Em A Donzela sem Mãos,
Clarissa Pinkola Estés apresenta uma imagem recorrente nas antigas histórias de
iniciação: quando alguém precisa atravessar um território desconhecido, quase
sempre existe uma figura que conhece alguma coisa daquele caminho.
Dante teve Virgílio.
Coatlicue teve uma serpente viva
que a acompanhou ao mundo de fogo.
A Donzela sem Mãos tem o espírito
de branco.
Não são personagens idênticos,
nem pertencem à mesma tradição. O que os aproxima é sua função simbólica: acompanhar
uma travessia.
Na história da Donzela, isso se
torna especialmente claro diante do fosso que circunda o pomar. O espírito de
branco abre a passagem, mas não atravessa pela jovem. Ela continua responsável
pelo próprio caminho.
Essa imagem é fundamental para
compreendermos o que significa um guia no processo de transformação.
O guia não é aquele que oferece
todas as respostas.
É aquele que ajuda a conservar o
discernimento quando entramos em territórios onde nossos mapas habituais já não
funcionam.
Clarissa compara o mundo
subterrâneo às profundezas do inconsciente: um território cheio de imagens,
arquétipos, desejos, medos, fascínio e possibilidades de transformação. Nem
tudo que surge dessas profundezas precisa ser seguido literalmente. É necessário
aprender a olhar, interpretar e atravessar.
Por isso, o verdadeiro guia não
substitui nossa consciência. Ele ajuda a desenvolvê-la.
No Tarot, encontramos algo
semelhante na figura do Eremita. Ele segura uma lanterna, mas sua luz
não ilumina toda a estrada de uma vez. Mostra apenas o suficiente para o
próximo passo.
Talvez seja exatamente assim que
certas orientações chegam.
Não como um mapa completo.
Como uma pequena luz.
Uma percepção.
Um conselho.
Uma imagem.
Uma sincronicidade.
Uma conversa capaz de abrir uma
passagem que antes não conseguíamos enxergar.
E há algo ainda mais importante:
com o amadurecimento, começamos a reconhecer dentro de nós uma função
semelhante.
A capacidade de parar.
Escutar.
Discernir.
Perceber quando avançar e quando
esperar.
Talvez seja esse o verdadeiro
aprendizado do encontro com o guia: não permanecer eternamente dependente dele,
mas desenvolver gradualmente uma relação mais consciente com nossa própria
orientação interior.
Há travessias que precisam ser
nossas.
Mas as antigas histórias parecem
nos lembrar que isso não significa que precisemos entrar no escuro sem nenhuma
luz.
O guia não percorre o caminho
por nós.
Ele apenas ilumina o suficiente para que possamos continuar caminhando.
a perambulação pode estar
relacionada com o luto?
Sim, bastante. A perambulação
pode ser lida como uma imagem muito forte do luto, embora Clarissa não
reduza esse estágio ao luto propriamente dito.
O que aproxima os dois é
justamente a experiência de estar entre mundos. No luto, algo terminou
de verdade — uma pessoa morreu, uma relação acabou, um papel deixou de existir,
uma fase da vida se encerrou — mas a nova organização interna ainda não
aconteceu. A pessoa já não consegue voltar à vida exatamente como era antes, porém
ainda não sabe como será a vida depois. Isso é muito parecido com a Donzela: o
mapa antigo não serve mais e o novo ainda não foi desenhado.
E Clarissa amplia isso para
várias formas de passagem: deixar a casa dos pais, terminar um relacionamento,
mudar de uma etapa da vida para outra, atravessar mudanças de identidade. Ela
chega a falar nesses movimentos como imagens de morte e ressurreição.
Por isso eu separaria dois tipos
de luto:
Luto concreto: morte de
alguém, separação, perda de trabalho, perda de saúde, mudança brusca de vida.
Luto simbólico: perceber
que uma versão de nós mesmas acabou. A mulher que eu era naquele casamento,
naquela idade, naquela profissão, naquela família ou antes de determinada
experiência já não existe da mesma maneira.
E esse segundo pode ser muito
confuso, porque às vezes não há funeral para aquilo que morreu dentro de nós.
Mesmo assim existe saudade, desorientação, raiva, vazio e necessidade de
reconstrução.
A perambulação traduz muito bem
isso: continuar andando enquanto ainda não sabemos quem seremos depois da
perda.
