Perder a inocência sem perder a alma!
“Nenhum ente senciente neste mundo tem a permissão de permanecer inocente para sempre.”
Há frases que atravessamos rapidamente.
E há frases que nos obrigam a parar.
Essa é uma delas.
Quando Clarissa Pinkola Estés escreve que nenhum ser senciente tem permissão para permanecer inocente para sempre, ela toca numa questão muito maior do que simplesmente “crescer” ou “amadurecer”.
Ela fala sobre o momento em que já não podemos continuar vivendo como se não soubéssemos.
E talvez esse seja um dos grandes desafios da vida adulta.
Porque perder a inocência não significa necessariamente perder a bondade.
Não significa tornar-se amarga.
Não significa desconfiar de tudo.
Muito menos perder a capacidade de amar.
A verdadeira questão talvez seja outra:
Como deixar de ser ingênua sem deixar de ser sensível?
O que significa ser senciente?
A palavra “senciente” pode parecer complicada, mas a ideia é simples.
Um ser senciente é aquele que sente, percebe, experimenta e é afetado pelo que acontece.
E se somos capazes de sentir e perceber, também somos inevitavelmente transformados pela experiência.
É impossível viver sem que a vida nos mostre coisas que preferiríamos não ter visto.
Em algum momento descobrimos que as pessoas podem decepcionar.
Que algumas relações terminam.
Que nem sempre a justiça acontece no tempo que gostaríamos.
Que existem perdas que não podem ser evitadas.
Que pessoas boas também sofrem.
Que quem amamos pode errar.
Que nós mesmas erramos.
E descobrimos também coisas maiores.
Violência.
Guerras.
Desigualdades.
Abandono.
Preconceitos.
Manipulações.
Abusos de poder.
Sofrimentos que acontecem perto de nós e outros que chegam através das telas todos os dias.
Aos poucos, aquela ideia infantil de que o mundo deveria funcionar de determinada maneira começa a se desfazer.
E talvez seja disso que Clarissa esteja falando.
Existe um momento em que a inocência precisa dar lugar à consciência.
A inocência diz: “Eu não sabia”
Durante algum tempo, não saber é natural.
Faz parte da infância.
Faz parte da juventude.
Faz parte também de determinadas etapas da nossa vida.
Não conhecemos ainda.
Não percebemos.
Não tivemos experiência suficiente.
Mas chega um momento em que alguma coisa nos é revelada.
E, depois disso, já não conseguimos voltar exatamente ao lugar anterior.
A inocência pode dizer:
“Eu não sabia.”
A consciência precisa perguntar:
“Agora que eu sei, o que faço com aquilo que sei?”
Essa talvez seja a grande diferença.
Porque conhecer alguma coisa também produz responsabilidade.
A Donzela sem Mãos e o fim da ingenuidade!
No conto A Donzela sem Mãos, estudado por Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos, a jovem passa por uma profunda transformação.
No início da história, muitas decisões importantes acontecem ao redor dela antes que ela consiga compreender completamente aquilo que está acontecendo.
O pai faz um pacto.
Ela é envolvida pelas consequências.
Perde as mãos.
É obrigada a abandonar uma vida conhecida.
E precisa iniciar uma longa jornada.
Podemos ler tudo isso literalmente como um conto fantástico.
Mas podemos também enxergar a dimensão simbólica.
A Donzela representa aquela parte da mulher que ainda não conhece totalmente a própria força.
Que ainda depende das referências externas.
Que ainda não percebe todos os perigos.
Que ainda acredita que poderá permanecer protegida dentro do mundo conhecido.
Mas a vida rompe essa proteção.
E então começa outra etapa.
Ela precisa aprender a reconhecer.
A perceber.
A escolher.
A caminhar.
Em outras palavras:
ela precisa perder a inocência para adquirir consciência.
Mas perder a inocência não significa perder a alma!
Esse ponto é fundamental.
Porque existe uma maneira destrutiva de perder a inocência.
É quando uma pessoa sofre e conclui:
“Não confio mais em ninguém.”
