Muerte e Hecoteptl: as mulheres de barro e a arte de escavar a própria alma!
O que Clarissa Pinkola Estés pode estar nos ensinando ao trazer essas figuras para O Urso da Meia-Lua
Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés utiliza mitos, contos e símbolos para falar de experiências emocionais que muitas vezes são difíceis de explicar apenas pela razão. No capítulo “O Urso da Meia-Lua”, em que aborda a raiva, os limites e o perdão, há uma passagem pequena, mas muito interessante, na qual ela menciona Muerte e Hecoteptl.
Ao explicar o simbolismo do urso, Clarissa primeiro fala de Ártemis e Diana, deusas caçadoras das tradições grega e romana. Em seguida, cita Muerte e Hecoteptl, que apresenta como divindades femininas de lama — ou de barro — das culturas latino-americanas. A autora relaciona essas figuras à capacidade de rastrear, conhecer e “escavar” os aspectos psíquicos das coisas.
É justamente a palavra “escavar” que torna essa referência tão rica psicologicamente.
O que significa “escavar” a própria psique?
Quando sentimos alguma emoção intensa, geralmente percebemos primeiro aquilo que está na superfície.
“Estou com raiva.”
“Estou irritada.”
“Não suporto mais essa situação.”
Mas será que a raiva é toda a história?
Às vezes, quando começamos a olhar um pouco mais fundo, encontramos outras coisas por baixo dela:
uma frustração que nunca foi expressada;
uma sensação de desrespeito;
um limite que foi ultrapassado;
um medo;
uma decepção;
uma necessidade que foi ignorada;
ou até uma experiência antiga que aquela situação atual acabou despertando.
É como fazer uma escavação.
Primeiro encontramos a camada que está mais próxima da superfície. Depois retiramos um pouco mais de terra. E mais um pouco. Até encontrarmos aquilo que estava escondido.
Por isso gosto de pensar que, simbolicamente, Clarissa nos convida a fazer uma espécie de arqueologia da própria alma.
Não basta perguntar:
“Por que estou com raiva?”
Talvez seja preciso continuar:
“O que existe por baixo dessa raiva?”
E por que mulheres de barro?
A imagem do barro também nos oferece uma possibilidade muito bonita de reflexão.
O barro é formado pela terra misturada à água. É uma matéria que pode ser tocada, moldada e transformada.
E o barro também guarda marcas.
Quando pressionamos a mão sobre ele, alguma coisa fica registrada.
Nossa história emocional também guarda marcas.
Algumas experiências passam rapidamente. Outras deixam impressões profundas. Palavras, rejeições, perdas, relações, injustiças e acontecimentos importantes podem continuar dentro de nós muito tempo depois de terem terminado.
Mas existe outra característica do barro que considero fundamental:
o barro pode ser remodelado.
Ter sido marcado por alguma experiência não significa necessariamente permanecer para sempre com a mesma forma.
Podemos olhar novamente para aquilo que aconteceu, compreender de outra maneira, elaborar sentimentos e construir novas respostas.
É uma imagem que combina profundamente com a proposta de O Urso da Meia-Lua: não negar a experiência, mas transformá-la.
E quem são Muerte e Hecoteptl?
Aqui é necessário algum cuidado.
Muerte, em espanhol, significa “morte”. Dentro do universo simbólico de Clarissa, a morte aparece diversas vezes não apenas como morte física, mas como parte do movimento Vida–Morte–Vida: alguma coisa termina para que outra possa surgir.
Já Hecoteptl é uma referência muito mais obscura. Embora o nome esteja realmente presente tanto na passagem de Clarissa quanto em reproduções da edição em inglês, é difícil encontrar fora da obra uma tradição mitológica bem documentada que permita contar com segurança “a história de Hecoteptl”. A própria passagem inglesa apresenta Muerte and Hecoteptl como mud women deities das culturas latinas.
Por isso, prefiro não inventar uma genealogia, um culto ou uma história que as fontes disponíveis não sustentam.
Para compreender o capítulo, entretanto, isso não impede que trabalhemos com o significado que Clarissa atribui a essas figuras dentro do próprio texto.
E esse significado é bastante claro:
rastrear, conhecer e escavar.
Muerte e aquilo que precisa terminar!
Se olharmos para Muerte dentro da linguagem simbólica de Clarissa, encontramos outra pergunta importante:
O que já terminou, mas eu continuo mantendo vivo dentro de mim?
Às vezes é uma relação que acabou há anos.
Uma expectativa que nunca se realizou.
Uma mágoa.
Uma antiga discussão.
Uma injustiça.
Uma versão de nós mesmas que já não existe.
Ou uma raiva que, em determinado momento, teve uma função importante — talvez tenha nos ajudado a sobreviver, a reagir ou a reconhecer uma injustiça — mas que continua ocupando espaço muito depois de o acontecimento ter passado.