Para a roda, eu colocaria assim:
“A perambulação também pode se
parecer muito com o luto: algo terminou, já não conseguimos voltar à vida como
ela era, mas ainda não sabemos quem seremos depois dessa perda. É o tempo entre
uma identidade que morreu e outra que ainda está nascendo.”
E isso conversa lindamente com o
restante do terceiro estágio: a fome, a procura por um novo alimento, o vento e
a estrada como novos mestres e, depois, o maná que aparece não para apagar a
perda, mas para nos dar alimento suficiente para continuar.
A mulher que entra no segundo
nigredo já não é a mesma que entrou no primeiro.= essa frase está certa?
nigredo não é fase? fase é feminino
Você está certa em estranhar. “No
segundo nigredo” não é a melhor forma.
Como nigredo é
tradicionalmente tratado no feminino — e ainda estamos falando de uma fase
alquímica — o mais natural é dizer:
“A mulher que entra na segunda
nigredo já não é a mesma que entrou na primeira.”
Mas, para ficar ainda mais claro
e elegante no texto da roda, eu prefiro:
“A mulher que entra na segunda
fase de nigredo já não é a mesma que entrou na primeira.”
Ou, mais fluido:
“Quando a mulher retorna à
nigredo, ela já não é a mesma que atravessou a primeira descida.”
Essa última me parece a mais
bonita, porque evita parecer que existem “duas nigredos fixas”; reforça a ideia
de que ela retorna a uma fase semelhante do ciclo, mas em outro nível de
consciência.
No Tarot, essa imagem do guia encontra um eco especial no Eremita. Sua lanterna não ilumina toda a estrada, apenas o suficiente para o próximo passo. Talvez seja justamente isso que um verdadeiro guia faça: não percorre o caminho por nós, não elimina a escuridão e não entrega todas as respostas — apenas oferece luz suficiente para que possamos continuar.
A Lua pode representar esse território profundo, incerto e simbólico que atravessamos; o Eremita, a consciência que nos ajuda a não nos perder dentro dele. E a Morte, quando aparece nesse percurso, lembra que algumas travessias exigem que uma antiga forma de ser termine para que outra possa nascer.
No fim, talvez a questão não seja encontrar alguém que conheça todo o caminho, mas reconhecer aquilo que, em determinado momento, consegue iluminar o próximo passo.
Para uma consulta de Tarot comigo, chamar somente no whatsapp!
Terapeuta Integrativa & Taróloga
#mulheresquecorremcomoslobos #clarissapinkolaestés #capitulo13 #Autoconhecimento #Relacionamentos #CuraEmocional #LibertaçãoEmocional #Reflexão #Ressignificação #BethCastrotaróloga #literaturaemocional #rodademulheressabiasefortes #reflexão #bhtarot #bethcastroterapias #rodadeconversavirtual #rodavirtual #rodademulheres #mulherajudamulher #mulherinteligente #forçafeminina #psicologiaarquetípica #vivênciastransformadoras #mulherselvagem #desapego #encerramentodeciclo #espiritualidade #pazinterior # #ProcessosDeCura #SabedoriaFeminina #Limites #Transformação #rodaterapêutica #saúdeemocional #psicologiafeminina #curaemocional #femininoselvagem #mulheresquesecuram #históriasdemulheres #desenvolvimentopessoal #MulheresEmProcesso #FemininoSelvagem #escutaempática #vozfeminina #Psicologia #Jung #MisticaDaParticipacao #LevyBruhl #Autoconhecimento #InteligenciaEmocional #EscutaEmpatica #SaudeEmocional #PsiqueFeminina #FemininoSelvagem #MulherSelvagem #Simbolismo #Arquetipos #ContosQueCuram #HistoriasQueTransformam #Terapia #Consciencia #BethCastro #resistência #florestasubterrânea #laselvasubterrânea #coragem #discernimento #limite #adonzelasemãos #vidainterior #processopsíquico #criatividade #intuição #elaboraçãopsíquica #crescimentopessoal #terapiaintegrativa #leituraterapêutica #reflexão #moinhodaalma #macieiraflorida #vidainterior #amadurecimento #crescimentopessoal #ciclosfemininos #raízes #self #desenvolvimentopessoal #rodaterapêutica #leituraterapêutica #ragnarok #criançadepedra #contonuit #CSLewis #Maryculhame #mulherdebarro #deusasdobarro #nigredo #albedo #rubedo #arcanomorte #arcanoestrela #arcanolua #almaquesabe #reiki #catlicue #dante #virgíliodedante #saiadeserpentes #divindadeasteca #travessia

Nenhum comentário:
Postar um comentário