Paciência não é passividade!
Há uma diferença enorme entre esperar e estar parada.
Às vezes, confundimos paciência com resignação. Pensamos que ser paciente significa aceitar tudo, não reagir, suportar indefinidamente ou simplesmente aguardar que alguma coisa mude sozinha.
Mas, no conto apresentado por Clarissa Pinkola Estés, a paciência aparece de outra maneira.
A mulher precisa conseguir um pelo do urso. Poderia tentar enfrentá-lo, dominá-lo ou aproximar-se rapidamente para retirar aquilo de que precisa. Mas qualquer uma dessas tentativas provavelmente terminaria mal.
O urso é selvagem.
Ele possui força própria.
Tem seu ritmo.
Não pode ser apressado apenas porque ela deseja chegar logo ao resultado.
Então a mulher começa a fazer algo aparentemente simples, mas profundamente difícil: ela aprende a se aproximar aos poucos.
Observa.
Espera.
Leva alimento.
Volta no dia seguinte.
Percebe a reação do animal.
Avança um pouco.
Recua quando necessário.
E retorna novamente.
À primeira vista, pode parecer que ela está apenas esperando. Mas ela está fazendo exatamente o contrário.
Ela está participando ativamente do processo.
Existe atenção em cada movimento. Existe coragem em cada aproximação. Existe disciplina em cada retorno. Existe escolha no momento de avançar e sabedoria no momento de parar.
Isso é muito diferente de passividade.
A passividade diz: “Não há nada que eu possa fazer.”
A paciência consciente pergunta: “O que posso fazer agora, respeitando o tempo deste processo?”
Talvez essa seja uma das grandes lições da história.
Nem tudo pode ser resolvido pela força.
Nem tudo responde à nossa urgência.
Nem tudo amadurece no momento em que decidimos que já esperamos demais.
E isso é especialmente verdadeiro quando estamos lidando com emoções profundas.
Queremos compreender rapidamente a raiva.
Queremos superar logo uma mágoa.
Queremos deixar de sentir aquilo que incomoda.
Queremos que uma relação se transforme.
Queremos uma resposta.
Queremos sair do desconforto.
Mas existem processos internos que não obedecem à nossa pressa.
Quando carregamos dores antigas, não basta dizer a nós mesmas: “A partir de hoje não vou mais sentir isso.”
Uma emoção construída ao longo de anos dificilmente desaparece porque tivemos uma única compreensão.
Podemos descobrir de onde vem nossa raiva e ainda assim senti-la novamente.
Podemos compreender que determinada reação está ligada ao passado e, mesmo assim, perceber aquela ferida sendo ativada outra vez.
Podemos saber racionalmente que precisamos colocar limites e ainda encontrar dificuldade para pronunciá-los.
Isso não significa que não estamos avançando.
Talvez apenas signifique que estamos aprendendo a nos aproximar do nosso próprio “urso”.
E essa aproximação também exige repetição.
Hoje percebemos a raiva depois de explodir.
Em outro momento, conseguimos percebê-la enquanto estamos explodindo.
Depois, talvez consigamos reconhecê-la alguns segundos antes.
Até que, um dia, sentimos aquela força chegando e conseguimos perguntar:
“O que está acontecendo comigo?”
“O que foi tocado aqui?”
“Que limite está sendo ultrapassado?”
“O que eu realmente preciso fazer?”
É assim que alguma coisa começa a mudar.
Não necessariamente de uma vez.
Mas pouco a pouco.
Talvez a paciência seja exatamente isso: continuar trabalhando mesmo quando a transformação ainda não está visível.
É permanecer comprometida com aquilo que queremos compreender.
É voltar para nós mesmas quantas vezes forem necessárias.
É perceber que repetir um aprendizado não significa ter fracassado.
Às vezes pensamos que, depois de entender alguma coisa, nunca mais deveríamos voltar ao comportamento antigo.
Mas processos emocionais raramente acontecem em linha reta.
Há avanços.
Há recaídas.
Há dias em que conseguimos responder de uma forma nova e outros em que percebemos que fomos novamente tomadas por uma reação conhecida.
A paciência permite olhar para isso sem transformar cada recaída numa condenação.
Ela nos ajuda a perguntar:
“O que ainda preciso aprender aqui?”
Em vez de:
“Por que ainda não consegui mudar?”
Essa diferença parece pequena, mas muda profundamente a maneira como caminhamos.
Também existe outro aprendizado importante no encontro com o urso: saber esperar não significa abandonar os próprios limites.
A mulher respeita o tempo do animal, mas continua retornando.
Ela não invade.
Mas também não desiste de sua busca.
Ela não domina.
Mas continua presente.
Talvez possamos levar essa mesma sabedoria para nossas relações.
Podemos dar tempo a alguém sem permitir que essa pessoa nos machuque indefinidamente.
Podemos compreender que alguém está vivendo um processo difícil e, ainda assim, dizer: “Isso eu não aceito.”
Podemos esperar por uma transformação sem suspender nossa própria vida enquanto ela não acontece.
Podemos ter compaixão e, ao mesmo tempo, manter distância.
Paciência não significa permanecer eternamente diante de uma porta fechada.
Às vezes, ser paciente também significa reconhecer o momento de seguir.
Por isso, a pergunta não é apenas “quanto tempo devo esperar?”
Talvez seja:
“O que estou fazendo enquanto espero?”
Estou aprendendo?
Estou observando?
Estou me fortalecendo?
Estou estabelecendo limites?
Estou mudando a minha forma de responder?
Ou apenas estou paralisada esperando que outra pessoa resolva aquilo que eu não consigo controlar?
Existe uma diferença enorme entre esperar que a vida aconteça e caminhar junto com o tempo necessário para que alguma coisa amadureça.
A mulher do conto não arrancou o pelo do urso à força.
Ela também não ficou sentada ao pé da montanha esperando que o urso viesse até ela.
Ela caminhou.
Observou.
Voltou.
Tentou novamente.
Aprendeu.
E foi se transformando durante esse processo.
Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de compreender a paciência:
não como ausência de movimento, mas como a capacidade de continuar caminhando sem violentar o tempo das coisas.
Porque algumas transformações precisam de coragem.
Outras precisam de decisão.
E algumas precisam simplesmente que continuemos presentes tempo suficiente para que aquilo que estamos aprendendo possa criar raízes dentro de nós.
Ter paciência com um processo não significa ficar parada dentro dele.
Significa continuar caminhando, mesmo quando ainda não conseguimos enxergar claramente o quanto já mudamos.
Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua
No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.
Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.
Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:
Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.
Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.
Espero você!
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