Nesse sentido, a morte simbólica não significa apagar a história.
Significa reconhecer:
“Isso aconteceu. Fez parte da minha vida. Deixou marcas. Mas não precisa continuar comandando meu presente.”
Essa ideia aparece novamente no capítulo quando Clarissa fala dos muen-botoke, os “mortos órfãos” da psique, e posteriormente dos Descansos: experiências, sonhos e partes de nossa história que precisam ser reconhecidas, pranteadas e finalmente colocadas em algum lugar dentro de nós.
De Ártemis a Muerte: primeiro rastrear, depois escavar!
Existe uma sequência simbólica muito interessante nessa passagem.
Ártemis e Diana são caçadoras.
A caçadora precisa perceber rastros.
Uma pegada.
Um ruído.
Um movimento.
Uma alteração no ambiente.
Psicologicamente, podemos pensar:
“O que estou percebendo em mim?”
“Meu corpo ficou tenso.”
“Minha voz mudou.”
“Estou irritada.”
“Alguma coisa me incomodou.”
Esse é o rastro.
Muerte e Hecoteptl acrescentam outra dimensão:
agora é preciso escavar.
“Por que isso me atingiu?”
“O que realmente me feriu?”
“Essa emoção pertence somente ao que aconteceu hoje?”
“Que limite foi ultrapassado?”
“Existe alguma história anterior aparecendo novamente?”
Por isso podemos resumir:
**Rastrear é perceber os sinais.
Escavar é descobrir o que existe por trás deles.**
E o que isso tem a ver com a raiva?
Tudo.
O capítulo não nos ensina simplesmente a eliminar a raiva.
Clarissa apresenta a raiva como uma emoção que pode trazer conhecimento. Ela pode iluminar lugares que normalmente não enxergamos e mostrar alguma coisa que precisa da nossa atenção.
Mas, quando não é compreendida e transformada, a raiva também pode nos aprisionar.
Podemos começar a interpretar situações novas através de dores antigas.
É por isso que escavar não significa alimentar a raiva.
Significa compreendê-la suficientemente para não precisar permanecer presa a ela.
Imagine uma pessoa que fica furiosa porque alguém se atrasou para encontrá-la.
Na superfície:
“Estou com raiva porque você se atrasou.”
Ao rastrear:
“Percebi que fiquei muito mais irritada do que imaginava.”
Ao escavar:
“O que realmente me atingiu foi sentir que meu tempo não tem importância.”
Mais profundamente:
“Talvez isso toque numa história antiga em que muitas vezes eu me senti desconsiderada.”
Agora existe mais consciência.
O acontecimento não mudou.
Mas a pessoa já consegue distinguir o fato presente da história emocional que ele despertou.
Isso é muito diferente de simplesmente descarregar a raiva.
Nem tudo que encontramos precisa continuar conosco!
Existe ainda outra beleza na imagem da escavação.
Quando um arqueólogo encontra alguma coisa enterrada, ele não necessariamente volta a viver naquela época.
Ele encontra.
Observa.
Compreende.
Dá significado.
E coloca aquilo dentro de uma história.
Talvez possamos fazer algo semelhante com nossas experiências.
Nem toda dor que encontramos precisa voltar a dirigir nossa vida.
Nem toda mágoa precisa ser alimentada.
Nem toda história precisa ser repetida.
Às vezes precisamos encontrar alguma coisa justamente para finalmente conseguir deixá-la descansar.
Uma arqueologia da própria alma!
Talvez essa seja uma das mensagens que podemos retirar dessa pequena referência de Clarissa.
Conhecer a nós mesmas exige coragem para olhar não apenas para aquilo que mostramos ao mundo, mas também para aquilo que ficou enterrado.
Existem momentos em que precisamos ser Ártemis e rastrear.
Perceber os sinais.
Existem momentos em que precisamos ser como essas mulheres de barro e escavar.
Ir um pouco mais fundo.
Existem momentos em que precisamos reconhecer Muerte.
Aceitar que alguma coisa terminou.
E então permitir que aquilo que encontramos seja transformado.
Não para vivermos permanentemente olhando para o passado, mas justamente para que o passado não precise continuar decidindo o presente.
Talvez o verdadeiro trabalho seja este:
E fica uma pergunta:
O que existe debaixo daquilo que você chama simplesmente de raiva?
Talvez compreender uma emoção seja, algumas vezes, exatamente isso:
fazer uma arqueologia da própria alma.
Nota: Clarissa Pinkola Estés menciona Muerte e Hecoteptl em Mulheres que Correm com os Lobos como divindades femininas de lama/barro e associa essas figuras à capacidade de rastrear, conhecer e escavar aspectos psíquicos. Hecoteptl é pouco documentada fora dessa referência; por isso, este texto trabalha principalmente com o significado simbólico apresentado pela própria autora, sem atribuir à figura uma história mitológica não confirmada.
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