Uma
reflexão sobre corpo, riso e cura da mulher selvagem!
Existe uma parte da mulher que nem sempre foi
bem recebida pelo mundo.
Uma parte viva, sensorial, espontânea,
instintiva, alegre, sensual, criativa e profunda.
Uma parte que sente com o corpo, que percebe
com a pele, que se emociona com a beleza, que se move em ciclos, que precisa de
silêncio em alguns momentos e de expansão em outros.
Essa parte da mulher muitas vezes foi chamada
de exagerada, inadequada, intensa demais, livre demais, sensual demais ou até
“suja”.
Mas será que tudo aquilo que foi chamado de
“sujo” em nós era realmente errado?
Ou será que ali existia uma força feminina
antiga, sagrada e viva que simplesmente não coube nas regras do mundo?
É a partir dessa reflexão que nasce a imagem
das Deusas Sujas.
O que são as Deusas Sujas?
A expressão pode causar estranhamento no
primeiro momento. Mas aqui, “sujo” não tem o sentido de vulgaridade, falta de
valor ou degradação.
“Sujo”, nesse contexto simbólico, está mais
próximo da terra fértil.
Da lama.
Do húmus.
Da matéria escura e profunda de onde a vida
nasce.
As Deusas Sujas representam aquilo que foi
soterrado na mulher: o prazer, o riso, o corpo, a sensualidade, a menstruação,
a fertilidade, a menopausa, o desejo, a espontaneidade e a sabedoria
instintiva.
Elas falam das partes femininas que foram
empurradas para baixo do pano porque incomodavam a ordem, a moral, a rigidez e
o controle.
Psicologicamente, podemos olhar para essas
deusas como símbolos das partes rejeitadas da mulher. Partes que foram
julgadas, escondidas ou reprimidas, mas que continuam carregando vida, força e
potência de cura.
Baubo: a
deusa do ventre
Entre essas figuras, Baubo aparece como uma
presença muito especial.
Ela é conhecida como uma deusa ligada ao
ventre, ao riso, à obscenidade sagrada e à irreverência feminina.
Mas é importante entender: Baubo não
representa vulgaridade. Ela representa uma sabedoria que não vem apenas da
cabeça, da razão ou das regras. Ela vem do corpo. Vem do ventre. Vem da parte
profunda da mulher que sente antes de explicar.
Baubo nos lembra que o corpo feminino também
tem voz.
Que o ventre também sabe.
Que o riso também cura.
Que a mulher não precisa negar seu corpo para
ser espiritual.
Quando o texto fala de uma mulher que “fala do
meio das pernas”, a imagem pode parecer forte. Mas simbolicamente ela aponta
para algo muito profundo: existe uma verdade no corpo feminino que, por muito
tempo, foi silenciada.
Uma verdade que fala de instinto, prazer,
fertilidade, sensibilidade, ciclos, dor, criação, transformação e vida.
Deméter,
Perséfone e a dor que seca a vida
A história de Baubo aparece ligada ao mito de
Deméter e Perséfone.
Deméter, a mãe-Terra, perde sua filha
Perséfone, levada para o mundo subterrâneo. Tomada pela dor, Deméter procura
desesperadamente pela filha. Sua tristeza é tão profunda que a terra seca. Nada
floresce. Nada nasce. A vida perde movimento.
Psicologicamente, Deméter representa a mulher
que perde uma parte vital de si.
Pode ser a alegria.
A leveza.
A sensualidade.
A criatividade.
A vontade de viver.
A espontaneidade.
A conexão com o corpo.
Quando uma mulher atravessa uma dor profunda,
algo dentro dela pode secar. Ela continua existindo, mas por dentro a terra
fica árida.
Perséfone, nesse mito, pode representar a
parte jovem, viva, curiosa e sensível da mulher que foi levada ao subterrâneo
da psique. Aquela parte que, por dor, trauma, repressão, vergonha ou
amadurecimento forçado, desceu para um lugar escuro.
E então surge Baubo.
Baubo não chega com uma explicação racional.
