terça-feira, 8 de setembro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - Muen Botoke Parte 2 - Capítulo 12!

 

Os mortos que ainda alimentamos: relações que terminaram, mas continuam ocupando nossa energia!

Algumas pessoas saem da nossa vida.

Mas não saem de dentro de nós.

O relacionamento terminou há anos, a amizade acabou, o afastamento aconteceu e a pessoa seguiu o caminho dela.

Mesmo assim, continuamos conversando mentalmente com ela.

Explicamos aquilo que nunca conseguimos explicar.

Respondemos às frases que nos feriram.

Imaginamos o pedido de desculpas que gostaríamos de receber.

Fantasiamos o dia em que aquela pessoa finalmente perceberá que estava errada.

E, sem perceber, continuamos oferecendo nossa energia a uma relação que já não existe.

Talvez existam mortos emocionais que ainda alimentamos.

Uma relação pode terminar sem que o vínculo termine!

Existe uma diferença entre uma relação acabar e um vínculo emocional ser encerrado.

Uma relação pode terminar numa quinta-feira qualquer.

Uma conversa.

Uma separação.

Uma despedida.

Uma porta fechada.

Mas o vínculo pode permanecer durante meses ou anos.

Porque o vínculo não depende apenas da presença do outro.

Ele também vive dentro de nós.

Vive naquilo que esperamos.

Naquilo que não compreendemos.

Naquilo que gostaríamos que tivesse acontecido.

Naquilo que ainda queremos cobrar.

Por isso, algumas pessoas permanecem profundamente presentes mesmo estando completamente ausentes.

O ressentimento também é uma forma de vínculo!

Quando pensamos em vínculo, normalmente imaginamos amor, carinho ou saudade.

Mas a raiva também une.

O ressentimento também mantém uma ligação.

Enquanto pensamos:

“Um dia ele vai pagar pelo que fez.”

“Ela precisava reconhecer o quanto me machucou.”

“Eu nunca vou esquecer aquilo.”

“Queria que essa pessoa sentisse o que eu senti.”

A história continua aberta.

O outro pode nem pensar mais em nós, mas continua ocupando um espaço emocional dentro da nossa vida.

É uma constatação desconfortável:

às vezes, odiar alguém nos mantém tão presos quanto amar.

Quantas vezes ainda visitamos aquilo que já morreu?

Existe uma imagem interessante relacionada ao termo japonês muen-botoke.

Tradicionalmente, a expressão está ligada aos mortos que não possuem vínculos familiares ou pessoas que cuidem de sua memória e de seus túmulos.

Não é originalmente uma filosofia sobre relacionamentos.

Mas podemos utilizar essa imagem como uma metáfora para observar nossa própria vida.

Há relações que morreram e mesmo assim, continuamos visitando seus túmulos emocionais.

Levamos flores em forma de pensamentos.

Acendemos velas em forma de lembranças repetidas.

Conversamos novamente com episódios que já aconteceram.

Voltamos ao mesmo lugar mental esperando que, desta vez, o passado responda de outra maneira.

Mas ele nunca responde.

“Por quê?” é uma pergunta que pode não ter fim!

Uma das maneiras mais comuns de permanecermos presos a uma história é continuar perguntando:

“Por que ele fez isso?”

“Por que ela não me escolheu?”

“Por que meu pai nunca conseguiu demonstrar carinho?”

“Por que minha mãe agiu daquela forma?”

“Por que aquela pessoa me traiu?”

“Por que não reconheceram o que fizeram comigo?”

Algumas dessas perguntas possuem respostas.

Outras nunca terão.

E existe um momento em que a busca pela explicação deixa de produzir compreensão e passa apenas a prolongar o sofrimento.

Talvez a pergunta precise mudar.

Em vez de:

“Por que fizeram isso comigo?”

podemos perguntar:

“O que eu preciso fazer agora para que isso deixe de determinar minha vida?”

Essa mudança é enorme.

Porque devolve para nós aquilo que estava nas mãos do outro.

Às vezes, queremos justiça quando o que precisamos é liberdade!

É natural desejar reparação.

Quando somos feridos, existe dentro de nós uma espécie de contador emocional.

Ele registra:

o que demos,

o que recebemos,

o que perdemos,

o que nos fizeram,

o que nunca foi reconhecido.

Então esperamos algum tipo de pagamento.

Um pedido de desculpas.

Uma explicação.

Um arrependimento.

Uma mudança.

Ou simplesmente que a vida cobre daquela pessoa aquilo que ela nos fez.

Mas há um problema.

Enquanto esperamos o pagamento, continuamos sendo credores daquela história.

A dívida permanece aberta.

E uma dívida aberta mantém duas pessoas conectadas.

Talvez o perdão comece justamente quando dizemos:

“Você não precisa mais me pagar para que eu possa seguir.”

Isso não significa dizer que o que aconteceu foi correto.

Significa apenas que nossa liberdade não dependerá mais da consciência do outro.

Perdoar não é convidar alguém novamente para nossa mesa!

Existe uma enorme confusão sobre o perdão.

Perdoar não significa necessariamente reconciliar.

