quando a fé escuta o que a cidade tenta esconder!
Uma leitura sobre fé popular, escuta, desejo, miséria, manipulação e os bastidores do poder!
Recentemente, terminei a leitura de A
Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, e fiquei com a sensação de
ter lido um livro aparentemente simples, mas cheio de camadas.
Antes de falar da história,
vale olhar para quem escreve. Socorro Acioli é uma escritora
cearense, nascida em Fortaleza, jornalista, professora e pesquisadora de
literatura. Sua escrita carrega muito da força da oralidade, da cultura popular
nordestina e dessa fronteira delicada entre o real e o fantástico.
A Cabeça do Santo nasceu a partir de uma
oficina literária com Gabriel García Márquez, e talvez isso
explique um pouco a sensação que o livro provoca: a de que estamos diante de
uma história impossível, mas contada com tanta naturalidade que passa a parecer
absolutamente verdadeira.
É uma daquelas histórias que começam quase
como uma fábula, com um tom de oralidade, de causos, de fé popular, mas que,
aos poucos, vai revelando algo muito mais profundo: os desejos escondidos de
uma cidade, os interesses de quem está no poder, a ingenuidade de um povo
abandonado e as dores que atravessam famílias inteiras.
A história acompanha Samuel, um jovem
que chega à cidade de Candeia depois da morte da mãe, carregando um
pedido final feito por ela. Sua jornada o leva até uma enorme estátua inacabada
de Santo Antônio. Sem ter para onde ir, ele acaba se abrigando dentro da cabeça
do santo.
E é ali, dentro daquela cabeça oca, que algo
extraordinário acontece: Samuel começa a ouvir as preces das mulheres que rezam
para Santo Antônio, especialmente seus pedidos de amor.
Esse ponto, por si só, já é muito bonito.
Porque o livro coloca o personagem em um lugar simbólico: ele está dentro da
cabeça de um santo, ouvindo aquilo que as pessoas talvez não tenham coragem de
dizer em voz alta para ninguém. Ele escuta desejos, carências, solidões,
esperanças e pedidos íntimos.
E foi aí que, pelo olhar do Tarot, o primeiro
arcano apareceu para mim: A Sacerdotisa.
A Sacerdotisa: a escuta do invisível
A Sacerdotisa é o arcano da escuta, do
silêncio, da intuição, do mistério e daquilo que está oculto. Ela não revela
tudo de forma direta. Ela nos convida a perceber o que está por trás das
palavras, das aparências e dos acontecimentos.
Em A Cabeça do Santo, Samuel assume
esse lugar sem perceber. Ele não chega à cidade como alguém poderoso, dono de
respostas ou capaz de transformar tudo pela força. Pelo contrário: ele chega
cansado, pobre, sozinho e sem rumo. Mas, ao entrar na cabeça do santo, ele
passa a ocupar um lugar de escuta.
E essa escuta transforma a história.
Samuel escuta o que ninguém mais escuta. Ouve
as mulheres da cidade em suas preces, seus desejos de casamento, seus afetos
frustrados, suas dores e esperanças. Ele passa a conhecer a cidade por dentro,
não pelos discursos oficiais, mas pelos pedidos íntimos de quem vive ali.
A Sacerdotisa aparece exatamente nesse ponto:
no segredo, na oração, na fé popular, no feminino, no silêncio e naquilo que só
se revela para quem está disposto a ouvir.
O livro mostra que existe uma sabedoria
escondida nas margens. Uma sabedoria que não está nos gabinetes, nos palanques
ou nas decisões dos homens de poder, mas nas vozes simples de quem reza,
espera, ama, sofre e continua acreditando.
Ao mesmo tempo, essa escuta não é ingênua.
Porque, quanto mais Samuel ouve, mais a cidade se revela. E nem tudo o que se
revela é bonito.
É aí que outro arcano começa a aparecer.
