sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O Arcano O Pendurado e A Donzela Sem Mãos de Mulheres Que Correm Com os Lobos!

 


Suspensa entre dois mundos: Perséfone, a Donzela e O Pendurado!

Há momentos da nossa vida em que não conseguimos seguir em frente da maneira habitual, mas também já não podemos voltar para onde estávamos.

É como se a vida nos colocasse em suspensão.

Não estamos exatamente onde estávamos.

Ainda não chegamos ao próximo lugar.

E talvez seja justamente nesse intervalo que alguma coisa muito profunda esteja acontecendo.

No quarto estágio de A Donzela sem Mãos, Clarissa Pinkola Estés traz uma imagem curiosa e poderosa.

Depois de receber as mãos de prata, a Donzela é simbolicamente coroada rainha do outro mundo.

Ela já atravessou a perda, a mutilação, a perambulação, a fome e o contato com regiões profundas da psique. Agora possui recursos que antes não tinha. Aprendeu a perceber aquilo que vive abaixo da superfície.

E então Clarissa aproxima sua história da figura de Perséfone, a jovem que desce ao mundo subterrâneo e se torna rainha da terra dos mortos.

Em seguida, Clarissa traz uma imagem ainda mais impressionante: a de Perséfone passando por tormentos e permanecendo três dias suspensa na Árvore do Mundo, numa espécie de morte e retorno, que ela aproxima simbolicamente de um “Cristo feminino”.

Aqui vale fazer uma pequena observação.

Embora Clarissa associe essa imagem a Perséfone, o motivo dos três dias e três noites de suspensão no mundo dos mortos aparece de forma muito clara em um mito ainda mais antigo: a descida da deusa suméria Inanna ao mundo subterrâneo.

Inanna atravessa os portões do mundo inferior, perde seus atributos, é julgada, morta e seu corpo é pendurado num gancho. Depois de três dias e três noites, começa o movimento que permitirá seu retorno.

Perséfone e Inanna pertencem a tradições diferentes, mas ambas carregam uma imagem poderosa: a mulher que desce ao mundo subterrâneo e não retorna de lá exatamente como entrou.

E é justamente aqui que o Tarô nos oferece outra imagem extraordinária:

O Pendurado.

Clarissa não faz essa associação com o Tarô; esta é uma aproximação simbólica nossa.

No Arcano XII, vemos também uma figura suspensa.

Mas existe um detalhe fundamental:

O Pendurado não está morto.

Ele está parado.

Suspenso.

Sua vida não terminou.

O movimento exterior foi interrompido para que alguma coisa possa acontecer em outro nível.

E talvez essa seja uma das grandes mensagens desse arcano.

Nem toda parada significa fracasso.

Às vezes, não avançar imediatamente faz parte da transformação.

Existem períodos em que a vida parece nos colocar de cabeça para baixo.

Aquilo que antes parecia certo já não parece.

Os valores mudam.

As prioridades mudam.

As relações mudam.

Nós mesmas mudamos.

E então somos obrigadas a olhar para tudo de outro ângulo.

O Pendurado conhece esse território.

Ele não resolve a situação correndo.

Não vence pela força.

Não controla.

Ele permanece.

Observa.

Entrega temporariamente o movimento conhecido e permite que uma nova compreensão apareça.

É quase como se a vida dissesse:

“Da maneira como você enxergava antes, você já não consegue continuar. Então olhe novamente.”

Talvez seja exatamente isso que acontece com a Donzela.

Ela já não pode enxergar a vida com os olhos da jovem que iniciou a história.

Aquela mulher perdeu uma inocência.

Conheceu a dor.

Descobriu a traição.

Aprendeu a caminhar sem saber exatamente para onde estava indo.

Entrou no mundo subterrâneo.

Comeu dos frutos do pomar.

Recebeu mãos de prata.

Agora ela sabe coisas que antes não sabia.

E depois que sabemos, não conseguimos simplesmente voltar ao não saber.

A árvore que suspende também está viva!

Há algo especialmente bonito na imagem do Pendurado: ele não está suspenso numa árvore morta.

A árvore está viva.

Isso muda tudo.

Porque podemos estar temporariamente imóveis enquanto alguma coisa continua crescendo.

Talvez por fora não pareça haver movimento.

Mas por dentro existe elaboração.

Há raízes trabalhando.

Há seiva circulando.

Há uma consciência se reorganizando.

Assim também acontece em determinadas fases da vida.

Uma mulher pode terminar um casamento e passar algum tempo sem saber o que quer construir depois.

Pode deixar uma profissão e ainda não conhecer sua nova direção.

Pode atravessar um luto e descobrir que não consegue voltar imediatamente à vida que levava.

Pode compreender uma verdade profunda sobre si mesma e ainda não saber como colocá-la em prática.

Por fora, talvez pareça parada.

Mas talvez esteja suspensa entre duas formas de existir.

E isso é muito diferente de estar morta.

Perséfone: a mulher que conhece os dois mundos!

Perséfone também carrega essa duplicidade.

Ela conhece a superfície, mas conhece também o mundo subterrâneo.

Ela é Donzela e Rainha.

Conhece flores e sombras.

Conhece nascimento e morte.

E depois da descida já não pertence inteiramente a apenas um desses territórios.

É uma mulher de dois mundos.

A Donzela sem Mãos começa a adquirir essa mesma consciência.

Clarissa a chama de mulher lunar: aquela que sabe o que acontece à noite.

Não porque precise permanecer para sempre na escuridão, mas porque já não teme inteiramente aquilo que existe ali.

Ela conhece o caminho.

