Muen-botoke: quando uma relação termina, mas continua vivendo dentro de nós!
Existem relações que acabam por fora, mas permanecem vivas por dentro.
A pessoa já foi embora. O casamento terminou. A amizade se rompeu. Os caminhos se separaram. Às vezes, nem existe mais contato.
Mesmo assim, aquela relação continua recebendo nossa atenção.
Voltamos mentalmente às conversas. Recriamos discussões. Imaginamos o que deveríamos ter dito. Esperamos um pedido de desculpas que talvez nunca venha. Tentamos compreender por que aquilo aconteceu.
É como se o vínculo tivesse terminado na realidade, mas ainda tivesse um lugar reservado dentro de nós.
Uma antiga expressão japonesa pode provocar uma reflexão interessante sobre isso:
muen-botoke (無縁仏).
O que significa muen-botoke?
No Japão, muen-botoke é uma expressão tradicionalmente utilizada para se referir a pessoas que morreram sem familiares ou pessoas próximas que cuidassem de seu túmulo, realizassem ritos ou preservassem sua memória. Também pode se referir a mortos cuja identidade ou vínculos familiares são desconhecidos.
Portanto, não se trata originalmente de uma filosofia sobre relacionamentos ou de uma técnica de desapego.
Mas sua imagem pode nos oferecer uma poderosa metáfora.
Porque também existem relações que já morreram, mas que continuamos alimentando emocionalmente.
Quando continuamos cuidando do túmulo de uma relação!
Imagine uma mulher cujo relacionamento terminou há cinco anos.
Ela reconstruiu a vida. Não fala mais com o antigo parceiro. Talvez até esteja vivendo uma nova relação.
Mas, de tempos em tempos, volta ao passado.
“Por que ele fez aquilo comigo?”
“Será que algum dia percebeu o quanto me machucou?”
“Eu deveria ter falado tantas coisas.”
“Um dia ele ainda vai entender o que perdeu.”
O relacionamento acabou.
Mas emocionalmente ela continua visitando aquele lugar.
Continua levando flores para algo que já não existe.
Continua conversando com uma história que terminou.
E isso acontece não apenas nos relacionamentos amorosos.
Pode acontecer com uma amizade desfeita.
Com um conflito familiar.
Com alguém que nos traiu.
Com uma injustiça profissional.
Com um pai ou uma mãe que não nos deram aquilo que esperávamos.
Ou até com a versão de nós mesmos que gostaríamos de ter sido.
Nem todo vínculo precisa continuar sendo alimentado!
Há uma diferença importante entre lembrar e continuar vinculado.
Lembrar é reconhecer:
“Isso aconteceu comigo.”
Continuar vinculado é sentir:
“Isso ainda determina o que eu sinto, penso ou faço.”
Uma experiência pode continuar fazendo parte da nossa história sem continuar comandando nossa vida.
Talvez seja justamente aí que comece o desapego.
Não quando apagamos a memória.
Mas quando paramos de alimentá-la diariamente.
Perdoar também pode ser deixar de cobrar uma dívida!
Muitas vezes acreditamos que perdoar significa absolver alguém.
Não necessariamente.
Podemos reconhecer que alguém agiu mal e ainda assim decidir não carregar aquela pessoa emocionalmente conosco para sempre.
Perdoar pode significar deixar de esperar que o outro finalmente:
reconheça o erro,
peça desculpas,
sofra o mesmo que nos fez sofrer,
entenda nossa dor,
ou devolva alguma coisa que sentimos ter perdido.
Porque, enquanto esperamos esse pagamento, a dívida continua aberta.
E toda dívida emocional aberta mantém algum tipo de vínculo.
Às vezes, libertar-se significa simplesmente dizer internamente:
“O que aconteceu não muda. Mas eu não quero mais organizar minha vida ao redor disso.”
Deixar ir não significa dizer que não foi importante!
Existe também um medo silencioso por trás do desapego.
Se eu deixar isso ir, será que estou dizendo que não foi grave?
Se eu parar de sentir raiva, será que estou dando razão ao outro?
Se eu seguir em frente, será que estou diminuindo aquilo que vivi?
Não.
Deixar ir não altera o passado.
Apenas modifica o lugar que o passado ocupa dentro de nós.
Podemos dizer:
“Foi importante.”
“Doeu.”
“Foi injusto.”
“Eu aprendi.”
“Eu não quero viver isso novamente.”
E, ainda assim:
“Eu escolho não carregar mais.”
Talvez existam túmulos emocionais dentro de nós!
Algumas histórias precisam ser lembradas.
Outras precisam ser compreendidas.
Algumas precisam ser choradas.
Mas talvez existam aquelas que simplesmente precisam descansar.
Não porque foram insignificantes.
Mas porque já cumpriram seu tempo em nossa vida.
Talvez possamos olhar para determinados vínculos e perguntar:
Essa relação ainda existe ou sou eu quem continua mantendo viva a relação dentro de mim?
Existe algo que continuo esperando dessa pessoa?
Estou preservando uma lembrança ou alimentando uma ferida?
O que aconteceria se eu parasse de visitar emocionalmente essa história?
Há momentos em que a verdadeira despedida não acontece quando alguém vai embora.
Ela acontece muito depois.
Quando finalmente deixamos de conversar mentalmente com quem já partiu da nossa vida.
Quando paramos de esperar respostas.
Quando deixamos de cobrar dívidas emocionais.
Quando retiramos nossa energia daquele lugar.
E permitimos que algumas histórias, finalmente, descansem.
Não precisamos destruir o passado.
Talvez precisemos apenas parar de morar nele.
Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua
No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.
Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.
Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:
Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.
Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.
Espero você!
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