O Diabo: o poder nos bastidores
Se o Arcano A Sacerdotisa representa aquilo
que é escutado no silêncio, o Arcano O Diabo representa aquilo que se
esconde nas sombras: a manipulação, a ganância, o aprisionamento, os interesses
ocultos e os vínculos adoecidos.
Em A Cabeça do Santo, existe uma camada
obscura que não pode ser ignorada. Candeia não é apenas uma cidade abandonada
por acaso. Há por trás desse abandono uma lógica cruel. O ex-prefeito Osório,
que deveria cuidar da população, age movido por interesses próprios. A
decadência da cidade passa a servir a um projeto de enriquecimento.
Quanto mais a cidade de Candeia parece
esquecida, mais suas terras perdem valor. Quanto mais miserável o povo se
torna, mais fácil é para empresários e pessoas de poder comprarem tudo por
preços irrisórios. A pobreza, nesse caso, não é apenas consequência da falta de
sorte ou do tempo. Ela também é produzida. Ela é usada. Ela é explorada.
Esse é o Arcano O Diabo em sua face social.
Não o Diabo como figura religiosa ou caricata,
mas como símbolo das forças que aprisionam: a ganância, a corrupção, a
manipulação, a exploração da inocência e a perversidade dos interesses
escondidos.
O povo de Candeia é passado para trás
justamente porque não vê tudo o que acontece nos bastidores. As pessoas vivem a
miséria no corpo, na casa, na rua, na fé e no abandono. Mas as decisões que
sustentam essa miséria acontecem longe dos olhos populares.
É uma imagem muito forte: enquanto o povo reza
para sobreviver, outros negociam sua ruína.
Nesse sentido, o livro mostra como o mal nem
sempre aparece fazendo barulho. Às vezes, ele aparece em silêncio. Em acordos.
Em promessas. Em projetos políticos. Em interesses econômicos. Em gente
poderosa tratando a pobreza como oportunidade.
O Arcano O Diabo, aqui, não está apenas na
maldade individual. Está também nas estruturas que prendem uma cidade inteira
ao abandono.
A cidade como corpo adoecido
Candeia parece uma cidade doente. E essa
doença não é apenas física, econômica ou política. Ela é também simbólica.
A estátua inacabada de Santo Antônio
representa bem isso: uma promessa interrompida, uma fé suspensa, uma cidade que
começou algo e nunca terminou. A cabeça do santo, separada do corpo, vira
abrigo, esconderijo e lugar de revelação.
É como se a cidade tivesse perdido o corpo,
mas ainda conservasse uma cabeça capaz de ouvir.
Nesse sentido, a imagem é muito poderosa.
Samuel entra na cabeça do santo e, dali, passa a acessar o inconsciente de
Candeia. Ele ouve o que está reprimido. O que foi esquecido. O que foi
silenciado. O que ninguém levou a sério.
E entre esses dois arcanos, a cidade aparece
como um território dividido entre fé e exploração, esperança e abandono,
ingenuidade e manipulação.
Madeinusa e as sombras da família
Outra parte muito forte do livro está na
história de Madeinusa e de sua mãe.
Aqui, novamente, o Arcano O Diabo aparece, mas
agora em uma dimensão mais íntima: não mais apenas na política da cidade, mas
dentro da família.
A mãe de Madeinusa carrega uma maldade amarga,
endurecida, marcada pelo ressentimento. Seu marido Fernando que era vendedor de
tecidos, foi para Cabo Verde e lá se apaixonou perdidamente por Maria e teve
uma filha desse relacionamento, Rosário. Só que em um trágico acidente de
barco, Maria veio a falecer, e Fernando volta para Candeia com Rosário. Em casa
de volta com Helenice, ele alega ter
adotado a menina Rosário, e as duas crianças crescem juntas: Madeinusa e
Rosário. Com o passar do tempo a semelhança de Rosário com Fernando faz com que
Helenice pressione Fernando; e ele com choro e olhar de quem perdeu seu grande
amor na vida, acaba confessando, esperando que Helenice o compreendesse.
