Perséfone e
Deméter: o rapto que fez a Terra parar de florescer!
A história de Deméter e Perséfone é muito mais
do que um mito sobre as estações do ano. É uma narrativa sobre separação,
perda, poder, maternidade, descida ao desconhecido e transformação.
E tudo começa em um campo de flores.
Perséfone, filha de Deméter e Zeus,
estava em um campo acompanhada das filhas de Oceano, brincando e colhendo
rosas, violetas, açafrões, íris, jacintos e outras flores.
Mas havia entre elas uma flor extraordinária: o
narciso.
No Hino Homérico a Deméter, essa flor
não aparece por acaso. Gaia, a Terra, a faz nascer segundo o plano de Zeus,
para favorecer Hades e servir de isca para Perséfone. Era uma flor tão
extraordinária que causava admiração até aos deuses.
Perséfone não sabia de nada.
Para ela, havia apenas uma flor belíssima
diante de seus olhos.
Encantada, estendeu as duas mãos para
colhê-la.
E então tudo mudou.
Quando a
terra se abriu!
No instante em que Perséfone se aproxima do
narciso, a terra se abre.
Do mundo subterrâneo surge Hades, senhor dos
mortos, conduzindo sua carruagem de cavalos imortais.
Ele agarra Perséfone contra a vontade dela,
coloca-a na carruagem e a leva para o mundo subterrâneo enquanto ela chora e
grita implorando por seu pai, Zeus.
É importante perceber que Perséfone não
provoca conscientemente a abertura da terra. Ela não escolhe Hades, não
escolhe a descida e não sabe que o narciso faz parte de uma armadilha.
Ela simplesmente toca uma flor.
E o mundo que conhecia desaparece sob seus
pés.
Zeus sabia!
Há um detalhe fundamental nessa história: Hades
não age sem o conhecimento de Zeus.
Logo no início do Hino, Perséfone é
apresentada como aquela que foi entregue por Zeus a Hades. Mais tarde, Hélio
revela a Deméter que Zeus havia dado a filha ao próprio irmão para que fosse
sua esposa.
Deméter, entretanto, não participou dessa
decisão.
Nem Perséfone.
Podemos enxergar aqui uma estrutura
profundamente patriarcal: o pai decide o destino matrimonial da filha, enquanto
mãe e filha ficam excluídas de uma decisão que transformará completamente suas
vidas.
Essa é uma leitura histórica e simbólica do
mito; o Hino propriamente dito nos mostra, de forma inequívoca, que Zeus
consentiu, Deméter não participou e Perséfone foi levada contra sua vontade.
O grito de
Perséfone!
Enquanto é levada, Perséfone grita.
Poucos escutam.
Hécate, de sua caverna, ouve sua
voz, mas não vê quem a levou.
Hélio, o Sol, também ouve e, por observar tudo do
alto, sabe o que aconteceu.
Deméter também percebe o sofrimento da filha,
mas não sabe inicialmente quem a levou.
Começa então uma busca desesperada.
Durante nove dias, Deméter percorre a
Terra carregando tochas nas mãos. Em sua dor, não toma ambrosia nem néctar e
nem sequer se banha. No décimo dia, Hécate se aproxima e as duas vão até Hélio
em busca da verdade.
É Hélio quem finalmente revela:
Hades levou Perséfone, mas Zeus havia permitido!
É nesse momento que a dor de Deméter também se
transforma em ira.
A mãe que
abandona o Olimpo!
Deméter se afasta dos deuses.
Ela deixa o Olimpo e passa a caminhar entre os
mortais disfarçada de uma mulher idosa.
Chega então a Elêusis, onde é acolhida
pela família do rei Céleo e se torna ama de Demofonte, filho de
Metanira.
Deméter começa a cuidar do menino de uma
maneira extraordinária. Durante o dia, unge-o com ambrosia; durante a noite,
coloca-o no fogo como parte de um processo que o tornaria imortal.
Metanira, porém, presencia a cena, assusta-se
e interrompe Deméter.
A deusa então revela sua verdadeira identidade
e declara que, por causa da intervenção da mãe, não poderá mais tornar
Demofonte imortal.
Depois disso, Deméter ordenou que os habitantes de Elêusis construíssem um templo e um altar em sua homenagem. O rei Céleo reuniu o povo e transmitiu a ordem da deusa; os eleusinos então ergueram o templo conforme ela havia determinado.
Mas ela continua sem Perséfone.
E continua enfurecida.
Quando a
dor de Deméter atinge toda a Terra!
Deméter é a deusa ligada à fertilidade da
terra e às colheitas.
Em sua dor e revolta, ela impede que as
sementes brotem.
Os campos deixam de produzir.
A fome ameaça a humanidade.
E surge um problema também para os próprios
deuses: se os seres humanos desaparecessem, desapareceriam igualmente os
sacrifícios e honras que lhes eram oferecidos. O próprio Hino descreve a terra
deixando de produzir porque Deméter ocultava a semente.
Zeus começa a enviar mensageiros para
convencê-la.
Deméter não cede.
Sua posição é clara: sem a filha, a terra
não voltará a florescer.
Finalmente, Zeus manda Hermes ao mundo
subterrâneo para buscar Perséfone.
Hades
permite a partida — mas existe a romã!
