O preço de alimentar uma raiva por muitos anos!
Existem raivas que chegam com força, cumprem uma função e depois diminuem.
Mas existem outras que permanecem.
Elas continuam voltando em pensamentos, conversas imaginárias, lembranças repetidas, desejos de reparação e na necessidade de provar que estávamos certas.
Às vezes, a situação já terminou há muito tempo.
A relação acabou.
A pessoa seguiu a vida.
O conflito ficou no passado.
Mas, dentro de nós, a história continua acontecendo.
Voltamos mentalmente à mesma conversa.
Pensamos no que deveríamos ter dito.
Imaginamos o que responderíamos hoje.
Esperamos que o outro reconheça o erro.
Desejamos que finalmente compreenda o quanto nos feriu.
E, sem perceber, uma parte da nossa energia continua sendo investida em algo que já não existe no presente.
A raiva pode ter sido necessária em algum momento.
Talvez ela tenha nos ajudado a perceber uma injustiça.
Talvez tenha mostrado que um limite foi ultrapassado.
Talvez tenha nos dado força para sair de uma situação, dizer “não”, romper uma relação ou proteger algo importante.
Nesse sentido, a raiva pode ter cumprido uma função.
O problema começa quando aquilo que deveria funcionar como um sinal se transforma em um lugar onde continuamos vivendo.
Porque manter uma raiva por muitos anos também custa energia.
Pensar repetidamente sobre o mesmo acontecimento custa energia.
Repassar conversas custa energia.
Imaginar respostas custa energia.
Esperar um pedido de desculpas custa energia.
Desejar que o outro finalmente perceba o que fez custa energia.
E talvez nem percebamos o quanto estamos cansadas porque essa energia foi sendo retirada aos poucos de outros lugares da nossa vida.
Da criatividade.
Dos projetos.
Dos vínculos novos.
Da capacidade de confiar.
Da possibilidade de descansar.
Da vontade de experimentar algo diferente.
É como manter uma porta aberta para uma história que já terminou.
Talvez a raiva continue entrando por ela todos os dias.
E isso não significa que aquilo que aconteceu deixou de ser importante.
Também não significa apagar a memória, justificar quem nos feriu ou fingir que não houve injustiça.
Liberar uma raiva não é dizer:
“Tudo bem.”
Pode significar simplesmente dizer:
“Isso aconteceu. Eu reconheço o que me causou. Aprendi o que precisava aprender. Mas não quero mais gastar a minha vida alimentando essa história.”
Há uma diferença entre lembrar e reviver.
Podemos lembrar de algo sem retornar emocionalmente à cena todas as vezes.
Podemos compreender o passado sem continuar discutindo com ele.
Podemos reconhecer uma ferida sem precisar mantê-la aberta para provar que ela existiu.
Talvez uma das perguntas mais difíceis seja:
O que ainda estou esperando receber dessa pessoa ou dessa história?
Um pedido de desculpas?
Reconhecimento?
Arrependimento?
Justiça?
Que o outro sofra?
Que admita que eu estava certa?
Que finalmente compreenda minha dor?
E depois vem uma pergunta ainda mais difícil:
E se isso nunca acontecer?
Se a nossa paz depender exclusivamente daquilo que o outro precisa fazer, continuamos ligadas àquela pessoa.
Continuamos esperando.
Continuamos cobrando.
Continuamos oferecendo energia.
Talvez o processo de cura comece quando percebemos que podemos desejar justiça sem entregar nossa vida inteira à espera dela.
Podemos estabelecer limites.
Podemos nos afastar.
Podemos lembrar do que aconteceu.
Podemos decidir que aquilo nunca mais será permitido.
E, ainda assim, escolher não continuar alimentando diariamente a raiva.
Isso não acontece de uma vez.
Há histórias que precisam primeiro ser compreendidas.
Há dores que precisam ser reconhecidas.
Há momentos em que a raiva precisa ter espaço para existir antes que possa ser transformada.
Mas chega um ponto em que também precisamos perguntar:
Essa raiva ainda está me protegendo ou apenas está me prendendo?
Porque aquilo que um dia nos deu força pode, depois de muito tempo, começar a nos consumir.
E talvez liberar essa energia seja permitir que ela volte para onde realmente pode produzir vida.
Para um novo projeto.
Para uma nova relação.
Para um interesse que ficou esquecido.
Para uma conversa presente.
Para a criatividade.
Para nós mesmas.
Não se trata de esquecer.
Trata-se de não continuar oferecendo todos os dias a mesma quantidade de energia a algo que já terminou.
Talvez algumas histórias precisem continuar fazendo parte da nossa memória.
Mas não precisam continuar ocupando o centro da nossa vida.
Por isso, vale perguntar:
Quanto da sua energia ainda está sendo usada para manter vivo aquilo que já terminou?
E o que poderia começar a nascer se essa energia finalmente voltasse para você?
Roda Virtual — O Urso da Meia-Lua
No dia 19 de setembro, às 15h30, teremos mais uma roda de conversa virtual pelo Google Meet.
Nosso encontro será inspirado no capítulo “O Urso da Meia-Lua”, de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Vamos conversar sobre raiva, limites, instinto, feridas emocionais, transformação e perdão, procurando compreender as metáforas e símbolos que Clarissa utiliza ao longo desse capítulo tão profundo.
Mais do que entender o texto, a proposta é trazer essas reflexões para a nossa própria história:
Será um encontro de escuta, reflexão, troca e autoconhecimento.
Prepare seu cantinho, seu café ou chá e venha participar conosco.
Espero você!
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