Quando as lágrimas se tornam proteção:
C. S. Lewis, Mary Culhane
e A Donzela sem Mãos!
Quando pensamos em lágrimas, geralmente pensamos em tristeza.
Choramos quando alguma coisa dói, quando perdemos alguém, quando estamos cansadas ou quando já não conseguimos conter aquilo que sentimos.
Mas, no capítulo 14 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés apresenta uma ideia diferente.
Em A Donzela sem Mãos, as lágrimas não aparecem apenas como consequência do sofrimento. Elas começam a funcionar como proteção.
A donzela chora sobre as próprias mãos.
E Clarissa diz que essas lágrimas são a germinação daquilo que irá preservá-la e purificar a ferida recebida.
Para desenvolver essa ideia, ela reúne várias histórias e referências.
Entre elas aparecem C. S. Lewis, o conto inuit da Criança de Pedra e a história de Mary Culhane.
Mas por que Clarissa coloca personagens e tradições tão diferentes lado a lado?
Porque todos eles ajudam a construir uma mesma imagem:
aquilo que parece frágil — uma lágrima — pode possuir uma enorme força psíquica.
Primeiro, quem foi C. S. Lewis?
C. S. Lewis foi um escritor e professor britânico, conhecido principalmente por As Crônicas de Nárnia.
Grande parte de sua obra trabalha com fantasia, mito, espiritualidade, sofrimento, escolhas morais e transformação.
E é justamente por meio de uma imagem atribuída a Lewis que Clarissa começa essa sequência.
Ela escreve que C. S. Lewis falou, sobre um frasco de lágrimas de criança capaz de curar qualquer ferimento com apenas uma gota.
É uma imagem muito forte.
Uma única gota.
Algo pequeno.
Algo aparentemente frágil.
E, no entanto, capaz de tocar uma ferida.
Mas existe um detalhe importante!
No trecho de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa não informa de qual obra de Lewis está retirando essa imagem.
Nas histórias de Nárnia existe, de fato, um pequeno frasco entregue a Lucy contendo um cordial mágico capaz de curar quase qualquer ferimento ou doença. Mas o líquido é descrito por Lewis como um cordial produzido a partir de flores mágicas, e não literalmente como lágrimas de criança.
Por isso, se formos apresentar essa referência, o mais seguro é dizer:
Clarissa atribui a C. S. Lewis essa imagem das lágrimas curativas.
Sem precisar afirmar que existe uma passagem específica de Nárnia exatamente dessa forma.
E talvez o mais importante nem seja localizar literalmente o frasco.
O que interessa para Clarissa é o símbolo que ele oferece.
Algo líquido, pequeno e aparentemente delicado pode possuir uma enorme capacidade reparadora.
E quem é Mary Culhane?
Clarissa traz uma antiga história associada à tradição irlandesa, conhecida em diferentes versões como Mary Culhane ou Mary Culhane and the Dead Man. Há variantes desse conto transmitidas oralmente e posteriormente registradas por diferentes contadores de histórias.
Mas Clarissa seleciona um detalhe muito específico.
Na versão que ela menciona, um demônio que tomou Mary não consegue entrar numa casa onde tenham sido derramadas lágrimas sinceras.
Para ele, aquelas lágrimas são como “água benta”.
Observe como a imagem muda novamente.
Com C. S. Lewis, temos a lágrima associada à cura.
Em Mary Culhane, a lágrima cria uma espécie de limite que o mal não consegue atravessar.
É exatamente aí que começamos a entender por que Clarissa reuniu essas histórias.
As lágrimas da donzela estão fazendo a mesma coisa!
A Donzela sem Mãos está num momento de extrema vulnerabilidade.
O Diabo quer alcançá-la.
Primeiro ela se purifica.
Depois se veste de branco.
Entra no círculo de giz.
E continua chorando.
Clarissa vai mostrando que, simbolicamente, a mulher está criando formas de proteção mesmo quando aparentemente não possui recursos suficientes para enfrentar aquilo que a ameaça.
As lágrimas tornam-se uma dessas formas.
Mais adiante, depois que suas mãos são cortadas, a donzela continua chorando.
E essas lágrimas funcionam quase como um muro de água entre ela e o predador.
Não porque o Diabo tenha pena dela.
Ele não tem.
