A
Síndrome das Harpias: como silenciar as vozes internas que sabotam os seus
sonhos!
Você já percebeu que, muitas vezes, uma ideia
nasce dentro de você cheia de vida, cheia de brilho, quase como uma centelha… e
segundos depois surge uma voz que a diminui, que a ridiculariza, que diz que
não vai dar certo? É como se algo roubasse o alimento da sua alma antes mesmo
que ele pudesse nutrir o seu caminho. Essa experiência, tão comum e tão
dolorosa, foi nomeada de forma simbólica e profundamente verdadeira por
Clarissa Pinkola Estés como a Síndrome das Harpias.
Na mitologia grega, as harpias eram criaturas
aladas com rosto de mulher e corpo de ave de rapina. Eram rápidas, implacáveis
e tinham a função de atormentar. O mito mais conhecido é o do rei Fineu,
condenado a viver diante de uma mesa farta, mas sempre que ia se alimentar as
harpias desciam dos céus, roubavam sua comida e contaminavam o que restava. Ele
morria de fome diante da abundância. Essa imagem é extremamente poderosa porque
fala exatamente do que acontece dentro de nós quando temos talento, temos sensibilidade,
temos ideias, temos caminhos possíveis — mas algo interno nos impede de receber
o que já é nosso por direito. A comida está ali. A vida está ali. A
criatividade está ali. Mas a energia é roubada antes de chegar até o coração.
Na psique, as harpias são aquelas vozes
internas que desqualificam os nossos sonhos, que transformam pequenos
obstáculos em grandes fracassos, que dizem que não somos capazes, que não é o
momento, que não estamos prontas, que não somos boas o suficiente. E o mais
delicado é que, muitas vezes, essas vozes não parecem agressivas — elas se
disfarçam de prudência, de realismo, de autocrítica “madura”. Mas, na verdade,
são padrões antigos de desvalorização que foram sendo internalizados ao longo
da vida.
É aquela parte que diz que sua ideia é
infantil. Aquela que transforma um pequeno erro em prova de incapacidade.
Aquela que apoia no início de um projeto e, quando você está perto de realizar,
surge com um comentário que te desestabiliza. Aquela que, sob o pretexto de
ajudar, faz tudo por você e depois te deixa com a sensação de que você não
consegue caminhar sozinha. Tudo isso são manifestações da mesma dinâmica: o
roubo da energia vital antes que ela possa se transformar em criação.
Mas, como todo arquétipo, a harpia também tem
um lado luminoso. Na natureza, a ave de rapina tem uma visão extremamente
aguçada, uma força impressionante nas garras e uma precisão absoluta para
alcançar aquilo que é essencial. Isso nos ensina algo muito profundo: a mesma
energia que hoje usamos para nos destruir é a energia que pode ser usada para
sustentar os nossos sonhos com firmeza. A crítica que paralisa pode se
transformar em discernimento. A intensidade que hoje gera ansiedade pode se
transformar em foco. A força que rasga pode se tornar a força que protege.
O primeiro passo para essa transformação é
perceber que essa voz não é você. Você é quem escuta a voz. Quando o pensamento
autossabotador surge e você consegue dizer internamente “eu estou ouvindo a
harpia”, algo se desloca. Nasce um espaço entre a sua essência e o padrão. E
nesse espaço nasce a liberdade.
Depois disso, vem um movimento muito
importante: questionar essa narrativa. Essa voz tem base real? Ela está falando
de um fato ou está repetindo um medo antigo? Quais são as evidências reais da
sua incapacidade? E quais são as evidências — que quase sempre esquecemos — da
sua força, da sua sensibilidade, da sua trajetória até aqui?
Outro ponto fundamental é a ação criativa.
Cada vez que você cria algo, mesmo com medo, você devolve para si mesma o
alimento que foi roubado. Cada vez que você escreve, fala, dança, inicia um
projeto, coloca uma ideia no mundo, você enfraquece a harpia. Porque a criação
é a prova viva de que a sua alma continua fértil.
E existe ainda um caminho muito profundo, que
é o cultivo do silêncio. As harpias fazem barulho. Elas são rápidas, agitadas,
repetitivas. Na pausa, na respiração, na meditação, no contato com a natureza,
no recolhimento consciente, a voz verdadeira começa a ser ouvida novamente. É
ali que a intuição volta. É ali que a alma se alimenta. É ali que a Mulher
Selvagem dentro de nós retoma a direção.
É importante lembrar que essas vozes não
nasceram com você. Elas foram sendo formadas por críticas recebidas, por
experiências de desvalorização, por ambientes que não acolheram a sua
expressão. Por isso, o caminho não é lutar contra si mesma. O caminho é
reconhecer, acolher e transformar. É um processo de reeducação psíquica e de
recuperação da dignidade interna.
Não podemos impedir que as harpias voem sobre
a nossa cabeça. Mas podemos escolher que elas não façam ninho dentro de nós.
Quando essa consciência nasce, algo muito
bonito acontece: a energia volta a circular, a criatividade respira, os
talentos começam a florescer sem precisar da aprovação constante. E aquela
mesma força que antes sabotava passa a proteger o que é sagrado em você.
Silenciar as harpias não é se tornar perfeita.
É se tornar inteira. É poder olhar para a própria vida e dizer: “minha voz tem
valor, minha criação tem lugar, minha alma tem alimento.”
E, quando isso acontece, você deixa de viver
diante de uma mesa farta com fome… e finalmente começa a se nutrir da própria
existência.
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