Quando Zeus percebe que Deméter não cederá e que a Terra continuará estéril enquanto Perséfone permanecer no mundo subterrâneo, envia Hermes para buscá-la. Perséfone se alegra ao saber que finalmente poderá retornar para sua mãe.Hades recebe a ordem de Zeus e permite que
Perséfone volte para a mãe.
Hades aceita sua partida, mas antes que ela vá embora prepara uma última armadilha. Ele lhe dá uma semente de romã, justamente para que Perséfone não consiga romper completamente sua ligação com o mundo subterrâneo.
Mais tarde, quando conta à Deméter o que aconteceu, Perséfone relata que Hades a obrigou a comer a semente contra sua vontade.
Esse pequeno gesto terá consequências enormes.
Assim, podemos perceber duas armadilhas importantes ao longo do mito:
O Hino Homérico a Deméter não explica exatamente por que foi escolhida uma romã, mas a fruta ganhou uma simbologia muito forte. Por conter numerosas sementes, ela foi associada à fertilidade, fecundidade e vida; ao mesmo tempo, dentro do mito, passa a representar também a ligação de Perséfone com o mundo subterrâneo.
Por isso, a romã reúne simbolicamente os dois mundos aos quais Perséfone passará a pertencer:
Ao comer o alimento daquele mundo, Perséfone já não poderá simplesmente voltar para a vida anterior como se nada tivesse acontecido.
A romã marca uma transformação definitiva.
O reencontro com Deméter!
Hermes conduz Perséfone para fora do mundo subterrâneo.
Quando Deméter vê a filha, corre para
encontrá-la.
Perséfone abandona a carruagem e as duas se
abraçam.
É um dos momentos mais belos da história.
Mas, ainda abraçada à filha, Deméter percebe que pode haver alguma armadilha.
E pergunta:
Você comeu alguma coisa enquanto estava lá
embaixo?
Porque, se não tivesse comido, poderia
permanecer definitivamente fora do mundo subterrâneo.
Perséfone então conta o que aconteceu com a
romã.
Perséfone
não poderá permanecer para sempre com a mãe!
Quando descobre que ela havia comido a romã, compreende que o retorno da filha não poderá ser definitivo.
A solução estabelecida é que Perséfone passará
uma parte do ano no mundo subterrâneo e outra parte junto de Deméter e dos
demais deuses.
No Hino Homérico a Deméter, a divisão
apresentada é bastante específica: um terço do ano abaixo da terra e dois
terços com a mãe e os deuses.
Quando Perséfone retorna para Deméter, a terra
pode novamente florescer.
A semente que permanecia escondida começa
novamente a surgir.
Vida, fertilidade e movimento retornam ao
mundo.
E assim Perséfone passa a pertencer a dois
mundos.
Ela já não é apenas a jovem que colhia flores
no campo.
Conheceu o subterrâneo.
Conheceu Hades.
Conheceu a separação.
E retorna transformada.
Deméter
também não é mais a mesma!
Há uma transformação igualmente profunda em
Deméter.
Sua dor não foi passiva.
Ela se recusou a aceitar silenciosamente
aquilo que havia sido decidido sem sua participação.
Retirou-se do Olimpo.
Retirou sua fertilidade da Terra.
E obrigou Zeus e os demais deuses a
reconhecerem a força de sua ausência.
No final do Hino, Deméter devolve a
fertilidade à terra e transmite seus ritos sagrados em Elêusis, ligados
posteriormente aos famosos Mistérios de Elêusis.
A descida
de Perséfone!
Talvez seja por isso que esse mito continue
tão poderoso.
Podemos lê-lo simbolicamente como a história
daqueles momentos em que o chão se abre em nossa vida.
Estamos vivendo, colhendo nossas flores,
fazendo planos...
e algo acontece.
Uma perda.
Uma separação.
Uma doença.
Uma escolha.
Uma descoberta.
Uma experiência que não imaginávamos viver.
Às vezes, apenas tocamos uma flor... e a vida muda!
Não significa que provocamos aquilo que
aconteceu — Perséfone certamente não provocou seu rapto.
Mas significa que existem acontecimentos que
nos levam para lugares interiores que ainda não conhecíamos.
E, quando conseguimos voltar, talvez já não
sejamos exatamente a mesma pessoa que desceu.
Da jovem
que colhe flores à mulher que conhece dois mundos!
Há uma imagem particularmente bonita em
Perséfone.
No início da história, ela pertence ao campo,
às flores e à mãe.
Depois da descida, passa a conhecer também a
escuridão.
Isso não significa que a escuridão seja melhor
que a luz.
Significa que agora ela conhece ambas.
Talvez amadurecer também tenha algo disso.
Não perder definitivamente nossa capacidade de
colher flores, rir e sentir prazer...
mas saber que existe igualmente um mundo
subterrâneo dentro de nós.
Um lugar onde encontramos nossas dores, medos,
desejos, limites e verdades mais profundas.
E talvez a verdadeira transformação não seja
permanecer para sempre lá embaixo.
Nem fingir que o subterrâneo não existe.
Mas aprender a descer e retornar.
Como Perséfone.
O narciso marca a entrada de Perséfone no subterrâneo; a romã marca o vínculo que fará com que ela nunca mais pertença somente a um mundo!



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