Um romance sobre pertencimento, dor, amor e a urgência de encontrar sentido em meio ao caos!
Hoje eu quero falar de um livro que me pegou de um jeito que eu não esperava: Mártir!, do Kaveh Akbar.
Kaveh é iraniano-americano, poeta, nasceu no Irã e cresceu nos Estados Unidos. Esse é o primeiro romance dele. Mas, sinceramente, ele não escreve como quem está estreando. Ele escreve como quem já carregava essa história dentro do corpo há muito tempo. Como quem viveu cada palavra antes de colocá-la no papel.
E talvez por isso o livro tenha chamado tanta atenção: foi best-seller do New York Times, finalista do National Book Award e chegou agora ao Brasil pela Rocco.
A história acompanha Cyrus, um jovem poeta, filho de imigrantes iranianos, órfão, atravessado por questões de identidade, desejo e pertencimento, e alcoolista em recuperação.
A mãe dele morreu quando o avião em que estava foi abatido pelo exército americano no Golfo Pérsico. O pai, depois disso, passou a vida trabalhando em um abatedouro de galinhas no meio do nada, em Indiana, até morrer também.
Cyrus cresce carregando uma herança pesada: luto, deslocamento, vício, silêncio, violência histórica e familiar. E, no meio disso tudo, ele fica obcecado por uma pergunta: como fazer a própria morte significar alguma coisa?
Ele quer que a vida dele não seja em vão. E, mais do que isso, quer que a morte dele também não seja. Então decide escrever um livro sobre mártires. Essa busca o leva até uma artista iraniana com câncer terminal, que está realizando uma performance no Museu do Brooklyn, esperando a morte chegar diante do público.
O livro vai e volta no tempo. E, aos poucos, vai abrindo camadas. A gente descobre que a mãe de Cyrus guardava um segredo: uma relação lésbica escondida no Irã e uma troca de identidade antes do voo em que ela morreu. Descobre também que o tio dele, durante a guerra Irã-Iraque, se vestia como anjo da morte e cavalgava pelos campos de batalha para confortar soldados moribundos.
É um livro sobre dor, mas não só sobre dor. É sobre famílias atravessadas por guerras que não escolheram. Sobre fronteiras, perdas, exílio, fé, corpo, desejo, culpa e memória. Sobre o tipo de ferida que não começa na gente, mas chega até nós mesmo assim.
E eu não consegui ler sem pensar no momento em que estamos vivendo.
Em uma entrevista, Kaveh disse algo que me atravessou:
“Há apocalipses convergindo na Terra. Estamos à beira de um colapso ecológico. Há genocídios acontecendo simultaneamente. Há o crescimento do fascismo global, a proliferação nuclear, há apocalipse para todo lugar que você olha.”
E ele completa dizendo que, diante da magnitude desses problemas, qualquer pessoa pode sentir que precisa buscar uma solução igualmente grandiosa.
É exatamente isso.
A gente vive uma guerra que não tem nome único. Uma guerra sem trincheira, sem frente de batalha definida, mas que está em todo lugar: nas notícias, nas redes, no medo, na ansiedade, no cansaço de acordar todos os dias com a sensação de que o mundo está desmoronando.
Cyrus quer ser um mártir porque quer que a vida dele importe diante de tanta destruição.
E quem nunca quis isso, de alguma forma?
Quem nunca olhou para o caos e pensou: o que eu faço com tudo isso? A minha vida muda alguma coisa? O meu gesto alcança alguém?
Mártir! não entrega uma resposta pronta. E talvez seja justamente por isso que ele é tão verdadeiro. O livro não vem com uma lição de moral. Não tenta organizar a dor. Não oferece um manual de salvação.
Ele deixa uma pergunta aberta.
E essa pergunta fica com a gente.
Ler Mártir! foi como olhar para o abismo e perceber que eu não estou sozinha nele. Que há outras pessoas tentando encontrar sentido no meio do caos. Que, às vezes, a obsessão por uma morte com propósito é, no fundo, uma tentativa desesperada de encontrar uma vida que valha a pena.
E, como terapeuta, eu te convido: olha pra dentro com a mesma coragem com que você olha para o mundo.
Porque, às vezes, a gente tenta entender o caos lá fora para não encostar no caos que mora aqui dentro. Mas uma coisa que esse livro me lembrou é que ninguém precisa ser forte o tempo todo. Ninguém precisa dar conta de tudo sozinho. Existem dores que precisam de nome, de escuta, de tempo — e, muitas vezes, de ajuda.
Você não nasceu para carregar o mundo nas costas.
Eu sempre digo que quero morrer com dignidade. Mas, lendo Mártir!, entendi algo que ficou ecoando em mim: talvez a dignidade não esteja apenas no fim. Talvez ela esteja no caminho. No que a gente faz com o tempo que tem. Nas escolhas pequenas. Nos afetos que sustentam. Na coragem de continuar vivo, mesmo quando tudo parece desmoronar.
No fundo, Cyrus não me fez pensar apenas sobre a morte. Ele me fez pensar sobre a vida.
Sobre o quanto a gente deseja que a nossa existência importe.
E talvez essa seja a grande pergunta que o livro deixa: não como morrer com sentido, mas como viver de um jeito que não nos abandone.
Mártir! não é uma leitura confortável. Mas é uma leitura necessária!
Recomendo de olhos abertos.
E de coração aberto também.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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