terça-feira, 13 de outubro de 2026

Mulheres Que Correm Com os Lobos - La Selva Subterrânea - Capítulo 14!



Ragnarök em A Donzela sem Mãos: por que Clarissa cita o “crepúsculo dos deuses”?

Em A Donzela sem Mãos, existe um detalhe que pode passar despercebido.

Depois que o moleiro faz o pacto com o Diabo, ele não retorna imediatamente para buscar a jovem.

Passam-se três anos.

Clarissa Pinkola Estés dedica atenção especial a esse intervalo e, para explicar seu significado, faz uma referência inesperada à mitologia nórdica: Ragnarök, o chamado “crepúsculo dos deuses”.

Mas por que trazer Ragnarök para dentro da história da Donzela sem Mãos?

Porque os dois símbolos falam de algo semelhante:

há momentos em que uma antiga ordem precisa chegar ao limite antes que uma nova forma de vida possa surgir.

Os três anos não são apenas tempo!

Clarissa explica que os três anos representam um período em que a mulher ainda não compreende plenamente que ela própria é a vítima do pacto.

Alguma coisa já aconteceu.

Uma escolha foi feita.

Um preço foi estabelecido.

Mas a consciência ainda não alcançou completamente aquilo que essa escolha significará.

É um período de expectativa e de pressão.

A mulher pode sentir que algo está para acontecer, mas ainda não sabe exatamente o quê.

É nesse ponto que Clarissa menciona Ragnarök. 

O que é Ragnarök?

Na referência usada por Clarissa, Ragnarök é o “crepúsculo dos deuses” da mitologia escandinava.

Antes dessa grande destruição, haveria um período de três anos de inverno.

Depois vem a devastação.

E, depois dela, surge um novo mundo.

É justamente esse desenho simbólico que interessa à autora:

pressão → ruptura → transformação → nova vida.

Não é necessário conhecer toda a mitologia nórdica para compreender por que Clarissa usa essa imagem.

Ela está mostrando que algumas mudanças psíquicas não acontecem imediatamente.

Primeiro existe um período em que a tensão aumenta.

Aquilo que antes funcionava começa a deixar de funcionar.

As antigas certezas ficam frágeis.

E chega um momento em que já não é possível continuar da mesma maneira.

O terceiro momento é o momento da transformação!

Clarissa observa também que o número três aparece repetidamente nos contos.

A primeira tentativa não resolve.

A segunda ainda não.

Mas, na terceira, alguma coisa acontece.

Ela diz que, quando se chega à “terceira potência”, a energia acumulada começa a produzir movimento. 

Nas notas do capítulo, ela reforça essa ideia: o três pode representar a culminação de uma luta intensa, um sacrifício que desemboca numa nova vida.

Isso ajuda a compreender os três anos da donzela.

Durante esse período, algo está sendo preparado.

Não externamente apenas.

Internamente.

Às vezes sabemos que algo está terminando antes de saber o que vai começar!

Talvez seja essa uma das experiências humanas mais difíceis.

Perceber que a vida como está não consegue mais continuar, mas ainda não enxergar o que virá depois.

Uma relação perdeu seu sentido.

Um trabalho deixou de representar quem somos.

Uma forma de viver tornou-se pequena.

Uma antiga identidade já não nos serve.

Mas a nova ainda não apareceu.

É um espaço intermediário.

Não estamos mais completamente na vida antiga.

Mas ainda não chegamos à nova.

Talvez os “três anos” do conto representem justamente esse território.

O inverno antes da mudança!

A imagem do inverno é muito adequada.

No inverno, aparentemente pouco acontece.

A árvore perde suas folhas.

A paisagem parece vazia.

O crescimento deixa de ser visível.

Mas isso não significa ausência de vida.

Existe um processo acontecendo abaixo da superfície.

E talvez seja isso que Clarissa esteja mostrando ao aproximar os três anos do conto dos três invernos que antecedem Ragnarök.

Antes da transformação visível, existe um período subterrâneo.

Algo está se acumulando.

Algo está amadurecendo.

Algo está chegando ao limite.

Mas Clarissa não está dizendo que precisamos sofrer para crescer!

Esse ponto é fundamental.

Nas notas do mesmo capítulo, Clarissa deixa claro que o fato de uma pessoa poder desenvolver força depois de uma experiência dolorosa não torna aceitável o mal que lhe aconteceu.

Portanto, a imagem de Ragnarök não deve ser entendida como:

“Precisamos ser destruídas para renascer.”

Ou:

“Tudo acontece porque precisamos aprender alguma coisa.”

Não.

O que Clarissa está observando é outra coisa:

quando uma ruptura já aconteceu, a psique pode tentar criar uma nova organização a partir dela.

A ferida não se torna boa porque algo novo nasceu depois.

O fim de um mundo não é necessariamente o fim da vida!

Ragnarök é uma imagem extrema porque fala do colapso de uma ordem inteira.

E isso ajuda a entender o que acontecerá com a donzela.

A vida que ela conhecia vai terminar.

Sua inocência será rompida.

Suas mãos serão cortadas.

Ela precisará deixar a casa dos pais.

Perambular.

Receber ajuda.

Aprender outras formas de viver.

Ou seja, o mundo antigo dela realmente termina.

Mas a história não termina.

Esse é o ponto.

Algumas transformações começam quando já não conseguimos continuar como antes!

Talvez seja essa a razão mais profunda pela qual Clarissa traz Ragnarök para esse capítulo.

Ela quer mostrar que determinados processos psíquicos chegam a um ponto de saturação.

Durante muito tempo podemos continuar.

Adaptar.

Suportar.

Ignorar.

Tentar fazer funcionar.

Até que alguma coisa chega ao limite.

E então acontece uma ruptura.

Depois dela, não somos mais exatamente quem éramos.

Ainda não sabemos quem seremos.

Mas alguma coisa começou a se mover.

Talvez você já tenha vivido um pequeno Ragnarök!

Não no sentido literal de destruição.

Mas talvez tenha vivido momentos em que uma parte importante da sua vida desmoronou.

Uma relação terminou.

Uma crença caiu.

Uma identidade deixou de fazer sentido.

Uma forma de viver tornou-se impossível.

E durante algum tempo você talvez tenha pensado:

“E agora?”

Talvez esse seja o ponto em que o conto da Donzela sem Mãos e a imagem de Ragnarök se encontram.

Não na glorificação da destruição.

Mas na compreensão de que, às vezes, quando uma antiga organização da vida termina, começa um período em que outra precisa ser construída.

E é justamente nesse espaço entre o que terminou e aquilo que ainda não nasceu que começa uma das partes mais profundas da jornada da donzela.

Para refletir!

Existe alguma área da sua vida em que você percebe que a antiga forma de viver já não funciona, mas a nova ainda não apareceu?

O que talvez esteja amadurecendo durante esse “inverno”?

E, principalmente:

o que precisa terminar para que você possa enxergar com mais clareza aquilo que precisa começar?

Nossa próxima roda, inscrições abertas!

No dia 7 de Novembro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:

La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.

Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.

Também vamos pensar sobre resistência, transformação, autonomia e sobre como algumas experiências nos modificam profundamente.

Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

07de Novembro
15h30
Google Meet - se inscreva, somente pelo whatsApp 31-99122-3190.

Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.

 🌿 Com carinho,

Vivências Transformadoras.

Terapeuta Integrativa & Taróloga

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