Shotoku Taishi e a Raiva como Mestra: por que Clarissa Pinkola Estés o cita em O Urso da Meia-Lua?
O que um príncipe japonês ligado ao budismo pode nos ensinar sobre a maneira como lidamos com nossas emoções?
Em Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés costuma fazer algo muito interessante: ela não utiliza mitos, personagens históricos e tradições espirituais apenas para contar histórias. Ela os aproxima da vida psicológica e transforma essas referências em caminhos para compreendermos melhor aquilo que acontece dentro de nós.
No capítulo 12, “O Urso da Meia-Lua”, dedicado à raiva, aos limites e ao perdão, aparece rapidamente o nome de Shotoku Taishi. A referência é pequena, mas ajuda a compreender uma das ideias centrais dessa parte do livro: a raiva não precisa ser imediatamente rejeitada; primeiro podemos tentar compreender o que ela está nos mostrando.
Clarissa apresenta Shotoku Taishi como um príncipe-filósofo japonês e afirma que ele ensinava que o trabalho psíquico deveria acontecer tanto no mundo interior quanto no exterior. Em seguida, destaca a ideia de tolerância em relação aos seres humanos, aos animais e também às emoções. É justamente a partir daí que ela desenvolve sua reflexão sobre a raiva como uma emoção que também pode conter conhecimento.
Mas quem foi Shotoku Taishi? E por que Clarissa o coloca justamente aqui?
Quem foi Shotoku Taishi?
Prince Shōtoku, ou Shotoku Taishi, viveu entre 574 e 622, em um período importante de transformação política, cultural e religiosa no Japão. Era sobrinho da imperatriz Suiko e tornou-se uma figura central da corte japonesa. Fontes históricas e a tradição posterior o associaram fortemente à expansão do budismo no Japão, à construção de templos, à diplomacia com o continente asiático e à organização do Estado.
Ele também é tradicionalmente associado à chamada Constituição dos Dezessete Artigos, um antigo conjunto de princípios voltados à conduta daqueles que participavam do governo. A figura de Shotoku, porém, foi sendo ampliada e idealizada ao longo dos séculos, tornando-se também objeto de veneração religiosa. Por isso, atualmente os estudiosos distinguem o Shotoku histórico do personagem extraordinário construído posteriormente pela tradição.
Isso é importante porque Clarissa não está escrevendo uma biografia histórica de Shotoku. Ela está recorrendo à imagem de sabedoria associada a ele para introduzir uma reflexão psicológica.
Por que Clarissa o cita em um capítulo sobre raiva?
Porque antes de ensinar o que fazer com a raiva, Clarissa nos convida a mudar nossa relação com ela.
Normalmente, quando sentimos uma emoção considerada desagradável, pensamos imediatamente:
“Preciso me livrar disso.”
Sentimos raiva e queremos parar de sentir.
Sentimos medo e queremos expulsá-lo.
Sentimos tristeza e queremos que passe rapidamente.
Mas a proposta de Clarissa é diferente.
Antes de eliminar uma emoção, talvez seja necessário tolerar sua presença por algum tempo para descobrir o que ela está tentando nos mostrar.
É nesse contexto que Shotoku Taishi aparece.
A ideia de tolerância não significa gostar da raiva, alimentar a raiva ou permitir que ela determine nossas atitudes.
Significa conseguir dizer:
“Estou com raiva. Não preciso negar isso. Agora preciso compreender por quê.”
Tolerar não significa obedecer
Essa diferença é fundamental.
Reconhecer uma emoção não significa obedecer automaticamente a ela.
Posso sentir vontade de gritar e escolher não gritar.
Posso sentir vontade de responder imediatamente e decidir esperar.
Posso estar profundamente irritada e ainda assim perguntar:
“O que aconteceu comigo aqui?”
Talvez a raiva esteja mostrando que fui desrespeitada.
Talvez um limite tenha sido ultrapassado.
Talvez eu esteja cansada de aceitar determinada situação.
Talvez aquela pessoa tenha tocado numa ferida muito antiga.
Ou talvez eu tenha interpretado uma situação de maneira equivocada.
Só conseguirei descobrir se conseguir permanecer diante da emoção por tempo suficiente para observá-la.
Por isso, existe uma diferença muito grande entre:
acolher a raiva e ser comandada pela raiva.
A raiva pode iluminar
Logo depois de mencionar Shotoku, Clarissa diz que mesmo emoções confusas possuem energia e que podemos utilizar a luz da raiva para iluminar lugares que normalmente não conseguimos enxergar.
Essa imagem é muito bonita.
Imagine alguém que fica profundamente irritado porque o companheiro se atrasou novamente.
À primeira vista:
“Estou com raiva porque ele se atrasou.”
Mas, quando essa pessoa consegue permanecer um pouco mais com aquilo que sente, pode descobrir:
“Na verdade, o atraso desperta em mim uma sensação de que meu tempo não é respeitado.”
Mais profundamente ainda:
“Percebo que tenho muita dificuldade quando sinto que não sou considerada.”
A raiva começou falando sobre atraso.
Mas acabou iluminando respeito, consideração e necessidade de reciprocidade.
A emoção funcionou como uma espécie de lanterna.
Nem expulsar, nem alimentar: escutar
Talvez essa seja uma das maiores contribuições dessa passagem.
Existe um caminho entre reprimir e explodir.
Se reprimimos:
“Não deveria sentir isso.”
Se descarregamos:
“Estou sentindo isso, então tenho direito de fazer qualquer coisa.”