Não significa voltar.

Não significa confiar novamente.

Não significa permitir outro abuso.

Não significa esquecer os limites que aprendemos a estabelecer.

É perfeitamente possível perdoar alguém e nunca mais permitir que essa pessoa tenha o mesmo acesso à nossa vida.

Algumas portas podem ser fechadas sem ódio.

Algumas relações podem terminar sem vingança.

Algumas pessoas podem ser perdoadas à distância.

O perdão não precisa devolver a pessoa para a nossa vida.

Talvez ele sirva justamente para retirá-la de dentro de nós.

Existem conversas que precisamos parar de ter!

Você já percebeu quantas discussões acontecem apenas dentro da nossa cabeça?

Enquanto dirigimos.

Enquanto tomamos banho.

Antes de dormir.

No meio de uma tarefa qualquer.

De repente estamos novamente naquela conversa.

Dizendo aquilo que deveríamos ter dito.

Provando nosso ponto.

Mostrando ao outro como ele estava errado.

Vencendo uma discussão que aconteceu cinco anos atrás.

É uma forma silenciosa de permanência.

A pessoa não está presente.

Mas nossa mente continua convocando-a.

Talvez uma das formas mais concretas de desapego seja perceber:

“Eu não preciso continuar essa conversa.”

E interrompê-la.

Não violentamente.

Apenas escolhendo não oferecer mais energia para aquela cena.

A rotina mostra onde ainda estamos presos!

O desapego não acontece apenas em grandes cerimônias ou profundas reflexões.

Ele aparece nas pequenas escolhas.

Quando o nome da pessoa surge e você não precisa contar novamente toda a história.

Quando alguém pergunta sobre o passado e você consegue responder sem reviver tudo emocionalmente.

Quando você percebe uma lembrança surgindo e não passa os quarenta minutos seguintes reconstruindo mentalmente aquele episódio.

Quando deixa de olhar as redes sociais da pessoa.

Quando para de perguntar aos amigos como ela está.

Quando não precisa saber se ela se arrependeu.

Quando percebe que já não sente necessidade de provar que venceu.

Esses pequenos movimentos são sinais de que uma história está finalmente ocupando o lugar ao qual pertence:

o passado.

Algumas histórias não precisam de um final perfeito!

Talvez uma das coisas mais difíceis de aceitar seja que nem todas as histórias terminam de maneira satisfatória.

Algumas pessoas nunca pedirão desculpas.

Algumas nunca reconhecerão o dano que causaram.

Alguns relacionamentos terminarão sem aquela última conversa esclarecedora.

Algumas perguntas continuarão sem resposta.

Algumas injustiças permanecerão injustas.

E ainda assim podemos seguir.

Porque encerramento não é algo que necessariamente recebemos do outro.

Às vezes, somos nós que precisamos produzi-lo.

Um pequeno exercício!

Pense em alguém que não participa mais da sua vida, mas que ainda aparece frequentemente nos seus pensamentos.

Agora pergunte a si mesmo:

O que ainda espero dessa pessoa?

Um pedido de desculpas?

Reconhecimento?

Arrependimento?

Explicação?

Justiça?

Que ela volte?

Que perceba o que perdeu?

Depois pergunte:

E se isso nunca acontecer?

Essa talvez seja a pergunta mais importante.

Porque é justamente aí que encontramos aquilo que ainda nos prende.

E então podemos fazer uma última pergunta:

Posso construir minha paz mesmo sem receber isso?

Não precisamos responder imediatamente.

Mas talvez seja por aí que o desapego comece.

Deixe os mortos descansarem!

Algumas relações foram maravilhosas enquanto existiram.

Outras nos machucaram profundamente.

Algumas nos ensinaram.

Algumas nos quebraram.

Algumas nos obrigaram a descobrir partes de nós mesmos que jamais conheceríamos de outra maneira.

Todas podem fazer parte da nossa história.

Mas fazer parte da nossa história é diferente de continuar comandando nosso presente.

Talvez existam pessoas que já partiram da nossa vida e que ainda estamos tentando manter emocionalmente vivas.

Talvez seja hora de agradecer pelo que houve.

Chorar pelo que não houve.

Aprender o que precisava ser aprendido.

Devolver ao outro aquilo que pertence a ele.

E recolher de volta aquilo que é nosso.

Nossa atenção.

Nossa energia.

Nosso presente.

Nossa capacidade de amar novamente.

Nossa paz.

Eu não preciso mais carregar você comigo.

E talvez uma das formas mais profundas de liberdade seja conseguir olhar para aquilo que um dia nos feriu e dizer:

Existem histórias que não precisam ser apagadas.

Precisam apenas descansar.

Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua

No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.

Nosso encontro será inspirado no capítulo O Urso da Meia-Lua, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.

Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:

O que a nossa raiva tenta nos mostrar?
Onde precisamos colocar limites?
O que ainda carregamos do passado?
E o que já pode ser transformado e deixado descansar?

Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.

📅 19 de setembro
🕞 15h30
💻 Roda virtual pelo Google Meet- chame no whatsApp para se inscrever!

Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.

Espero você!


🌿 Com carinho,

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