Ela não tenta convencer Deméter a parar de sofrer. Ela não nega a dor da mãe.
Ela chega com o corpo.
Com a irreverência.
Com uma energia estranha e curativa.
E faz Deméter rir.
Primeiro um sorriso.
Depois um pequeno riso.
Depois uma gargalhada.
Esse riso não apaga a perda. Mas ele devolve
movimento. Devolve ar. Devolve força. Tira Deméter da paralisia e permite que
ela continue sua busca.
Essa é uma das grandes mensagens desse trecho:
às vezes, a cura não começa com uma resposta. Às vezes, começa com uma
respiração mais solta. Com uma conversa verdadeira. Com uma gargalhada
inesperada. Com um corpo que, por um instante, lembra que ainda está vivo.
O riso como
medicina
O riso, nesse contexto, não é uma brincadeira
vazia.
É medicina.
Quando uma mulher ri de verdade, com o corpo
inteiro, algo se move dentro dela. A respiração se abre. A tensão se solta. A
rigidez perde força. Emoções antigas encontram passagem.
Muitas vezes, uma mulher passa anos prendendo
o riso, a fala, o desejo, a raiva, a sensualidade, as lágrimas e a
espontaneidade para parecer adequada.
Ela aprende a ser “bem-educada” o tempo todo.
Mas existe uma diferença entre ter respeito e
se sufocar.
Existe uma diferença entre ser delicada e se
prender.
Existe uma diferença entre ter postura e
perder completamente a espontaneidade.
Baubo aparece justamente para romper essa
prisão.
Ela nos lembra que o riso pode devolver o ar
que a vergonha prendeu.
O corpo
também fala
A mulher moderna foi ensinada, muitas vezes, a
viver desconfiando do próprio corpo.
Desconfiando do prazer.
Da intensidade.
Do desejo.
Da sensualidade.
Da alegria.
Dos ciclos.
Da necessidade de recolhimento.
Mas o corpo fala.
Ele avisa quando algo não está bem. Ele se
fecha quando há medo. Ele relaxa quando há segurança. Ele pulsa quando existe
vida. Ele se cansa quando a alma está sobrecarregada.
O corpo feminino guarda memórias. Guarda
dores. Guarda intuições. Guarda histórias antigas.
Por isso, voltar para o corpo não é cair na
vulgaridade. É voltar para casa.
É aprender a escutar os próprios ritmos.
É reconhecer o que nutre e o que esgota.
É saber diferenciar desejo verdadeiro de
carência.
Prazer real de fuga.
Liberdade de descontrole.
Entrega de manipulação.
Reconectar-se com a força sensorial e
instintiva da mulher não significa fazer tudo sem consciência. Pelo contrário.
Significa sentir com mais presença, mais respeito e mais verdade.
Sexualidade
sagrada não é vulgaridade
Um dos pontos mais importantes desse tema é
compreender que sexualidade sagrada não é exposição, vulgaridade ou falta de
limite.
Sexualidade sagrada é energia vital.
É presença.
É criatividade.
É prazer de viver.
É reconexão com o corpo.
É intimidade com os próprios ciclos.
É dignidade no sentir.
É consciência sobre o desejo.
É respeito pelos próprios limites.
A mulher não precisa escolher entre ser
espiritual ou corporal.
Ela pode ser as duas coisas.
Pode ser profunda e bem-humorada.
Silenciosa e viva.
Delicada e intensa.
Recolhida e expansiva.
Sensual e consciente.
Sagrada e humana.
A mulher inteira não cabe em uma única forma.
A vergonha
que nos afastou de nós mesmas!
Muitas vergonhas que uma mulher carrega não
nasceram com ela.
Foram ensinadas.
Vergonha do corpo.
Vergonha do riso alto.
Vergonha de desejar.
Vergonha de falar.
Vergonha de sentir prazer.
Vergonha de ocupar espaço.
Vergonha de ser intensa.
Vergonha de mudar.
Vergonha de envelhecer.
Vergonha de sangrar.
