Você precisa esquecer para seguir em frente?
Existe uma ideia bastante repetida quando alguém passa por uma perda, uma decepção ou uma experiência dolorosa: para seguir em frente, seria preciso esquecer.
Mas será mesmo?
No capítulo “Marcas de combate: A participação no Clã das Cicatrizes”, Clarissa Pinkola Estés mostra uma perspectiva diferente. Algumas experiências não desaparecem da nossa história simplesmente porque o tempo passou. Certas perdas, mágoas e vergonhas podem continuar sensíveis durante muitos anos.
Isso não significa, necessariamente, que a pessoa ficou presa ao passado.
Talvez exista uma diferença importante entre lembrar de uma dor e continuar vivendo dentro dela.
Uma ferida aberta exige atenção o tempo inteiro. Ela dói, limita, interfere diretamente na vida. Já uma cicatriz conta outra história: houve uma ferida, houve algum processo de reparação, mas aquela região pode continuar sensível.
Por isso, uma lembrança voltar a doer, e não significa necessariamente que tudo foi perdido ou que a pessoa “voltou ao começo”. Clarissa questiona justamente a ideia de que a dor deveria obedecer a um prazo determinado. Ela cita estudos sobre luto para mostrar que, depois da fase mais intensa, episódios de dor ainda podem reaparecer ao longo dos anos, embora tendam a se tornar menos frequentes e mais curtos.
Pense em alguém que perdeu uma pessoa muito importante.
Anos depois, ela pode trabalhar, amar novamente, fazer planos, rir, viajar e construir uma nova vida. Ainda assim, uma data, uma música, um lugar ou uma lembrança pode trazer de volta uma emoção intensa.
Isso significa que ela não seguiu em frente?
Não necessariamente.
Significa que aquela pessoa e aquela experiência fizeram parte da sua história.
O mesmo pode acontecer com uma rejeição, uma separação, uma humilhação, uma escolha difícil ou uma experiência vivida na infância. A vida continua, mas algumas marcas permanecem.
Talvez o problema esteja na ideia de que seguir em frente precisa significar não sentir mais nada.
Elaborar uma experiência não é apagá-la.
É poder olhar para aquilo e reconhecer:
“Isso aconteceu comigo.”
“Isso me marcou.”
“Ainda pode doer em alguns momentos.”
“Mas isso já não ocupa toda a minha vida.”
No capítulo, Clarissa usa justamente a imagem da cicatriz para mostrar essa diferença. A cicatriz não nega a ferida que existiu. Ela também não exige que aquele lugar nunca mais doa. Ela mostra que alguma forma de reparação aconteceu ali.
E talvez seja por isso que tentar esquecer à força nem sempre ajude.
Quando fazemos um esforço constante para apagar determinada experiência, podemos continuar organizando parte da nossa vida em torno dela: evitando assuntos, lugares, lembranças, pessoas ou sentimentos.
Integrar é diferente.
Integrar é permitir que aquilo ocupe um lugar na história, sem ocupar a história inteira.
Clarissa escreve ainda que aquilo que foi resgatado pode curar uma ferida aberta, mas deixar uma cicatriz; e essa cicatriz pode voltar a doer com as mudanças do tempo. Para ela, isso faz parte da própria natureza de algumas dores humanas.
Por isso, talvez a pergunta não seja:
“Quando vou conseguir esquecer?”
Talvez seja:
“Que lugar essa experiência ocupa hoje dentro de mim?”
Ela ainda dirige minhas escolhas?
Ainda define quem eu sou?
Ou consigo reconhecê-la como parte da minha história, ao lado de muitas outras coisas que também me constituem?
Seguir em frente não precisa significar abandonar tudo o que ficou para trás.
Às vezes significa conseguir carregar uma lembrança sem precisar viver permanentemente dentro dela.
Porque uma cicatriz continua fazendo parte do corpo.
Mas ela já não é a ferida aberta.
Para refletir
Existe alguma experiência que você ainda tenta esquecer, quando talvez o que precise seja encontrar um lugar diferente para ela dentro da sua história?
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