Helenice por sua vez, com toda a ira e ódio por não sentir que ele o amava daquela
mesma forma, o mata dormindo com um tiro no peito e para completar sua vingança
para com Fernando, acaba por abandonar na rua Rosário. O gesto de abandonar uma criança de apenas
cinco anos é de uma crueldade que fere profundamente a leitura. E a morte do
marido, depois que ele se apaixona e confessa a verdade, marca uma virada
brutal nessa mulher.
Rosário é devolvida pelo Sr. Francisco, mas
ela a coloca de volta na rua e então Sr. Francisco passa a esconder e cuidar de
Rosário longe dos olhares da cidade.
Depois disso, ela parece se transformar em
outra pessoa. Uma mulher tomada pela amargura, pelo ódio e pela incapacidade de
separar a filha da lembrança do marido. Madeinusa passa a carregar, no olhar da
mãe, o sangue daquele homem. Como se fosse culpada por existir. Como se sua
presença fosse uma ferida aberta.
Essa parte do livro toca em algo muito
doloroso: existem famílias em que o amor adoece, em que o ressentimento vira
herança, em que uma criança passa a carregar culpas que não são dela.
Esse também é o Arcano O Diabo.
A mãe de Madeinusa não fere apenas por seus
atos. Ela fere porque transforma sua própria dor em destruição. Ela não
consegue lidar com a perda, com a traição, com o amor que escapou do seu
controle. Então, em vez de atravessar a dor, ela a espalha.
E Madeinusa e Rosário se tornam vítimas dessa
sombra.
O Louco: a travessia de Samuel
Embora os Arcanos A Sacerdotisa e O Diabo
sejam, para mim, os arcanos mais fortes dessa leitura, também é possível
perceber em Samuel algo do Arcano O Louco.
O Louco é aquele que parte sem garantias. Ele
inicia uma jornada sem saber exatamente o que vai encontrar. Carrega pouco,
confia no caminho e acaba atravessando experiências que transformam sua visão
de mundo.
Samuel chega à Candeia assim: vulnerável,
deslocado, sem estrutura, sem dinheiro, seguindo um pedido da mãe e entrando em
um território desconhecido. Ele não domina a cidade. Ele não entende tudo de
imediato. Ele se deixa levar por uma sequência de acontecimentos quase
absurdos, mas profundamente simbólicos.
Essa ingenuidade inicial de Samuel não é
fraqueza. É abertura. E, no Tarot, o Louco muitas vezes representa justamente
isso: a disponibilidade para entrar no mistério.
Mas o livro também mostra que a ingenuidade
pode ser perigosa quando encontra um mundo atravessado por interesses. Por
isso, Samuel caminha entre dois lugares: de um lado, a pureza de quem ainda
pode se surpreender; de outro, a necessidade de amadurecer diante das sombras
que encontra.
O Hierofante: fé popular e tradição
Outro arcano que aparece como pano de fundo é O
Hierofante, também chamado de O Papa.
Ele está presente na religiosidade popular, na
devoção a Santo Antônio, nas promessas, nas rezas, nos rituais e na força
coletiva da fé. Mas em A Cabeça do Santo, essa fé não aparece de forma
rígida ou institucional. Ela aparece de modo popular, vivo, misturado à
necessidade, ao desejo e à esperança.
As pessoas rezam porque precisam. Porque amam.
Porque sofrem. Porque querem ser ouvidas.
E talvez essa seja uma das belezas do livro:
ele não trata a fé apenas como crença, mas como linguagem. A fé é o modo como
aquele povo tenta conversar com o invisível, pedir socorro, nomear desejos e
suportar a vida.
O Hierofante aparece nesse lugar da tradição,
mas a Sacerdotisa aprofunda essa experiência, porque ela nos lembra que, por
trás de toda oração, existe um segredo.
Uma leitura entre encantamento e denúncia
O que mais me chamou atenção em A Cabeça do
Santo é que ele consegue ser encantado sem ser ingênuo.