E isso é muito diferente de viver na escuridão.

Há mulheres que passaram por situações muito difíceis e que, depois de atravessá-las, desenvolvem uma percepção que antes não possuíam.

Reconhecem determinados sinais.

Percebem quando uma relação começa a repetir antigos padrões.

Sabem quando alguma coisa está terminando.

Sentem quando precisam parar.

Identificam aquilo que antes passaria despercebido.

Não porque o sofrimento seja um presente.

Mas porque a experiência, quando elaborada, pode produzir conhecimento.

A maçã, o pomar e a terra do outro mundo!

Clarissa continua construindo essa imagem através das árvores e dos frutos.

Ela relaciona Perséfone, a Donzela e a macieira florida como figuras ligadas à passagem pelo outro mundo.

E aqui surge também Avalon, a ilha da tradição arturiana associada às maçãs e ao outro mundo.

Avalon é tradicionalmente entendida como a Ilha das Maçãs, um lugar ligado à cura, ao mistério e à passagem para uma dimensão diferente da realidade.

A árvore frutífera reaparece.

A fruta reaparece.

O outro mundo reaparece.

E talvez todas essas imagens estejam dizendo algo semelhante:

há conhecimentos que não adquirimos apenas pensando sobre eles.

Precisamos atravessar experiências.

Precisamos provar o fruto.

Precisamos entrar em contato com aquilo que antes estava fora de nós.

A Donzela come a pera.

Perséfone come o fruto do mundo subterrâneo.

Avalon é a ilha das maçãs.

A árvore aparece como lugar de conhecimento, vida, morte e renovação.

E O Pendurado também está preso a uma árvore viva.

Talvez não seja coincidência que tantas dessas imagens se encontrem ao redor de uma árvore.

A árvore possui raízes enterradas no escuro e galhos que crescem em direção à luz.

Ela pertence aos dois mundos.

Assim como a mulher que atravessa uma verdadeira transformação.

O que precisa ficar suspenso?

O Pendurado nos faz uma pergunta que nem sempre gostamos de ouvir:

O que aconteceria se, por um momento, eu parasse de tentar resolver tudo?

Algumas mulheres conseguem agir.

Mas não conseguem parar.

Conseguem trabalhar.

Resolver.

Organizar.

Cuidar.

Decidir.

Lutar.

Mas talvez exista um momento em que agir mais não produza mais consciência.

É preciso suspender alguma coisa.

Uma certeza.

Uma pressa.

Uma necessidade de controle.

Uma antiga maneira de enxergar.

Talvez seja por isso que O Pendurado aparece antes da carta da Morte na sequência dos Arcanos Maiores.

Primeiro, alguma coisa é suspensa.

Depois, alguma coisa pode terminar.

E somente porque algo termina, outra coisa poderá nascer.

Isso conversa profundamente com o ciclo vida–morte–vida que atravessa toda a história da Donzela.

Três dias!

Também podemos olhar simbolicamente para esses três dias mencionados por Clarissa.

Três dias não precisam ser entendidos apenas como tempo cronológico.

Podem representar um intervalo.

Um período entre desaparecimento e retorno.

Entre uma identidade e outra.

Entre aquilo que morreu e aquilo que ainda não ressurgiu.

É um espaço em que não existe solução imediata.

E talvez seja justamente essa uma das partes mais difíceis de qualquer transformação:

suportar não saber ainda quem seremos depois.

Queremos respostas rápidas.

Queremos saber quando a dor terminará.

Quando a nova relação chegará.

Quando teremos certeza.

Quando voltaremos a nos sentir inteiras.

Mas existem processos que não respondem à nossa pressa.

O Pendurado conhece esse tempo.

Ele não pergunta:

“Como faço para sair daqui imediatamente?”

Talvez sua pergunta seja:

“O que este lugar está tentando me mostrar enquanto ainda estou aqui?”

O Cristo feminino!

Quando Clarissa usa a expressão “Cristo feminino”, acredito que o símbolo mais interessante não seja simplesmente o sofrimento.

Seria perigoso romantizar a dor e imaginar que sofrer torna alguém automaticamente mais sábio.

Não torna.

O que importa é o movimento de descida, suspensão, transformação e retorno.

Algo antigo é entregue.

Há um período de escuridão.

Uma mudança acontece.

E a pessoa retorna diferente.

Esse é também o grande mistério simbólico do Pendurado.

A suspensão não é o destino final.

É passagem.

Ele não ficará pendurado para sempre.

Assim como a Donzela não ficará para sempre no mundo subterrâneo.

Assim como Perséfone não permanece apenas na superfície nem apenas nas profundezas.

A sabedoria está justamente em aprender a atravessar os dois mundos.

Talvez existam momentos em nossa vida em que também somos convidadas a ficar temporariamente entre mundos.

Não somos mais quem fomos.

Ainda não somos plenamente quem seremos.

E nesse lugar desconfortável pode estar acontecendo uma transformação que ainda não conseguimos nomear.

Por isso, talvez a pergunta do Pendurado para a Donzela — e para nós — seja:

O que eu preciso enxergar de outra maneira antes de continuar caminhando?

E talvez exista ainda uma segunda:

Estou realmente parada — ou alguma coisa dentro de mim está amadurecendo enquanto a vida me mantém em suspensão?

Para jogar tarot favor chamar somente  pelo WhatsApp!

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de Novembro, às 14h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.

Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
14h30
Google Meet - se inscreva, me chame somente pelo whatsApp 31-99122-3190.

Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

Vivências Transformadoras.

Terapeuta Integrativa & Taróloga

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