Clarissa nos apresenta uma terceira possibilidade:
“Estou sentindo isso. Vou descobrir o que significa antes de decidir o que fazer.”
É aí que a raiva começa a se tornar mestra.
Não porque ela esteja sempre certa.
Não porque toda interpretação que fazemos quando estamos com raiva seja verdadeira.
Mas porque sua presença pode indicar que existe alguma coisa que merece nossa atenção.
A emoção pode ser verdadeira sem que nossa interpretação seja
Esse ponto é especialmente importante.
Podemos sentir uma emoção verdadeira e chegar a uma conclusão equivocada.
Por exemplo:
“Estou com medo, então certamente existe perigo.”
O medo é verdadeiro.
O perigo precisa ser verificado.
Da mesma forma:
“Estou com raiva, então essa pessoa certamente quis me humilhar.”
A raiva é verdadeira.
A intenção da outra pessoa ainda precisa ser compreendida.
Por isso, acolher uma emoção não significa transformá-la automaticamente em verdade absoluta.
Talvez seja justamente aí que entra a sabedoria proposta por essa passagem: dar espaço ao sentimento sem entregar imediatamente a ele o comando da nossa interpretação e das nossas ações.
O trabalho interior precisa chegar ao mundo exterior
Há ainda outro aspecto da forma como Clarissa apresenta Shotoku que considero muito importante: o trabalho psíquico deve ocorrer tanto dentro quanto fora de nós.
Não adianta descobrir:
“Percebi que não gosto quando ultrapassam meu limite.”
e continuar permitindo exatamente a mesma coisa.
Também não adianta compreender:
“Minha raiva aparece porque tenho dificuldade de dizer não.”
e permanecer dizendo sim para tudo.
O conhecimento interior precisa, em algum momento, produzir alguma mudança exterior.
Talvez uma conversa.
Um limite.
Uma escolha.
Uma mudança de comportamento.
Um pedido de ajuda.
Ou simplesmente uma nova maneira de responder.
Esse movimento atravessa todo O Urso da Meia-Lua: compreender para depois praticar.
A raiva como visitante, não como dona da casa
Talvez possamos imaginar a raiva como uma visitante.
Quando ela chega, podemos expulsá-la imediatamente.
Podemos deixá-la entrar e permitir que destrua a casa inteira.
Ou podemos recebê-la e perguntar:
“Por que você veio?”
Talvez ela diga:
“Porque você está se desrespeitando.”
“Porque alguém atravessou seu limite.”
“Porque existe uma dor antiga aqui.”
“Porque você está cansada.”
“Porque alguma coisa precisa mudar.”
Depois de ouvir, não precisamos permitir que ela permaneça para sempre.
Podemos agradecer a informação e decidir conscientemente o que fazer com aquilo que descobrimos.
É uma imagem muito próxima do movimento que Clarissa desenvolve ao longo do capítulo.
Tolerância emocional não é passividade
É importante não confundir essa proposta com aceitar tudo silenciosamente.
Tolerar uma emoção significa suportar sua presença dentro de nós sem precisar reagir imediatamente.
Não significa tolerar abuso.
Não significa aceitar desrespeito.
Não significa permanecer em relações que nos fazem mal.
Na realidade, quanto melhor conseguimos escutar nossas emoções, maior pode ser nossa capacidade de reconhecer aquilo que precisa de limite.
A raiva pode dizer:
“Até aqui.”
A consciência decide como dizer isso.
Essa diferença muda tudo.
O que Shotoku acrescenta ao Urso da Meia-Lua?
Mesmo aparecendo rapidamente no capítulo, Shotoku Taishi ajuda Clarissa a preparar o terreno para toda a jornada que virá depois.
Primeiro:
não rejeite imediatamente aquilo que sente.
Depois:
observe.
Em seguida:
procure compreender.
E finalmente:
decida o que fazer com aquilo que descobriu.
Mais adiante, encontraremos a curandeira, a montanha, o urso e o fogo transformador. Mas antes de tudo isso existe uma condição necessária:
estar disposta a olhar para a emoção.
Talvez seja por isso que Shotoku aparece justamente antes de Clarissa afirmar que a raiva pode ser nossa mestra.
Para aprender alguma coisa com uma emoção, precisamos primeiro permitir que ela permaneça diante de nós tempo suficiente para ser escutada.
Uma reflexão para levar conosco!
Talvez a pergunta mais importante não seja:
“Como faço para nunca mais sentir raiva?”
Talvez seja:
“Quando a raiva chegar, conseguirei escutá-la antes de decidir o que fazer com ela?”
Porque maturidade emocional não significa viver sem emoções difíceis.
Significa desenvolver espaço suficiente entre sentir e agir para que alguma consciência possa entrar ali.
E talvez seja justamente nesse pequeno espaço que começa aquilo que Clarissa chama de transformação.
Tolerar a raiva não significa permitir que ela governe nossa vida. Significa permitir que ela fale antes de decidirmos o que fazer com aquilo que ouvimos.
Nota: Shotoku Taishi é uma figura histórica envolvida também por séculos de tradição religiosa e relatos idealizados. A ideia de que ele ensinava um “trabalho psíquico” com todas as emoções é apresentada por Clarissa Pinkola Estés dentro de sua leitura de O Urso da Meia-Lua. Este texto diferencia essa interpretação psicológica da autora das informações históricas disponíveis sobre o príncipe.
Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua
No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.
Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.
Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:
Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.
Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.
Espero você!
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