Há humor, fé, poesia e delicadeza. Mas também
há abandono, corrupção, miséria, manipulação e violência emocional. O livro tem
essa força: ele mostra o milagre e a ruína no mesmo cenário.
A cabeça do santo ouve pedidos de amor, mas a
cidade ao redor está sendo destruída por interesses humanos muito concretos. As
mulheres rezam por afeto, enquanto políticos e empresários calculam lucros.
Samuel escuta o invisível, mas o que ele descobre também revela feridas muito
reais.
Por isso, os arcanos se completam tão bem
nessa leitura.
A Sacerdotisa mostra o que está oculto
no campo da alma: os desejos, os silêncios, as preces e os mistérios.
O Diabo mostra o que está oculto no
campo do poder: a ganância, a exploração, a manipulação e as prisões
invisíveis.
O Louco aparece na travessia de Samuel,
que chega sem saber o que o espera.
E o Hierofante aparece na fé popular,
nas promessas e na relação da cidade com Santo Antônio.
O que o livro me deixou
A Cabeça do Santo me deixou
pensando sobre o quanto uma cidade pode ser silenciada. Sobre o quanto um povo
pode ser enganado quando a miséria é tratada como destino. Sobre quantas dores
familiares nascem de verdades escondidas, de amores proibidos, de
ressentimentos alimentados por anos.
Mas também me deixou pensando sobre escuta.
Porque Samuel só transforma algo quando começa
a ouvir. E talvez essa seja uma grande chave do livro: antes de curar, antes de
agir, antes de entender, é preciso escutar.
Pelo olhar do Tarot, A Cabeça do Santo
é uma história sobre aquilo que se revela quando a Sacerdotisa nos ensina a
ouvir — e sobre aquilo que descobrimos quando temos coragem de encarar o Diabo
nos bastidores.
É um livro sobre fé, mas também sobre poder.
Sobre amor, mas também sobre abandono.
Sobre encantamento, mas também sobre denúncia.
E talvez seja por isso que ele fica na gente:
porque, por trás da cabeça de um santo, existe uma cidade inteira tentando ser
ouvida.
O final de A Cabeça do
Santo deixa uma sensação incômoda — e talvez seja justamente por isso que
ele seja tão forte.
Samuel encontra Rosário. Há,
para ele, uma espécie de encontro com o amor, com o destino e com uma parte de
si que parecia perdida. Existe uma redenção íntima, pessoal, quase silenciosa.
Mas, ao mesmo tempo, a cabeça
do santo será destruída por dinamite.
E isso muda tudo.
Porque aquela cabeça não era
apenas uma escultura abandonada. Ela era abrigo, escuta, memória, fé popular e
testemunha daquilo que a cidade tentava esconder. Era ali que Samuel ouvia as
preces. Era ali que os desejos silenciados encontravam passagem. Era ali que
Candeia, de alguma forma, ainda podia ser ouvida.
Quando o poder decide
destruir a cabeça do santo, não está apenas destruindo pedra. Está tentando
apagar uma história. Está tentando calar uma cidade. Está tentando eliminar
aquilo que escapou ao controle.
Por isso o final é
frustrante. Porque ele deixa no ar uma sensação de impotência muito real: às
vezes, o amor encontra caminho, mas o poder ainda vence. Às vezes, uma pessoa
se salva, mas a estrutura que adoece o mundo continua de pé.
Pelo olhar do Tarot, esse
desfecho reforça a presença do Arcano O Diabo. O Diabo como
ganância, controle, manipulação e aprisionamento. O Diabo como essa força que
age nos bastidores, transformando abandono em oportunidade e miséria em
negócio.
Mas também reforça a
importância da Sacerdotisa.
Porque, mesmo diante da
destruição, algo foi ouvido. Algo foi revelado. Algo saiu do silêncio.
E talvez seja essa a força mais bonita e mais
dolorosa do livro: nem tudo se salva, mas aquilo que foi escutado já não pode
voltar a ser completamente apagado.
🌿 Com carinho,
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