“Todo mundo quer alguma coisa.”
“Amar é ser fraco.”
“Preciso endurecer.”
“Não posso sentir.”
Nesse caso, a experiência não produziu apenas consciência.
Produziu uma armadura.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Consciência nos ajuda a perceber melhor.
A armadura nos impede de sentir.
Consciência cria discernimento.
A armadura cria medo.
Consciência permite colocar limites.
A armadura constrói muros.
Talvez o verdadeiro amadurecimento esteja justamente em conseguir dizer:
“Agora eu enxergo mais, mas não preciso me tornar menos humana por causa disso.”
Talvez amadurecer seja perder a ingenuidade, não a ternura
Essa é uma distinção que considero importante.
Podemos perder a ingenuidade e continuar sendo generosas.
Podemos compreender que existem pessoas manipuladoras e continuar acreditando em relações saudáveis.
Podemos reconhecer injustiças e continuar escolhendo agir com ética.
Podemos aprender a colocar limites sem perder a capacidade de acolher.
Podemos reconhecer a escuridão sem permitir que ela defina quem somos.
Isso exige maturidade.
Porque às vezes é mais fácil permanecer ingênua.
E outras vezes é mais fácil tornar-se dura.
O caminho intermediário exige consciência.
É saber que existem lobos sem precisar transformar todo mundo em lobo.
E talvez isso seja especialmente importante para as mulheres!
Durante muito tempo, a feminilidade foi associada à docilidade, à ingenuidade e ao silêncio.
A mulher considerada “boa” deveria saber menos.
Perguntar menos.
Desconfiar menos.
Confrontar menos.
Perceber menos.
Muitas mulheres aprenderam desde cedo a ignorar sinais que o próprio corpo e a própria intuição percebiam.
“Não pense isso.”
“Você está exagerando.”
“Seja educada.”
“Não faça confusão.”
“Talvez você tenha entendido errado.”
E aos poucos uma mulher pode aprender a desconfiar daquilo que percebe.
Clarissa trabalha justamente na direção contrária.
A mulher selvagem é aquela que recupera o instinto de perceber.
Ela fareja.
Observa.
Escuta.
Reconhece.
Não porque se torna paranoica.
Mas porque deixa de abandonar a própria percepção.
E isso muda tudo.
O conhecimento também cobra uma posição!
Talvez uma das partes mais desconfortáveis da consciência seja essa.
Depois que sabemos determinadas coisas, já não podemos fingir que não sabemos.
Isso vale para a nossa própria vida.
Quando reconhecemos que uma relação nos machuca.
Quando percebemos que determinado comportamento se repete.
Quando entendemos que estamos nos abandonando para agradar alguém.
Quando reconhecemos que determinada escolha já não combina conosco.
Podemos adiar uma decisão.
Podemos tentar esquecer.
Podemos racionalizar.
Mas alguma coisa dentro de nós já sabe.
E esse conhecimento muda a nossa relação com a própria vida.
E existe também uma consciência coletiva
Essa frase ganha ainda mais força quando olhamos para o mundo atual.
Vivemos cercados por informação.
Vemos acontecimentos praticamente em tempo real.
Chegam até nós guerras, crises, desigualdades, violência, intolerância e inúmeros conflitos humanos.
Nunca estivemos tão expostos àquilo que acontece fora do nosso pequeno círculo.
Mas isso cria um paradoxo.
Podemos saber muito e, ao mesmo tempo, compreender muito pouco.
Podemos consumir dezenas de notícias e permanecer anestesiados.
Podemos assistir ao sofrimento como quem passa rapidamente para o próximo conteúdo.
Por isso, consciência não é apenas receber informação.
Consciência exige elaboração.
Perguntar.
Pensar.
Comparar.
Investigar.
Reconhecer complexidades.
Não aceitar automaticamente tudo aquilo que nos é apresentado.
E, principalmente, perceber qual é a nossa responsabilidade diante daquilo que conhecemos.
Não precisamos carregar o mundo inteiro
Consciência não significa assumir todos os problemas existentes.