Vergonha de parar.
Vergonha de querer.
Com o tempo, essa vergonha vai afastando a
mulher de si mesma. Ela começa a viver tentando caber em uma versão mais
aceita, mais silenciosa, mais controlada, mais domesticada.
Mas a mulher domesticada nem sempre é a mulher
inteira.
Às vezes, ela é apenas uma mulher que aprendeu
a sobreviver diminuindo partes de si.
Baubo nos convida a olhar para essas partes
com menos julgamento e mais amor.
O encontro
entre mulheres como espaço de cura
Outro ponto forte desse tema é a importância
dos encontros entre mulheres.
Existem conversas que só acontecem quando a
mulher se sente segura.
Conversas que não precisam de pose.
Conversas que descem da cabeça para o corpo.
Conversas onde se fala da dor, do cansaço, do
desejo, da raiva, da vergonha, do prazer, das histórias engraçadas e das partes
da vida que muitas vezes ficam escondidas.
Esses encontros podem funcionar como antigos
rituais de cura.
Uma mulher escuta a outra.
Uma ri com a outra.
Uma lembra a outra de respirar.
Uma devolve à outra a sensação de
pertencimento.
E, nesse espaço, aquilo que parecia vergonha
pode virar reconhecimento.
Aquilo que parecia solidão pode virar vínculo.
Aquilo que parecia peso pode encontrar
passagem.
O riso
sagrado!
O riso sagrado não é qualquer riso.
Não é o riso que humilha.
Não é o riso que diminui.
Não é o riso que fere.
É o riso que alivia.
Que reorganiza.
Que devolve força.
Que suaviza a raiva.
Que desfaz a tristeza.
Que lembra a mulher de que ela está viva.
Quando o riso ajuda sem ferir, ele se torna
medicinal.
E quando é medicinal, também pode ser sagrado.
Porque tudo aquilo que devolve vida à alma tem
algo de sagrado.
A mulher
inteira!
No fundo, Baubo e as Deusas Sujas nos convidam
a uma reconciliação.
Reconciliação com o corpo.
Com o ventre.
Com o riso.
Com a sensualidade.
Com os ciclos.
Com a alegria.
Com a verdade.
Com as partes que foram rejeitadas.
Com aquilo que a cultura chamou de “demais”.
A mulher inteira não é feita apenas de
controle.
Ela também é feita de corpo, instinto, prazer,
emoção, silêncio, riso, dor, sabedoria e liberdade.
A cura talvez comece quando a mulher para de
pedir desculpas por existir.
Quando ela entende que seu corpo não é inimigo
da espiritualidade.
Que seu prazer não é pecado contra sua
profundidade.
Que seu riso não diminui sua dignidade.
Que seu instinto, quando escutado com
consciência, também pode protegê-la.
A mulher que abraça suas partes julgadas,
escondidas e mal compreendidas se torna mais inteira.
E uma mulher inteira é muito mais sagrada,
viva e forte do que a versão domesticada que tantas vezes tentou ser para
agradar o mundo.
Perguntas
para reflexão:
Que parte sua você aprendeu a esconder para
ser aceita?
Onde a “boa educação” virou prisão?
O que o seu corpo tem tentado dizer?
Que vergonha você gostaria de deixar para
trás?
O que o riso cura em você?
Que parte sua está pronta para voltar à vida?
Para
finalizar!
Baubo nos lembra que o caminho de volta para a
alma nem sempre passa apenas pelo silêncio, pela oração ou pela seriedade.
Às vezes, passa pelo corpo.
Pelo ventre.
Pela gargalhada.
Pela conversa entre mulheres.
Pela terra fértil.
Pela coragem de olhar para aquilo que foi
escondido e dizer:
“Eu também sou isso. E ainda assim sou
sagrada.”
A mulher inteira não precisa negar sua terra,
sua lama e seu instinto para ser espiritual.
Muitas vezes, o caminho de volta para a alma
passa justamente pelo corpo.


Nenhum comentário:
Postar um comentário