Mas porque aquilo que as lágrimas representam — contato verdadeiro com o sentimento, consciência e vida psíquica — impede que a força destrutiva domine tudo.
Chorar mantém alguma coisa viva!
Talvez essa seja uma das ideias mais importantes desse trecho.
Quando estamos profundamente feridas, existem diferentes maneiras de sobreviver.
Uma delas é endurecer.
Parar de sentir.
Negar.
Dizer:
“Não aconteceu nada.”
“Não me importo.”
“Já passou.”
“Não vou pensar nisso.”
Em algumas circunstâncias, essa defesa pode até nos ajudar temporariamente.
Mas Clarissa parece interessada em outra possibilidade.
Continuar sentindo.
Não para permanecer eternamente no sofrimento.
Mas para não perder contato com aquilo que está acontecendo dentro de nós.
Ela diz que as lágrimas tornam a mulher consciente.
Quando estamos chorando verdadeiramente, existe algo que já não consegue voltar completamente ao estado de entorpecimento anterior.
Talvez por isso o choro seja tão perigoso para o predador.
Porque sentir também significa perceber.
E perceber pode levar a reconhecer:
“Isso está me machucando.”
“Isso não é aceitável.”
“Eu não quero continuar assim.”
“Eu preciso me proteger.”
Lágrimas não significam passividade!
Esse ponto também é importante.
Chorar não significa apenas ficar parada sofrendo.
No simbolismo utilizado por Clarissa, a lágrima participa de um processo.
Ela pode revelar.
Purificar.
Proteger.
Convocar ajuda.
Restaurar contato com aquilo que sentimos.
Clarissa resume isso dizendo que, ao longo dessas histórias, as lágrimas desempenham três funções: aproximam forças protetoras, afastam aquilo que tenta aprisionar a alma e ajudam a reparar danos decorrentes de pactos infelizes.
Isso muda bastante a ideia comum de que chorar significa simplesmente fraqueza.
Às vezes, chorar é justamente o momento em que algo dentro de nós deixa de aceitar silenciosamente aquilo que estava acontecendo.
Mas chorar não resolve tudo!
E Clarissa também não romantiza as lágrimas.
Ela não diz que basta chorar e tudo estará curado.
Em outro momento desse mesmo estágio, ela escreve uma frase fundamental:
“Chorar não cura o dilema, mas permite que o processo continue em vez de entrar em colapso.”
Talvez essa seja a melhor maneira de compreender todas essas referências.
A lágrima não desfaz o que aconteceu.
Não apaga uma violência.
Não termina automaticamente um relacionamento ruim.
Não recupera imediatamente aquilo que foi perdido.
Mas ela pode impedir que a mulher fique completamente separada do próprio sentir.
E, enquanto alguma coisa ainda consegue sentir, o processo pode continuar.
Talvez seja por isso que Clarissa tenha recorrido a tantas histórias!
Lewis.
A Criança de Pedra.
Mary Culhane.
São universos muito diferentes.
Mas Clarissa não está tentando provar que todas essas tradições dizem exatamente a mesma coisa.
Ela está mostrando como uma mesma imagem simbólica reaparece em histórias diferentes.
A água.
A lágrima.
A purificação.
A proteção.
O amolecimento daquilo que endureceu.
A cura da ferida.
O limite contra aquilo que ameaça destruir.
E então voltamos para a Donzela sem Mãos.
Uma mulher que perdeu sua antiga capacidade de agir, mas que ainda possui uma coisa fundamental:
ela ainda sente.
E talvez seja justamente isso que o predador não consegue retirar dela.
Para refletir!
O que acontece com você quando sofre: você consegue sentir ou tende a endurecer?
Existem lágrimas que você ainda não conseguiu permitir?
O que talvez esteja sendo protegido por baixo daquilo que ficou rígido?
Existe alguma verdade que começou a aparecer justamente quando você finalmente conseguiu chorar?
E talvez a pergunta mais importante:
e se algumas lágrimas não forem sinal de que estamos perdendo nossa força, mas de que alguma parte profunda de nós ainda está lutando para permanecer viva?
“Há lágrimas que não nos afundam. Elas impedem que a alma seque.”
Essa última frase é uma síntese nossa, não uma citação de Clarissa. Para a imagem do blog, eu usaria justamente ela — diferencia bastante da postagem anterior sobre a pedra e mantém as duas publicações conectadas sem ficarem repetitivas.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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