se encontram.
Clarissa não está utilizando mitologia como se
estivesse dando uma aula de religião antiga. Ela trabalha com aquilo que
podemos chamar de linguagem arquetípica.
Uma imagem reúne muitas experiências humanas
ao mesmo tempo.
Ártemis e Diana representam mulheres que
conhecem a floresta.
E o que é uma floresta psicologicamente?
Pode ser aquele lugar interno em que não
existem estradas perfeitamente sinalizadas.
É onde precisamos de percepção.
Instinto.
Atenção.
Precisamos rastrear.
E rastrear é uma palavra fundamental nesse
trecho.
Quem rastreia não vê necessariamente aquilo
que procura diante dos olhos. Percebe indícios:
uma pegada;
um galho quebrado;
uma mudança no terreno;
um som;
um cheiro;
uma direção.
Psicologicamente, fazemos algo semelhante
quando começamos a observar:
Por que isso me incomodou tanto?
Quando comecei a me sentir assim?
O que meu corpo está dizendo?
Qual limite foi ultrapassado?
Essa raiva pertence apenas ao presente ou existe alguma história anterior sendo
tocada?
Isso é rastrear a psique.
Clarissa escreve que essas deusas concedem
simbolicamente às mulheres a capacidade de rastrear, conhecer e “escavar” os
aspectos psíquicos das coisas.
É importante fazer uma distinção: essa
formulação é a interpretação mitopoética e psicológica de Clarissa. Não
devemos afirmar que os gregos ou romanos antigos entendiam Ártemis e Diana
exatamente dessa maneira psicológica.
Clarissa toma o material mitológico e o
transforma em uma linguagem para compreendermos a vida interior.
A mulher que protege o território!
Existe ainda outra relação essencial com o
capítulo 12.
Ártemis é uma deusa profundamente ligada ao
território selvagem.
Diana reina nos bosques.
O urso protege seu espaço.
E o capítulo inteiro gira em torno de “A
demarcação do território: os limites da raiva e do perdão”.
Não poderia ser uma associação mais coerente.
Psicologicamente, território significa muito
mais do que espaço físico.
Nosso território é também:
nosso corpo,
nosso tempo,
nossos valores,
nossa dignidade,
nossos relacionamentos,
nossas escolhas,
nossos limites.
A raiva pode aparecer justamente quando
percebemos que alguma coisa atravessou essas fronteiras.
E o aprendizado proposto por Clarissa não é
viver permanentemente mostrando os dentes.
É aprender a reconhecer:
Quando devo esperar?
Quando devo observar?
Quando devo me afastar?
E quando preciso dizer: “Até aqui.”
Feroz não significa cruel!
Talvez esta seja uma das mensagens mais
bonitas dessa aproximação entre Ártemis, Diana e o Urso da Meia-Lua.
Durante muito tempo, fomos ensinadas a pensar
em pares opostos:
ou sou amorosa ou sou firme;
ou sou acolhedora ou coloco limites;
ou sou generosa ou penso em mim;
ou sou tranquila ou sinto raiva.
Clarissa desmonta essa divisão.
O urso pode ser feroz e generoso.
Ártemis pode proteger e caçar.
Diana pode ser senhora da floresta e protetora
das mulheres.
A maturidade emocional talvez esteja
justamente em integrar essas forças.
Não precisamos perder a sensibilidade para
estabelecer limites.
Não precisamos eliminar a raiva para sermos
pessoas amorosas.
E não precisamos nos tornar agressivas para
recuperar nossa força.
Talvez precisemos aprender aquilo que essas
antigas imagens continuam nos dizendo:
saber perceber, saber rastrear, saber
proteger, saber recolher-se — e saber quando chegou a hora de agir.
Para refletir:
Talvez Ártemis nos perguntasse:
“Qual é o seu alvo?”
Diana talvez perguntasse:
“O que precisa ser protegido?”
E o Urso da Meia-Lua poderia acrescentar:
“Você reconhece o momento de avançar e o
momento de se recolher?”
São perguntas antigas.
Mas continuam profundamente atuais.
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