Ninguém conseguiria.
Não temos capacidade emocional para responder a todas as dores do mundo.
Também precisamos preservar nossa saúde, nossas relações, nosso cotidiano e nossa capacidade de alegria.
Mas há uma diferença entre reconhecer nossos limites e escolher deliberadamente a indiferença.
Talvez amadurecer seja aprender essa medida.
Não carregar tudo, mas também não fingir que nada nos diz respeito.
O Tarot também fala sobre a perda da inocência!
Podemos fazer uma aproximação simbólica com o Tarot.
No início da jornada está O Louco.
Ele caminha aberto para a experiência.
Existe liberdade, espontaneidade, confiança.
Mas também existe aquilo que ainda não foi experimentado.
O Louco precisa caminhar.
E ao longo dos Arcanos encontra escolhas, perdas, desejos, limites, rupturas, medos e transformações.
Encontra Os Enamorados, A Justiça, O Enforcado, A Morte, A Torre, A Lua.
Não é mais possível permanecer exatamente com o mesmo olhar do início.
Mas a jornada não termina no cinismo.
Ela caminha em direção ao Sol, ao Julgamento e ao Mundo.
Ou seja:
a consciência adquirida durante a jornada pode nos devolver à vida de uma maneira diferente.
Não mais inocentes.
Mas talvez mais inteiros.
Ver sem endurecer!
Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo.
Ver sem endurecer.
Compreender sem perder a capacidade de sentir.
Reconhecer o mal sem esquecer que também existe beleza.
Enxergar as contradições humanas sem desistir completamente das pessoas.
Perder certas ilusões sem perder a esperança.
Porque existe uma diferença entre esperança e ingenuidade.
A ingenuidade acredita que nada ruim acontecerá.
A esperança sabe que coisas ruins acontecem e, ainda assim, escolhe continuar construindo alguma coisa.
Talvez essa seja uma forma muito mais madura de esperança.
Depois que sabemos, o que fazemos?
Existe um momento da vida em que algumas perguntas mudam.
Deixamos de perguntar apenas:
“Por que isso aconteceu?”
E começamos a perguntar:
“Agora que aconteceu, o que farei com isso?”
Deixamos de perguntar:
“Por que ninguém me contou?”
E começamos a perguntar:
“Agora que sei, como vou viver?”
Talvez seja exatamente esse movimento que existe por trás da frase de Clarissa.
Nenhum ser capaz de sentir e perceber pode permanecer inocente para sempre porque a própria experiência nos transforma.
A questão não é evitar essa transformação.
A questão é escolher o que faremos com ela.
Podemos transformar conhecimento em medo.
Podemos transformá-lo em amargura.
Podemos transformá-lo em indiferença.
Ou podemos transformá-lo em discernimento.
Em limite.
Em responsabilidade.
Em coragem.
Em humanidade.
Talvez amadurecer seja justamente isso:
perder a inocência sem perder a alma.
E talvez exista uma pergunta que valha a pena levar conosco:
Depois que sabemos, ainda podemos continuar vivendo como se não soubéssemos?
Nossa próxima roda, inscrições abertas!
No dia 7 de Novembro, às 15h30, pelo Google Meet, vamos conversar sobre o Capítulo 14:
La Selva Subterrânea: A iniciação na floresta subterrânea — A Donzela sem Mãos.
Vamos refletir sobre os momentos em que a vida nos leva para territórios desconhecidos, sobre a perda da inocência, a sensação de ficar sem recursos, a necessidade de continuar mesmo sem saber exatamente o caminho e a importância de reconhecer a ajuda que surge durante a travessia.
Será um encontro de reflexão, escuta e partilha a partir de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
07de Novembro
15h30
Google Meet - se inscreva, me chame somente pelo whatsApp 31-99122-3190.
Talvez algumas travessias nos deixem, por um tempo, sem saber como agir. Mas é justamente nesse caminho que podemos descobrir novas formas de nos sustentar, escolher e voltar a tocar a própria vida com as nossas mãos.
Terapeuta Integrativa & Taróloga
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